Claudia Jurberg
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| Mohammad Al Abed (à dir.) ao lado do coordenador da pesquisa, o professor Fábio Ferreira Dias: estudos reunidos em relatório mapearam as transformações da paisagem e identificaram áreas prioritárias para conservação e recuperação ambiental da região costeira fluminense (Foto: Arquivo pessoal) |
Um estudo inédito analisou 40 anos de transformações na zona costeira do estado do Rio de Janeiro e revelou um cenário complexo. Embora a maior parte da paisagem ainda permaneça relativamente estável, focos importantes de degradação continuam avançando, impulsionados principalmente pela expansão urbana e pela pressão sobre ecossistemas sensíveis.
Entre outubro de 2023 e fevereiro de 2026, pesquisadores vinculados ao Departamento de Análise Geoambiental, do Instituto de Geociências, da Universidade Federal Fluminense (UFF), fizeram um levantamento detalhado de cerca de 21.980 quilômetros da área costeira fluminense, com foco no bioma Mata Atlântica e nos ecossistemas associados à faixa litorânea.
Coordenado pelo professor Fábio Ferreira Dias, o projeto contou com o professor da Síria, Mohammad Al Abed, bolsista FAPERJ no Programa Luiz Pinguelli Rosa de Apoio à Mobilidade e Instalação de Pesquisadores Originários de Regiões em Conflito ou Refugiados em ICTs do Estado do Rio de Janeiro.
Os resultados acabam de ser reunidos em um relatório que oferece um inventário inédito da degradação de terras ao longo das últimas quatro décadas. Além de mapear as transformações da paisagem, o estudo também identifica áreas prioritárias para conservação e recuperação ambiental, oferecendo subsídios para futuras políticas públicas no estado.
Vulnerável por natureza
O Rio de Janeiro é frequentemente associado a paisagens naturais exuberantes. No entanto, essa riqueza ambiental convive com uma fragilidade ecológica significativa. Uma das características marcantes do estado é o intenso estresse hidrológico, resultado de chuvas fortes e prolongadas que aumentam o potencial de erosão do solo.
Ao mesmo tempo, o território apresenta uma geografia complexa, com relevo íngreme, fortemente dissecado e solos altamente intemperizados. Essa combinação de fatores naturais torna a região particularmente suscetível à degradação. "Ecossistemas costeiros delicados, como manguezais e restingas, são especialmente sensíveis a essas condições. O problema se agrava com a pressão humana. A expansão urbana acelerada, muitas vezes desordenada, tem ocupado encostas instáveis e áreas úmidas, alterando profundamente o equilíbrio da paisagem", ressalta Dias.
Segundo ele, somam-se a isso o desmatamento irregular, práticas agrícolas inadequadas e incêndios florestais. Esses fatores intensificam os processos de erosão e perda de solo, além de transformarem encostas, antes cobertas por vegetação, em superfícies expostas e vulneráveis.
Sem a proteção da cobertura vegetal, o solo torna-se mais suscetível à ação da água da chuva. O resultado pode ser a perda rápida de fertilidade, a degradação progressiva da terra e, em casos extremos, deslizamentos e enxurradas — tragédias que já marcaram diversas regiões costeiras e serranas do estado.
Metodologia internacional aplicada pela primeira vez no Brasil
Uma das principais contribuições do estudo do pesquisador foi adaptar para o contexto brasileiro uma metodologia internacional de avaliação da degradação das terras. "Utilizamos o método desenvolvido pelo Centro de Atividades Regionais do Programa de Ações Prioritárias do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o Pnuma. Essa abordagem já é amplamente aplicada em diferentes partes do mundo, mas tradicionalmente em regiões semiáridas ou mediterrâneas", afirma Al Abed.
Ele explica que, nesses ambientes, os estudos costumam se concentrar em problemas como desertificação e declínio da vegetação associados à escassez hídrica. "No caso brasileiro, testamos a metodologia pela primeira vez em um ambiente costeiro tropical úmido, adaptando os parâmetros para as condições ecológicas da Mata Atlântica. Para isso, utilizamos sensoriamento remoto e sistemas de informação geográfica, combinando diferentes bases de dados ao longo de um período de 40 anos, que foi de 1984 e só terminou em 2024", explica.
A análise incluiu imagens dos satélites Landsat 5 TM (1985) e Landsat 8 OLI (2023). Para obter maior detalhamento espacial e validar os resultados, também foram utilizadas imagens de alta resolução da Airbus (2025) e do Esri World Imagery Basemap, acessadas via Google Earth Pro.
