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Publicado em: 22/10/2026 | Atualizado em: 22/10/2026

Estudo abre novas perspectivas para o tratamento do câncer de mama

Marcos Patricio

O biólogo Marco Abreu, ladeado pelos parceiros na pesquisa, os professores Anne Dominique e Afrânio Coelho, médicos do Serviço de Ginecologia e Mastologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), da UFRJ (Fotos: Divulgação)

Um estudo pioneiro, que avalia a elevação da taxa de fosfato no sangue de pacientes com câncer de mama, pode abrir novas perspectivas para o desenvolvimento de fármacos capazes de inibir a proliferação das células cancerígenas e o avanço dessa neoplasia maligna que, no Brasil, é a que mais causa morte entre as mulheres. A agressividade dos tumores, o metabolismo e a alimentação das pacientes também são analisados no projeto, realizado em parceria por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que conta com o apoio da FAPERJ. De acordo com os responsáveis pela pesquisa, este é o primeiro trabalho, no País, a relacionar esse tipo de câncer à alimentação. Todos os anos, no presente mês, a campanha internacional "Outubro Rosa" procura incentivar a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama.

Como as células tumorais se multiplicam de forma intensa, precisam de grandes volumes de fosfato, que fornece a elas a energia que necessitam. “Por isso, estudos indicam que a disponibilidade do mineral pode contribuir para o crescimento dos tumores. Daí a importância de avaliar a dieta das pessoas em tratamento”, explica o coordenador do projeto, o biólogo Marco Antonio Lacerda Abreu, pesquisador do Laboratório de Bioquímica Toxicológica (LBT), do Departamento de Bioquímica (DBq), do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes (Ibrag) da Uerj.

Para desenvolver o estudo, 70 pacientes atendidas no Serviço de Ginecologia e Mastologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) da UFRJ doaram uma amostra de 10 ml de sangue antes de realizarem a cirurgia, e responderam a um questionário sobre seus hábitos alimentares. Os pesquisadores também retiraram amostras do tumor e de tecido saudável. Um grupo de 24 voluntárias saudáveis também participou. O nível de fosfato no sangue das pacientes foi comparado ao de mulheres sem a doença e relacionado às características do tumor, ao metabolismo e à alimentação.

Novas contribuições para o estudo do câncer de mama

Uma das principais contribuições do estudo foi mostrar que as pacientes com câncer de mama apresentavam mais fosfato no sangue do que as mulheres sem a doença. Entretanto, os níveis de cálcio, mineral que costuma acompanhar o fosfato, permaneceram semelhantes entre os dois grupos. Isso indica que a alteração foi específica do fosfato.

A pesquisa apontou também que, quanto mais elevado era o nível de fosfato, mais alto era o grau dos tumores das pacientes e mais avançado era o estágio da doença. “O fosfato esteve associado a características que indicam maior agressividade da doença”, explicou Abreu, mestre e doutor em Química Biológica pelo IBqM/UFRJ. O pesquisador também fez pós-doutorado no instituto e, em fevereiro de 2026, foi convocado para assumir uma vaga no Ibrag/Uerj.

Outra conclusão do estudo foi mostrar uma possível influência da alimentação no volume de fosfato registrado no sangue das pacientes. “O fosfato no sangue acompanhou a frequência de consumo de alimentos ricos nesse mineral, sugerindo que a alimentação pode ter contribuído para os níveis observados”, explicou Abreu, cujo trabalho foi financiado pelo Programa Apoio ao Jovem Pesquisador Fluminense Sem Vínculo Empregatício, da FAPERJ.

A hiperfosfatemia – elevado volume de fosfato no sangue – pode ter diferentes causas, entre elas a alimentação. A substância está presente, de forma natural, nas carnes, nos grãos, no leite e nos ovos, mas, sobretudo, nos produtos ultraprocessados, onde é utilizada como aditivo. A associação do excesso de fósforo a casos de câncer de mama já havia sido apontada em estudos realizados no exterior.

