Linguagem Libras Facebook X Intagram YouTube Linkedin Site antigo
logomarca da FAPERJ
Compartilhar no FaceBook Tweetar Compartilhar no Linkedin Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Email Imprimir
Publicado em: 13/08/2026 | Atualizado em: 13/08/2026

Nova pesquisa e livro ajudam na compreensão do TDAH

Débora Motta

Caracterizado por déficit de atenção, hiperatividade e impulsividade, o TDAH afeta o cotidiano de cerca de 5 a 8% da população mundial (Foto: Magnific)

No dia 13 de julho, comemorou-se o Dia Mundial da Conscientização do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), data internacional para conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico, tratamento, direitos e inclusão das pessoas com essa condição. No Brasil, a semana que se iniciou em 1º de agosto foi a Semana Nacional de Conscientização sobre o TDAH. Trata-se de um transtorno neurobiológico que costuma se manifestar na infância e também atinge adultos, caracterizado por déficit de atenção, hiperatividade e impulsividade. Ele afeta o cotidiano de cerca de 5% a 8% da população em todo o mundo, segundo dados da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA).

Ao longo dos anos, a FAPERJ vem apoiando o desenvolvimento de diversos estudos sobre o TDAH. Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), pesquisadores analisam, em modelo animal, os efeitos do “treinamento resistido” (exercícios físicos anaeróbicos, de força e resistência) e do uso do cloridrato de metilfenidato (o princípio ativo da ritalina, medicamento bem estabelecido no mercado) para minimizar os sintomas do TDAH. Outra iniciativa contemplada pela Fundação foi a publicação do livro Propostas didáticas à luz da neurociência pedagógica para alunos com TDAH do Ensino Fundamental I, lançado com apoio do programa Auxílio à Editoração, pela editora Letra Capital.  

Efeitos do treinamento físico resistido e de medicamentos

Estudos orientados pelo professor Anderson Luiz Bezerra da Silveira, chefe do Departamento de Educação Física e Desportos da UFRRJ, no campus de Seropédica, região metropolitana do Rio, apontam que as atividades físicas anaeróbicas, como a musculação, desempenham um importante papel para amenizar os sintomas comportamentais de TDAH – com resultados comparáveis, em alguns aspectos, aos efeitos do uso do medicamento (cloridrato de metilfenidato), em testes com roedores.

Equipe do Laboratório de Fisiologia e Desempenho Humano, em Seropédica, na UFRRJ: a partir da esq., Roberto Victor, o orientador Anderson Silveira e Ana Késsia (Foto: Divulgação) 

Para isso, eles trabalharam em um modelo experimental com ratos geneticamente modificados e hipertensos, da cepa SHR, que possuem sintomas comportamentais análogos aos de pessoas com TDAH, como déficit de atenção, hiperatividade e impulsividade. Os pesquisadores compararam, em grupos distintos de animais, os efeitos de sessões regulares de treinamento de força, com os efeitos do consumo diário do cloridrato de metilfenidato. As pesquisas foram desenvolvidas no Laboratório de Fisiologia e Desempenho Humano (LFDH/UFRRJ) sob diferentes olhares, durante o mestrado de Ana Késsia do Nascimento Gomes, que foi contemplada com bolsa Mestrado Nota 10, da FAPERJ, e durante as graduações em Educação Física de Roberto Victor Figueiredo de Oliveira Gonçalves e de Wallace Martins Viana Ribeiro, alunos que foram respectivamente bolsistas de Iniciação Científica, da FAPERJ, e de mestrado, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

“Dividimos os animais em grupos e realizamos estudos comparativos para avaliar os resultados. Um grupo de ratos foi submetido apenas ao treinamento físico resistido. Outro recebeu apenas a terapia medicamentosa com cloridrato de metilfenidato e não praticou exercícios. Já o terceiro grupo foi submetido à combinação da rotina regular de treinamento físico com a terapia medicamentosa. Também tivemos o grupo controle, que não passou nem pelo treinamento físico, nem recebeu o fármaco, para fins de comparação”, resumiu Anderson Silveira, que é mestre em Educação Física e doutor em Fisiologia pelo Programa de Pós-graduação Multicêntrico em Ciências Fisiológicas (SBFis/UFRRJ).

Em todos os trabalhos, os resultados foram animadores em relação ao papel das atividades físicas anaeróbicas para atenuar os efeitos comportamentais do TDAH. “A terapia farmacológica funcionou, mas o exercício sozinho ou combinado gerou resultados semelhantes à terapia farmacológica administrada de forma isolada”, contou Ana, que defendeu sua dissertação em julho de 2025, com o título Efeito do treinamento resistido de alta intensidade sobre respostas comportamentais no modelo experimental de TDAH.

