Marcos Patricio
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| Livro foi dividido em cinco blocos temáticos, que podem ser trabalhados com os alunos em sala de aula. A proposta é ser um guia de campo que estimule os professores a realizarem aulas-passeio (Imagem: Divulgação/Editora Interciência) |
Vista como um dos principais cartões-postais do Rio de Janeiro, a Lagoa Rodrigo de Freitas é muito mais do que um espaço que atrai turistas e moradores da cidade em busca de lazer. A história, as transformações, a flora e a diversidade da fauna são alguns dos aspectos que fazem dela uma sala de aula a céu aberto. É o que mostra o “Guia de Campo da Lagoa Rodrigo de Freitas”, lançado no fim de 2025 pelas pesquisadoras Aline Assumpção Ribeiro e Andréa Espinola de Siqueira. O livro é resultado da dissertação de Aline, sob orientação de Andréa, no Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Biologia (Profbio) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Servir como um guia de campo, que estimule professores do Ensino Médio a realizarem aulas-passeio ao longo da orla da Lagoa é a proposta do livro, editado com recursos do Programa de Apoio à Editoração da FAPERJ. A ideia é explorar temas relacionados ao local como meio ambiente, diversidade biológica, atividades esportivas, história e as mudanças ocorridas na região, uma das mais valorizadas da cidade. A obra é voltada não só a docentes, mas a todos aqueles que desejam saber um pouco mais sobre a Lagoa.
A ideia de escrever o guia surgiu como um desafio para Aline, que, desde 2014, é professora de Biologia da Rede Estadual do Rio de Janeiro. “Quando fui aprovada para o Mestrado, havia essa proposta de tema para pesquisa, feita pela professora Andréa, de quem fui aluna em 2009, durante a graduação na Uerj. Como sempre fui muito medrosa em relação a levar alunos para fora da escola, resolvi me desafiar e aceitar o projeto. Quando embarquei na viagem, acredite, não conhecia a Lagoa. Nos conhecemos por conta da pesquisa e foi amor à primeira vista. Desde então, sou apaixonada por aquele lugar”, conta Aline, que, durante 11 anos, deu aulas em cursos pré-vestibulares populares.
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| Um dos cartões-postais do Rio de Janeiro, a Lagoa é vista por diferentes ângulos no guia. Livro destaca questões como artes, ecologia, esportes, ocupação e poluição. Local é uma sala de aula a céu aberto. (Foto: Divulgação/Andréa Espinola) |
A investigação do Mestrado foi sobre as contribuições das aulas-passeio para a aprendizagem e para o bem-estar dos estudantes. “Levar os alunos a um ambiente natural contribui para que eles aprendam os conteúdos trabalhados em sala e para o bem-estar deles”, explica Aline, que atualmente é doutoranda em Ensino de Biociências e Saúde pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Com 110 páginas, o livro foi dividido em cinco blocos de assuntos, que podem ser trabalhados com os estudantes em sala de aula: ocupação, aterramento e poluição; ecologia e biodiversidade; esportes; artes; e contemplação. Em cada um deles, as autoras listaram os conteúdos curriculares e as competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que podem ser explorados a partir de uma visita à Lagoa. Produzido pela Editora Interciência, o guia traz também sugestões de atividades que podem ser realizadas dentro de cada tema.
Pensando nas aulas-passeio, as pesquisadoras dividiram os 7,4 km da orla da Lagoa em quatro percursos, com extensões entre 1,5 km e 2,3 km, de forma a facilitar as atividades. Cada um deles pode ser percorrido em caminhadas que variam, em média, de 20 a 30 minutos. Esse tempo não considera as paradas. O primeiro trecho vai do Pier do Vasco da Gama à Sede Náutica do Botafogo. O segundo vai da Sede Náutica do Botafogo até à reta do clube Caiçaras. No clube, tem início o terceiro percurso, que se estende até o Parque das Figueiras. Ali, começa o percurso 4, que segue até o Pier do Vasco da Gama. Cada um deles conta com um QR Code que dá acesso a um tour virtual disponível no Youtube.
