Paula Guatimosim
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| Summar foi recebido na FAPERJ por Beatriz Ramadas, da Assessoria de Cooperação Internacional (Fotos: Divulgação) |
Um fato inusitado ocorreu mês passado na FAPERJ. Um pesquisador venezuelano enviou uma mensagem solicitando uma visita à Fundação. Seu objetivo: agradecer pessoalmente por ter sido contemplado no Programa Luiz Pinguelli Rosa de Apoio à Mobilidade e Instalação de Pesquisadores Originários de Regiões em Conflito ou Refugiados em ICTs do Estado do Rio de Janeiro. Divulgado em fevereiro de 2026, o edital contemplou 10 pesquisadores de outros países, entre eles o doutor em Gestão e Inovação Organizacional na Área Esportiva Summar Alfredo Gómez Barrios, que é ex-atleta da Seleção Nacional de Voleibol da Venezuela. Ele elogiou o processo seletivo da FAPERJ, em sua opinião, eficaz, limpo, transparente e um exemplo de eficiência.
“Minha visita é uma retribuição ao apoio da FAPERJ, um agradecimento que quis fazer pessoalmente, porque sou um refugiado migrante e o Rio de Janeiro me recebeu de braços abertos como o Cristo Redentor”, disse Summar.
Orientado pelo professor anfitrião Carlos Alberto Figueiredo da Silva, da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), em São Gonçalo, Summar, que se graduou em Educação Física, teve aprovado o projeto “Cultura Gerencial e Inovação nas Organizações do Esporte de Alto Rendimento no Estado do Rio de Janeiro: Abordagem de Hélice Quíntupla”.
Em sua carta, endereçada à Assessoria de Relações Internacionais da FAPERJ, Summar solicitava visitar a sede da Fundação para agradecer pessoalmente o benefício do programa. Para sua surpresa, recebeu uma resposta positiva e foi recebido pela equipe da Assessoria de Cooperação Internacional. “Fiquei muito satisfeito com esse processo efetivo e eficaz da FAPERJ em relação à minha condição de bolsista. Estou surpreso como uma organização pública, geralmente emperrada com burocracias, pode ser eficaz e aberta ao contato direto com os pesquisadores”, disse Summar.
Ele relata que, após ser forçado a deixar seu país, o programa representou uma "luz no horizonte" e um ato de restituição de sua dignidade humana e científica, viabilizando sua integração e inserção acadêmica no estado do Rio de Janeiro. Para Summar, mais importante do que ele ter solicitado ser recebido pela FAPERJ, foi a Fundação ter aceitado sua visita. “Isso é inovação organizacional”, afirma.
“Na Venezuela temos passado por momentos muito difíceis após a intervenção dos Estados Unidos, em janeiro de 2026, e a catástrofe decorrente dos terremotos de magnitudes 7,5 e 7,2 em junho passado, que vitimaram mais de 5 mil pessoas e deixaram quase 17 mil feridos”, lembrou o pesquisador. Segundo ele, sua família precisou sair de Caracas após a sua residência ter sido afetada pelos terremotos.
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| Carlos Alberto Figueiredo e Summar Gómez: orientador e orientado em sessão de autógrafo do livro "Relações étnico-raciais, transidentidades e educação física: diferenças dentro das diferenças", apoiado pela FAPERJ, durante a 78ª Reunião Anual da SBPC |
"Chegar ao Rio de Janeiro com a bagagem carregada de vocação científica e encontrar o respaldo institucional da FAPERJ foi uma experiência que mudou minha vida. Este programa não representa apenas um apoio profissional de vital importância, mas a oportunidade de colocar meus conhecimentos a serviço do desenvolvimento tecnológico, social e esportivo do estado que me acolheu com tanta generosidade", afirma Summar Gómez.
Carlos Alberto Figueiredo da Silva, seu orientador, conta que conheceu Summar através de um grupo idealizado e criado em 2010, durante seu pós-doutorado na Universidade do Porto, o Gestão Desportiva Internacional (GDInter), que, no formato de site, passou a agregar pesquisadores de diversos países, incluindo Summar, na promoção de troca de experiências, eventos e intercâmbios, e até a criação da Revista Intercontinental de Gestão Desportiva (RIGD), em 2011. “Quando a FAPERJ lançou o edital para refugiados, vi uma chance para que Summar viesse para o Brasil, pois sua situação na Venezuela não era nem um pouco confortável”, lembra o professor. Segundo Carlos Alberto Figueiredo, Summar já conseguiu se estabelecer em uma residência próxima à Universo, publicou dois artigos, está orientando um aluno, organizando um livro e à frente de dois eventos que devem ocorrer em novembro.
O projeto apresentado pelo pesquisador venezuelano ao edital da FAPERJ redefine o legado pós-olímpico ao considerar a importância geopolítica do estado do Rio de Janeiro para sediar megaeventos esportivos e visa superar modelos administrativos tradicionais e fragmentados mediante a governança sistêmica da quíntupla hélice. “Trata-se de uma metamorfose paradigmática, estrutural e cultural que substitui a inércia patrimonialista por um ecossistema de inovação aberta, impulsionado pela teoria Sintonia Analítica Gerencial (SAG), que propomos para integrar a inteligência de dados, a ética deontológica e a sustentabilidade humana na governança do esporte de alto rendimento fluminense”, esclarece o pesquisador.