“Os resultados reforçam que o treinamento físico pode ser um forte aliado para minimizar sintomas como impulsividade, hiperatividade, déficit de atenção e memória e sugerem a importância da pessoa com TDAH seguir uma rotina regular de treinamento físico anaeróbico, combinada com o uso prescrito do medicamento, para potencializar melhores resultados no tratamento. Talvez no futuro, sob orientação médica, seja possível até reduzir as doses de medicamentos para pacientes comprometidos com uma rotina de exercícios físicos”, destacou Anderson.

Capa da obra, pensada para os professores que trabalham com alunos com TDAH (Reprodução)

Um ponto interessante no estudo de Ana Késsia foi a utilização apenas de fêmeas para os experimentos. “No caso específico do meu projeto de pesquisa, optei por trabalhar com ratas fêmeas, porque há poucos estudos com a população feminina com TDAH. Na literatura científica, sabe-se há uma maior prevalência de TDAH no sexo masculino, levando a uma proporção elevada de estudos do transtorno em homens, em relação aos estudos com mulheres”, justificou Ana. “Os resultados também foram mais favoráveis para as ratas submetidas ao treinamento físico”, completou.

No treinamento físico resistido, os pesquisadores utilizaram nos ratos o protocolo "Hornberger and Farrar", que estipula a prática de exercícios anaeróbicos três vezes por semana, durante 12 semanas, em sessões de 20 a 40 minutos – equivalentes a uma sessão de musculação bem organizada. Os estudos, por enquanto, estão na etapa de testes em modelo animal, e não foram realizados de forma clínica (em humanos), mas abrem perspectivas futuras para pensar a saúde da pessoa com TDAH de forma integrada e humanizada, aliando a prática de atividades físicas ao tratamento.

Livro apresenta atividades didáticas para alunos com TDAH

Já a obra Propostas didáticas à luz da neurociência pedagógica para alunos com TDAH do Ensino Fundamental I (Ed. Letra Capital, 2024) apresenta, com uma linguagem didática e acessível, propostas práticas de atividades pedagógicas pensadas especialmente para os professores atenderem às necessidades específicas desse grupo de estudantes (do primeiro ao quinto ano). Assinam o livro os autores Rejane Cristina Schäffer Gallo, Viviane de Oliveira Freitas Lione e Manuel Gustavo Leitão Ribeiro.

O livro surgiu a partir do trabalho de dissertação da pedagoga Rejane, produzido durante o Curso de Mestrado Profissional em Diversidade e Inclusão da Universidade Federal Fluminense (CMPDI/UFF). Orientadora educacional, ela decidiu desenvolver um material com base na sua experiência de trabalho. “Na época, eu era psicopedagoga em uma escola particular da Zona Sul e lidava diariamente com professores que tinham muita dificuldade em lidar com estudantes com TDAH. Observei que eles precisavam de algo mais prático para lidar com essas crianças”, contou Rejane, que já tinha formação anterior na pós-graduação em Neurociência Pedagógica da Universidade Cândido Mendes (Ucam). “Sempre fui apaixonada pelo cérebro humano. Pensar em atividades para prender a atenção de um aluno com TDAH é um desafio que me motivou”, completou.

Os autores Gustavo Ribeiro, Viviane Lione e Rejane Schäffer: livro publicado com apoio da FAPERJ é um produto educacional do Mestrado Profissional em Diversidade e Inclusão da UFF (Foto: Divulgação)

O trabalho foi desenvolvido sob orientação de Manuel Gustavo Ribeiro e co-orientação de Viviane. Ambos são professores do CMPDI/UFF. Ribeiro é professor associado do Instituto de Biologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde desenvolve pesquisas em Educação, junto ao Núcleo de Estudos e Pesquisas em Autismo (Nepa), e em Bioquímica, usando um modelo animal para estudo do autismo (o invertebrado Caenorhabditis elegans). Viviane é professora da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde desenvolve pesquisas em biomodelos neurais para o estudo do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e realiza pesquisas na área da Educação, atuando como coordenadora do Grupo de Estudos em Transtorno do Espectro do Autismo (GETEA/UFRJ).

As propostas didáticas foram selecionadas com base no cotidiano das escolas, com atividades adaptadas para o perfil de uma criança com TDAH, como pintura, ciências com sabor e saúde, desafios matemáticos, sistemas do corpo humano, confecção de fósseis e jogos teatrais. “Como produto de um mestrado profissional, a ideia é que o livro apresentasse um conteúdo objetivo, voltado para professores do Ensino Fundamental, com atividades lúdicas, mas que tivessem um embasamento teórico por trás. A neurociência ajuda a entender o funcionamento do sistema nervoso central, pensando nas habilidades que podem ser desenvolvidas com as atividades propostas”, disse Ribeiro.

“Existem vários artigos científicos sobre TDAH, mas traduzir essa ciência de forma prática para o professor que está ali na ponta, na sala de aula, foi a nossa preocupação. A literatura específica para o TDAH é mais escassa, existem mais livros voltados ao autismo. Nossa obra tem esse diferencial de auxiliar os professores a entenderem melhor o funcionamento do cérebro de alunos neurodivergentes e melhorar o processo de aprendizado”, justificou Viviane.

Topo da página