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| Um dos aspectos destacados no guia é a biodiversidade. Os biguás estão entre as espécies encontradas na Lagoa Rodrigo de Freitas. Aves dão vida e embelezam ainda mais o local (Foto: Divulgação/Jairo Farias) |
“Os professores podem escolher os aspectos abordados no guia que mais lhe interessam para realizar uma caminhada com os alunos em algum dos trechos sugeridos e aproveitar as propostas pedagógicas de ensino por investigação elencadas no material. A ideia é que o guia possa estimular as visitas de grupos escolares ao local, à medida em que descreve a orla, oferece mapas e descrições de temas importantes encontrados no currículo da Educação Básica”, explica Andréa Espinola, doutora em Ciências e professora do Departamento de Ensino de Ciências e Biologia, do Instituto de Biologia da Uerj.
No trecho do guia dedicado à ecologia e à biodiversidade, as autoras mostram a fauna local, com destaque para as capivaras e para a variedade de aves como garças, biguás e frangos d’água que embelezam ainda mais a paisagem do local. As informações são ilustradas pelas imagens feitas pelas autoras e colaboradores voluntários e contam com a parceria do professor Antônio Carlos Freitas e do biólogo Victor Moura, ambos do Núcleo de Fotografia Científica Ambiental (BioCenas) da Uerj.
A obra também retrata uma parte da história da região, desde o tempo em que era habitada por indígenas Tamoio, passando pelas fazendas existentes ali no período colonial, até chegar aos dias de hoje. Fala também dos processos de aterramento, de ocupação do local por comunidades em vulnerabilidade, do processo de remoção dessas famílias, e da ocupação do bairro pela classe média alta. Movimentos que influenciaram as transformações do espelho d’água, resultaram em poluição e trouxeram impactos na qualidade da água.
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| Aline Ribeiro (à direita) e Andréa Espinola dividiram o desafio de escrever o Guia de Campo da Lagoa. Andréa foi orientadora de Aline durante o Mestrado na Uerj, quando a pesquisadora investigou as contribuições das aulas-passeio para a aprendizagem (Foto: Divulgação/Cristina Gonçalves) |
“O guia traz um pouco da história da Lagoa, o que nos remete à história da nossa cidade onde inúmeros aterramentos aconteceram. É fundamental entender como aquele ecossistema foi estabelecido ao longo do tempo e qual a sua relação com o que encontramos em seu entorno, seja de áreas construídas, seja de proximidade com outras áreas protegidas e como nós nos relacionamos com ele”, explica Andréa.
De acordo com a professora que, entre outros temas, realiza estudos sobre produção de materiais didáticos e sobre espaços não formais de ensino, o guia conta com entrevistas que ajudam a preservar a memória local. “Ouvimos o pescador artesanal mais antigo em atividade na ocasião, José da Luz de Andrade, o Sr. Pitu, que infelizmente veio a falecer semanas depois. Ele contou como era realizada a pesca artesanal na Colônia Z-13 no século passado. Entrevistamos também o Sr. Luiz Sacopã, líder e representante do Quilombo do Sacopã, para que pudéssemos dar visibilidade no texto do guia à presença da resistência e da luta fundiária contra a pressão imobiliária no local e destacar o valor cultural do Quilombo do Sacopã”, conta Andréa, que, ao lado de outros professores, produziu um guia de campo digital dedicado ao Parque Nacional da Tijuca, também com apoio da FAPERJ.
Segundo a pesquisadora Aline Ribeiro, o estudo da Lagoa Rodrigo de Freitas envolve tantos aspectos que fica até difícil destacar especificamente um deles. “Eu destaco a Lagoa como um ecossistema. Sua história geológica, biológica e até mesmo a intervenção humana que tanto a alterou. O lugar para mim é sinônimo de resiliência, porque depois de tudo o que passou, todos os problemas, todas as interferências, ele segue cheio de vida, segue pulsando”, explica a pesquisadora, que ressalta a relevância do trabalho realizado em benefício do local. “Um exemplo é o empenho de pessoas que abraçaram e decidiram cuidar da Lagoa, como do biólogo Mario Moscatelli. Quando todo mundo achava que a recuperação da Lagoa seria impossível, ele acreditou e dedicou sua vida profissional a isso. A Lagoa segue viva, atraindo novas espécies, novos olhares e novas possibilidades”, conclui Aline.