Paula Guatimosim
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| Acima, reproduções das telas do aplicativo gratuito, que propõe pequenas missões diárias, cria rede de amigos, estabelece desafios, treinos sobre como enfrentar situações sociais, identificação do humor e da ansiedade |
Tudo começou durante uma conversa com um sobrinho de 5 anos, que cuida de um tamagotchi. Para quem não lembra, o tamagotchi é uma espécie de pet digital, um famoso bichinho virtual que virou uma febre mundial nos anos 90. Usado por quem não pode (ou não quer) ter um pet de verdade, também exige cuidados do dono, que precisa alimentar, dar carinho, limpar e cuidar da saúde para o pet crescer. É um brinquedo que desenvolve na criança o senso de responsabilidade, já que as ações e a atenção dadas determinam qual tipo de personagem o bichinho vai se tornar, ou se ele vai ficar doente e morrer.
Foi a partir daí que o pesquisador Luís Anunciação, doutor em Psicometria pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) idealizou a criação de um aplicativo para pessoas portadoras do espectro autista, que promove o desenvolvimento de habilidades da vida diária. Unindo as Ciências Exatas às Ciências Humanas, o psicólogo se baseou em uma pesquisa realizada por sua equipe, em 2025, que mostrou que muitas pessoas têm mais afinidade com cães do que com humanos. E muitos portadores do espectro autista têm um pet de estimação, que pode ser um cão ou outro animal.
Segundo ele, os sintomas de pessoas no espectro autista são distintos em função da idade e do gênero. Adultos têm comportamentos bem característicos, especialmente em função da sua maior adaptação ao meio. Mulheres, por sua vez, conseguem camuflar melhor os sintomas, mesmo que de forma pouco deliberada. O espectro apresenta três diferentes níveis, determinados em função do suporte (dependência) exigido pelos pacientes. Sua ideia, então, foi criar um pet virtual em um aplicativo para adultos no espectro autista que requerem menos suporte, com ou sem diagnóstico. O app propõe pequenas missões diárias, cria uma rede de amigos, estabelece desafios, treinos sobre como enfrentar situações sociais, identificação do humor e da ansiedade, e disponibiliza um botão de socorro que ajuda o usuário a falar com sua pessoa de confiança e ser atendido por um profissional para dar suporte. Um app gratuito, em português, sem anúncios ou vendas, e sem necessidade de cadastro, ou seja, não armazena nem compartilha dados pessoais.
Pankeka (pankeka.org), que pode ser baixado gratuitamente em loja de aplicativo para celular. Quem interage com o usuário é o pet virtual, inspirado em uma cadela real, uma labradora preta que vive no bairro de Laranjeiras, na Zona Sul do Rio. O usuário pode optar por cachorra, gata ou pata, e elas podem ser personalizadas com nove diferentes cores de pelagem e nove tipos de coleiras. A espécie, cor de pelo e coleira são escolhidas quando o usuário abre o app pela primeira vez, e mudam quando o usuário quiser. Um pet virtual que nunca fica bravo e nunca vai embora. Mas o seu “dono” deve dar comida, fazer carinho, passear, jogar bolinha. Ela come, dorme, faz zoomies e interage com seus amigos pets Batata e Feijão. Nunca fica triste, nunca cobra.
O aplicativo desperta no autista um interesse específico. Inspirado nos aplicativos de corrida, o app organiza, em navegação simples, o desenvolvimento de habilidades de vida diária e de auto-advocacia, ou seja, a capacidade de uma pessoa falar, agir e defender seus próprios direitos, expressando suas necessidades de forma direta e sem depender de terceiros. A concepção partiu do uso real e continuado por uma pessoa autista adulta, que integra a equipe como designer e é fundamental em todo design do aplicativo, a Vitoria Meirelles, que também é a dona da Pankeka.
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| A partir do alto à esquerda: Luís Anunciação, Vitoria Meirelles, Jonathan Rochelle e a Pankeka formam a equipe do projeto (Fotos: reprodução site Pankeka.org) |
Coordenado por Luís, que desenvolve suas pesquisas com apoio da FAPERJ, por meio do “Programa de Apoio ao Jovem Pesquisador Fluminense com Vínculo em ICTs do Estado do Rio de Janeiro”, o projeto conta com a colaboração de Jonathan Rochelle, doutor em Psicologia pela Universidade de Oregon, e também com dois bolsistas de Iniciação Científica da FAPERJ, que fizeram testes, revisão literária e pesquisaram os conceitos éticos, entre outras funções. O app foi desenvolvido com ajuda do Claude, um assistente de IA especializado em códigos de programação para resolução de problemas.
Mas o caminho até chegar ao aplicativo demandou muita pesquisa. Luís Anunciação explica que, há um tempo, sua equipe no Departamento de Psicologia da PUC-Rio começou a se interessar pelo estudo de transtornos mentais, em especial pelo espectro autista, desenvolvendo um conjunto de ferramentas que ajudassem no diagnóstico, no tratamento e no suporte. Segundo ele, a Inteligência Artificial é uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento de modelos. “Antes, tínhamos uma boa idéia, mas o custo para desenvolvê-la era altíssimo. Hoje, com a IA, o custo é bem baixo, no nosso caso cerca de US$ 200/mês”, explica. O psicólogo atribui à FAPERJ grande parte do sucesso do projeto. “A FAPERJ sempre foi parceira. Não fosse o apoio recebido, não conseguiria dar continuidade às pesquisas”, afirma Luís.
O Pankeka integra o conjunto de projetos sobre autismo conduzidos no laboratório da PUC-Rio. Cada peça do aplicativo aponta para um mecanismo com nome e para uma pesquisa publicada. Em julho de 2026, o aplicativo ficou por 14 dias no Google Play, sendo testado por 12 usuários. Hoje, disponível para aparelhos Android e Iphone, tem 700 aparelhos registrados e cerca de 20 usuários ativos. A recomendação é para que seja usado por maiores de 18 anos.
Doutor em Psicologia e pós-doutor em Psicometria – uma área da Psicologia e das Ciências Humanas que usa a Matemática e a Estatística para medir fenômenos mentais e comportamentos – em intercâmbio com a Universidade de Oregon (EUA), e mestre em Saúde Pública pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Luís e sua equipe lideraram a construção da ERA-A e ERA-F, ferramentas usadas pela comunidade de psicólogos, psiquiatras e outros profissionais para “rastreio” e “auxílio” diagnóstico do espectro autista. Para ele, é fundamental um diagnóstico correto e, principalmente, um tratamento adequado, incluindo o medicamentoso, para que as perdas não sejam maiores que os ganhos. Baixe gratuitamente o app neste link.