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Publicado em: 29/10/2026 | Atualizado em: 29/10/2026

Aplicativo ajuda entregadores na organização financeira e no cálculo do ganho real

Paula Guatimosim

No Brasil, cerca de dois milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos (apps), em sua maioria por conta própria, segundo pesquisa

O Brasil possui cerca de dois milhões de pessoas que trabalham por meio de aplicativos (apps), em sua maioria por conta própria, segundo resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada em setembro passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa revela que o contingente de 1,959 milhão de trabalhadores por apps, com 14 anos ou mais, representavam 1,9% do total de ocupados no País. Enquanto quase 60% dos trabalhadores “plataformizados” utilizam apps de transporte de passageiros, 19% atuam como entregadores de apps de comida, produtos etc.

Foi pensando neste contingente de profissionais que atuam com entregas como ocupação principal que o geógrafo Igor Dalla Vecchia, doutorando no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ), idealizou o aplicativo batizado de Meu Corre. Disponível gratuitamente para smartphones, o app de organização financeira preenche uma lacuna histórica na produção de dados sobre o trabalho plataformizado no Brasil, disponibilizando os custos operacionais da atividade. Lançado em abril de 2024 para o sistema Android, o mais usado entre a categoria no mercado nacional, o Meu Corre tem cerca de 15 mil entregadores cadastrados em todo o País e, em breve, o app deverá entrar em teste em Portugal, onde há um contingente importante de brasileiros atuando como entregadores.

“A maioria dos entregadores trabalha para mais de uma plataforma, que informam apenas o valor pago ao entregador, ou seja, o valor bruto, mas não o ganho real, descontados os custos para realizar a entrega”, explica Dalla Vecchia. Com o Meu Corre, o entregador tem acesso aos registros dos ganhos e dos custos com o trabalho para diferentes plataformas, pode definir e acompanhar metas diárias, semanais e mensais, pode avaliar indicadores como ganhos por hora e por km rodado, além de exportar os dados individuais em formato de planilha.

Igor Dalla Vecchia: o geógrafo destaca que o app oferece a possibilidade de customização em que cada usuário pode acrescentar categorias pessoais

Dalla Vecchia, que está terminando o doutorado na Universidade de Halle-Wittenberg (Alemanha), conta que foi no início do seu projeto “Da Territorialização das Plataformas Digitais à Des-Re-Territorialização dos/as Trabalhadores/as no Brasil”, em 2019, que ele iniciou suas pesquisas em grupos de WhatsApp de entregadores. De início, ele identificou a necessidade de elaborar mapas digitais que ajudassem esses trabalhadores a localizar pontos seguros de espera, disponibilidade de banheiros, postos de combustível etc. Naquela época, existiam poucas pesquisas ou dados sobre a realidade específica dos entregadores de plataformas digitais, que acabaram sendo essenciais e ganhando destaque durante a pandemia. Segundo o pesquisador, o número de visualizações dos mapas digitais foi tão grande que ele e sua equipe logo pensaram numa forma de democratizar ainda mais as informações.

Compartilhando experiências profissionais e reflexões sobre suas demandas de trabalho com seu amigo Cristiano Dalbem, designer formado em Ciência da Computação, eles tiveram a ideia de transformar a pesquisa em produto digital. Em 2020, já em plena pandemia, com o apoio do programa Startup Rio, da FAPERJ, eles deram início ao desenvolvimento do aplicativo. Durante as rodadas de entrevistas remotas conduzidas, a equipe identificou que a maior urgência da categoria era a gestão financeira. "As plataformas mostram quanto os trabalhadores ganham, mas não mostram quanto eles gastam para trabalhar", explica Igor. Sem essa métrica, que desconta despesas como combustível, alimentação, manutenção de veículos e contabilidade (para os que são formais), o trabalhador atua sob a ilusão do rendimento bruto, sem conhecer seu ganho líquido real.

Outra vantagem do Meu Corre é a possibilidade de customização, ou seja, cada usuário pode acrescentar categorias pessoais de metas, gastos de diversas fontes de renda, calcula o tempo de deslocamento, velocidade e as paradas. “Mas foi a ferramenta de geolocalização que credenciou o projeto a se tornar um aplicativo”, esclarece Vecchia.

Meu Corre: usuários destacam a interface simples e as métricas em tempo real

O entregador Alexandre Guimarães foi um dos principais responsáveis pelo surgimento do projeto, e destacou-se como uma das lideranças no grupo de WhatsApp “Uber Eats + App RJ”. Foi ele quem propôs a criação de um mapa colaborativo da região metropolitana do Rio de Janeiro e, posteriormente, dialogou com Igor e Cristiano sobre a concepção do app, além de contribuir nos testes de usabilidade do protótipo.

O motoboy Christian Araújo, de Macapá, usa o Meu Corre desde 2024. Ele também foi um dos colaboradores para o aperfeiçoamento do app. “Eu estava procurando um programa que me ajudasse a controlar as receitas e despesas, mas nada me agradava. Tudo o que eu achava no mercado era muito carregado de informações, visualmente poluído e acabava me dando mais trabalho e cansando a vista”, explica Christian. Segundo ele, o Meu Corre é específico para a atividade de entregadores e muito objetivo. Para o motoboy, o Meu Corre, por sua vez, é um assessor financeiro, com interface simples de lidar, de inserir as informações e fornecer as métricas de receita e despesa em tempo real. “Com o app, eu consigo saber o custo da minha hora trabalhada e, entre outras coisas, optar por horários e dias mais vantajosos”, alega Christian, que se considera um “piloto de teste” do aplicativo e continua trocando informações com os desenvolvedores.

Christian Araújo: para o motoboy, o aplicativo funciona como um assessor financeiro na sua rotina de trabalho (Foto: arquivo pessoal)

Além de Igor e Cristiano, trabalharam na pesquisa outras nove pessoas, com habilidades diversas, que receberam capacitação e mentoria do programa da FAPERJ, voltado ao apoio de desenvolvimento de projetos e de uma cultura empreendedora. O projeto utiliza uma metodologia estatística baseada em um recorte de dois mil usuários mais regulares. O objetivo é, segundo Igor, produzir dados agregados a partir da realidade dos entregadores, com informações que possam nortear políticas públicas e servir de base para instituições e a comunidade acadêmica.

A ferramenta é totalmente gratuita, operando como uma infraestrutura digital independente capaz de unificar em um painel público as jornadas fragmentadas de profissionais que atuam simultaneamente em múltiplas plataformas, um cenário que costuma gerar distorções e "buracos" nas análises de dados institucionais ou corporativas. O Atlas, que recebeu financiamento alemão por meio do programa Prototype Fund, reunirá mapas, gráficos e recortes sociodemográficos dos trabalhadores (como gênero, idade e raça), além de cruzar dados de distribuição geográfica e metas de rendimento. Em paralelo, a ferramenta já passa por testes de adaptação cambial e de mercado para implementação em Portugal.

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