O levantamento abrangeu áreas de municípios como Cachoeiras de Macacu, Maricá, Paraty e Angra dos Reis, entre outros. A partir dessas informações, os pesquisadores desenvolveram um índice de risco baseado em 14 variáveis ambientais, permitindo classificar as áreas segundo diferentes níveis de estabilidade ou vulnerabilidade.
Esse procedimento possibilitou identificar hotspots de degradação e estabelecer zonas de prioridade alta, média ou baixa para intervenções ambientais. Além dos resultados científicos, o projeto também contribui para fortalecer a capacidade institucional e científica no estado, demonstrando que metodologias internacionais podem ser adaptadas com sucesso às condições ambientais brasileiras.
O que os dados revelam sobre a costa fluminense?
Apesar da presença de áreas degradadas, os resultados indicam que grande parte da região analisada permanece relativamente estável, especialmente em áreas com cobertura florestal. Um dos exemplos mais claros é o município de Paraty, onde mais de 90% do território estudado apresentou estabilidade do solo e da paisagem. Ainda assim, o estudo mostra que avanços na estabilidade ambiental podem ser rapidamente anulados pelo declínio das áreas úmidas costeiras, frequentemente associado à expansão urbana. Esse processo é particularmente visível em algumas áreas próximas a Angra dos Reis, onde a pressão imobiliária tem avançado sobre ecossistemas sensíveis.
Achado inesperado nas Ilhas Maricá
Um dos resultados mais curiosos do estudo surgiu nas Ilhas Maricá. Durante o período analisado, os pesquisadores observaram a presença relativamente estável de cerca de 50 cabras na área. Ao mesmo tempo, indicadores ambientais apontavam melhoria ecológica da vegetação. Esse padrão levou à hipótese de uma possível relação ecológica positiva. Processos como pastejo seletivo, ciclagem de nutrientes, dispersão de sementes e criação de microssítios favoráveis à germinação podem ter contribuído para esse resultado. O caso mostra como os efeitos de espécies introduzidas podem ser mais complexos do que se imagina.
Embora, em muitos contextos, herbívoros introduzidos causem degradação ambiental, os resultados do projeto sugerem que, em determinadas condições, populações equilibradas podem contribuir para a manutenção ou até a melhoria da cobertura vegetal em ecossistemas insulares. Segundo os autores, novos estudos ainda são necessários para compreender plenamente essa dinâmica ecológica.
Importância dos resultados
Os resultados do estudo reforçam a necessidade de estratégias de conservação mais específicas e adaptadas às características de cada território. Avaliações ambientais detalhadas, baseadas em dados de longo prazo, são fundamentais para compreender como paisagens complexas, como as da costa fluminense, respondem às pressões humanas e às mudanças ambientais.
Ao reunir quatro décadas de informações, o estudo oferece um panorama inédito sobre a evolução da degradação do solo no litoral do Rio de Janeiro e fornece uma base científica para orientar políticas públicas de gestão ambiental e planejamento territorial. "A experiência do Mohammad no Brasil, viabilizada pela bolsa Luiz Pinguelli Rosa, foi extremamente produtiva, permitindo uma troca de conhecimentos vital para o avanço da nossa pesquisa e o estreitamento de laços", concluiu Dias.
Para Mohammad, a experiência no Brasil foi transformadora, tanto profissional quanto pessoalmente. Segundo ele, a bolsa da FAPERJ proporcionou o apoio crucial para se dedicar de forma integral à pesquisa na UFF, e permitiu colaborar e se beneficiar de uma valiosa troca de experiências com cientistas brasileiros. "Sou profundamente grato por essa oportunidade. Receber a bolsa me possibilitou estabelecer colaborações profundas e duradouras com a comunidade científica do Rio de Janeiro", disse.
Segundo ele, o apoio foi essencial para acessar recursos e dados únicos, mas o que realmente fez a diferença foi a oportunidade de trocar ideias em um ambiente tão dinâmico e inspirador – particularmente em seu trabalho sobre degradação costeira, onde utilizou técnicas com drones para monitorar esses fenômenos.
"Sou imensamente grato à FAPERJ por promover a cooperação internacional e por desempenhar um papel fundamental no meu desenvolvimento acadêmico. Retornei à Síria não apenas com avanços científicos significativos, mas também com amigos para a vida toda e uma profunda admiração pela ciência e resiliência brasileiras. Espero sinceramente ter outra oportunidade no futuro para expandir ainda mais meu conhecimento e experiência no uso de drones para monitoramento e investigação da degradação do solo", concluiu.