Entretanto, é preciso lembrar que outros fatores podem estar relacionados à elevação do nível de fosfato no sangue. O principal deles é a Doença Renal Crônica, ocasionada pela diminuição da capacidade dos rins filtrarem o fósforo.  Outra possível causa é o hipoparatireoidismo, queda na produção do hormônio da paratireoide, e a destruição celular intensa.

Outro aspecto que não pode ser esquecido é o fato de o fosfato ser um elemento imprescindível para a saúde. Ele está presente no DNA, nos ossos e na molécula que leva energia às células, ou seja, sem o mineral não haveria vida.

A pesquisa liderada por Marco Abreu apontou, ainda, uma relação entre a elevação do fosfato no sangue e o estresse oxidativo no organismo. “Análises complementares mostraram que níveis mais altos de fosfato também estiveram associados a sinais de estresse oxidativo, um desequilíbrio químico que pode favorecer a progressão do tumor”, explicou.

O projeto, que continua em curso, conta com a parceria dos professores Anne Dominique e Afrânio Coelho, médicos do Serviço de Ginecologia e Mastologia do HUCFF, e da equipe do Serviço de Anatomia Patológica da unidade. Também colaboram os professores José Roberto Meyer-Fernandes, que foi o orientador de Marco Abreu no doutorado; Cláudia Fernanda Dick; e Adalberto Ramon Vieyra, todos do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqM) da UFRJ; e as professoras Tatiana Simão e Patrícia Reis, do Departamento de Bioquímica (DBq) do Ibrag/Uerj.

Resultado do estudo é fruto de quase 10 anos de pesquisas

Marco Abreu: coordenador do projeto, o pesquisador do Laboratório de Bioquímica Toxicológica (LBT) da Uerj está à frente do estudo que avalia a importância da dieta para pacientes com câncer de mama

Abreu faz questão de lembrar que o estágio atual do estudo é resultado de quase uma década de trabalho intenso, que partiu de células cultivadas no Laboratório de Bioquímica Celular do IBqM e chegou até às pacientes atendidas pelo Hospital Universitário da UFRJ. Segundo ele, o primeiro passo foi mostrar que as células de câncer de mama possuem “portas de entrada” próprias para captar o fosfato. “Com isso, foi possível começar a entender como o tumor obtém esse mineral em grande quantidade”.

Na sequência, o grupo de pesquisa conseguiu descrever as enzimas presentes na superfície das células tumorais, que liberam o fosfato ao redor do tumor. “Dessa forma, ficou claro que o tumor não apenas capta o mineral, mas também contribui para aumentá-lo à sua volta”, informou o pesquisador.

“Um passo decisivo veio com a observação de que o excesso de fosfato leva as células de câncer de mama mais agressivas a produzir moléculas oxidantes, o que favorece comportamentos típicos de tumores agressivos. Além disso, quando essas células recebiam um antioxidante, parte desses efeitos era revertida”, explicou Abreu. As pesquisas resultaram em alguns artigos, entre eles um sobre hiperfosfatemia, publicado no periódico Cellular Signalling, em julho de 2026. Leia aqui. 

Mais adiante, o projeto, iniciado em laboratório, chegou até o hospital, onde a equipe passou a fazer a dosagem do fosfato presente no sangue das mulheres com câncer de mama.

Segundo Marco Abreu, o próximo passo é estudar, novamente em laboratório, as células do tumor das pacientes que participaram do estudo. A intenção é entender como o fosfato atua no câncer de mama e tentar identificar novos alvos de tratamento. O propósito é estudar a proteína que controla a proliferação das células cancerígenas e buscar um fármaco que iniba a sua ação.

"Caso os resultados sejam confirmados em estudos com um número maior de pacientes, a dosagem de fosfato no sangue, um exame simples e de baixo custo, poderá futuramente contribuir para a avaliação da agressividade do câncer de mama", destaca Abreu. Segundo o pesquisador, a associação entre níveis elevados de fosfato e características de maior agressividade tumoral sugere que esse mineral pode ser investigado como um potencial biomarcador complementar. "Nosso objetivo é compreender melhor essa relação e avaliar se, no futuro, o fosfato poderá auxiliar na identificação de pacientes com tumores mais agressivos, contribuindo para estratégias de acompanhamento e tratamento mais individualizadas", concluiu.

 

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