Proveniente da Universidade de Zulia, Summar propõe em seu projeto analisar a cultura gerencial nas organizações de esporte de alto rendimento no estado do Rio de Janeiro, com o objetivo de identificar tensões culturais e propor modelos de adaptação organizacional que otimizem a gestão esportiva regional. O modelo utilizado é o da “Quíntupla Hélice”, que integra cinco dimensões (governo, universidades, empresas, sociedade civil e meio ambiente), inspirado no legado ético e intelectual do físico Luiz Pinguelli Rosa, falecido em 2022, buscando unir teoria, técnica e ciência a serviço da humanidade e do desenvolvimento social.
A investigação parte do reconhecimento de que os sistemas do esporte brasileiro enfrentam um processo de transição estrutural — desde modelos tradicionais, baseados em lógicas associativas e personalistas, até modelos corporativos, profissionalizados e regulados —, mas onde a dimensão cultural continua sendo o eixo menos explorado e, ao mesmo tempo, mais determinante na consolidação de uma gestão moderna, ética e competitiva.
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| O diagrama ilustra a proposta teórica da Sintonia Analítica Gerencial (SAG-B), modelo que está sendo desenvolvido em paralelo à pesquisa e tem o potencial de impactar organizações esportivas no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. |
“Nosso modelo busca identificar como essas cinco hélices devem se desenvolver em sintonia”, alega Summar, que junto com seu orientador já identificou uma série de elementos que, para funcionarem corretamente, devem valer-se da Teoria da Sintonia Analítica Gerencial. Interesse, vontade, sintonia e integração devem ser estimulados para que as cinco hélices funcionem em harmonia e haja reciprocidade entre as organizações. O pesquisador destaca a importância das pessoas nos processos, como por exemplo, para reduzir a burocracia que, para ele, é decorrente de processos humanos que podem ser lentos ou rápidos.
“Se antes trabalhávamos com a tríplice hélice (governo, universidades, empresas), agora consideramos a quíntupla hélice, agregando o meio ambiente e a sociedade civil organizada”, explica Carlos Alberto Figueiredo, para quem a gestão no esporte precisa, necessariamente, partir de uma visão mais humanista, considerando aspectos culturais e sociais. Como exemplo positivo, ele cita a liga do basquete NBA, que faculta ao time com pior resultado no ranking escolher o melhor jogador universitário para compor seu time. “É uma questão de manter o equilíbrio entre as equipes, que precisam continuar exercendo encanto e não fascínio entre os torcedores”, ressalta.
Por meio do Diagnóstico Crítico Institucional, o projeto visa desconstruir barreiras organizacionais e fatores de opacidade na infraestrutura esportiva fluminense. Na fase de operacionalização, busca estruturar a Sintonia Analítica Gerencial (SAG) unindo decisões baseadas em evidências ao fator humano. Como fechamento Ético e Tecnológico, busca fundamentar o uso da Analítica Avançada sob a Deontologia Kantiana e os preceitos da Indústria 5.0, assegurando que a tecnologia seja um meio para a dignidade e o bem-estar absoluto do atleta.
A metodologia mista e interdisciplinar é executada em três fases complementares, iniciando com a Triagem Bibliométrica, ou seja, a seleção e organização de metadados científicos obtidos com o uso do protocolo PRISMA 2020 nas bases Scopus e Web of Science. Na fase 2 – Desconstrução Documental e Auditoria –, será feita a análise qualitativa de relatórios governamentais, incluindo acórdãos do TCU e diagnósticos do Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva (IPIE). Já a última fase é composta da Modelagem Estruturada e Campo, a partir do desenho matricial analítico da SAG e intervenções qualitativas em municípios estratégicos do Rio de Janeiro.
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| Summar Gómez: para o pesquisador, os sistemas do esporte brasileiro enfrentam um processo de transição estrutural |
“Vemos que o esporte no Rio de Janeiro sofre com a falta de integração com a indústria, patrocinadores (marca da empresa privada) para impulsionar projetos sociais nas áreas urbanas e rurais”, destaca Summar. Para ele, o problema é cultural, de entender que pessoas são o fator chave para o êxito do esporte no Brasil, da eficiência das organizações, do aproveitamento dos recursos financeiros provenientes do Estado. “Nós, as pessoas, somos o fator chave. Para isso, há que se construir uma teoria, o pensamento imperativo do dever ser, modelo baseado no pensamento filosófico de Kant (Immanuel Kant), que considera que a ação humana deve ser guiada pelo dever e por princípios universais, independentemente de interesses pessoais”, explica. “É tratar os demais como você gostaria de ser tratado”, afirma o bolsista, para quem uma forma de retribuir o investimento feito pelo estado é gerando soluções.
Entre os impactos esperados, no campo científico e intelectual, o projeto visa produzir literatura de ponta e fortalecer as redes de pesquisa entre Brasil e Venezuela. No aspecto tecnológico e econômico, busca otimizar o gasto público e captação de patrocínios privados por meio de ferramentas de governança, destacando-se a criação de um aplicativo (software/APP) para operacionalizar os algoritmos da SAG, monitorar indicadores em tempo real e consolidar a transferência prática de inovação para a gestão pública e privada do esporte fluminense. E, no âmbito social e ambiental, garantir transparência, inclusão social e sustentabilidade ecológica nas instalações esportivas do estado.