Marcos Patricio
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| Ao assumir as personagens do 'Jogo do Cuidado', os participantes têm a oportunidade de viver as experiências de quem mora nas grandes cidades. Reflexões sobre acesso à moradia, saneamento, segurança, transporte, saúde e outros direitos e infraestruturas (Foto: Divulgação/Eric Lobo) |
Questões relacionadas à reprodução social e ao chamado trabalho do cuidado estão presentes no dia a dia de muitas pessoas. Sobretudo das mulheres que, geralmente, carregam a responsabilidade e o peso de cuidar de crianças e idosos e de dar conta de uma série de afazeres domésticos. Para discutir esses e outros aspectos de um trabalho não remunerado e quase sempre invisibilizado, pesquisadoras da Escola de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), sob a coordenação da professora Rossana Brandão Tavares, criaram o “Jogo do Cuidado – Um jogo sobre o direito à cidade das mulheres”. O grupo vem discutindo a problemática da reprodução social nos territórios urbanos e produziu um jogo de tabuleiro como material de apoio didático para que professores do Ensino Médio possam trabalhar essas questões com seus alunos.
O território onde o jogo é disputado é a Região Portuária da cidade do Rio de Janeiro, lugar onde a professora realiza sua investigação há mais de uma década. O tabuleiro do jogo é dividido em dez áreas, como a Central do Brasil, os bairros da Gamboa, Saúde e Santo Cristo, a favela da Providência, a Praça Mauá e a Cidade do Samba. São locais onde vivem e transitam os dez personagens do jogo, que retratam a diversidade de grupos sociais, com gênero, idade, raça e orientação sexual diferentes. As características de cada um deles estão descritas na carta relativa a esse personagem. A carta traz também o grau de instrução, o local de moradia e o objetivo de cada um.
Produzido a partir de recursos do programa Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, o jogo conta com outras 41 cartas – de sorte, de revés, de direitos e com coringas – que ficam na mesa para serem compradas pelos participantes à medida que o jogo se desenrola. Além delas, há dez peões e cédulas que simbolizam o Capital do Cuidado e o Capital Econômico.
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| Parte do Grupo de Estudos e Pesquisa Urb.Anas, da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF. Pesquisadores vêm estudando as contradições a respeito da reprodução social e do trabalho do cuidado (Foto: Divulgação/Tayná Silva) |
Ao longo de cada partida, os participantes têm a oportunidade de viver as experiências dos personagens que se assemelham às situações enfrentadas pelas pessoas nas grandes cidades – com todas as dificuldades e enfrentando desafios relacionados a diferentes questões cotidianas, como acesso à moradia, segurança, serviços de transporte, de saúde e de educação. A meta de cada participante é não ser expulso do jogo e acumular maior Capital do Cuidado, ou seja, incidir no território com infraestruturas e equipamentos que apoiem o trabalho do cuidado. À medida que as cartas da mesa são tiradas, surgem novas situações que podem melhorar ou piorar as condições de vida de cada área e de cada um. Ao final, vence o jogador que acumular o maior valor de Capital do Cuidado.
“O jogo é fruto da pesquisa que realizamos sobre a vida cotidiana das mulheres na cidade atravessada pelo trabalho do cuidado, e foi pensado para apoiar atividades realizadas em sala de aula. Em parte, ele é baseado nas dinâmicas sociais e urbanas da Região Portuária do Rio de Janeiro. O objetivo é contribuir para a compreensão das contradições a respeito da reprodução social e do trabalho do cuidado”, explica Rossana, idealizadora do jogo e professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFF.
O jogo de tabuleiro é um produto do projeto “Inversões Urbanas – Cartografias da reprodução social dos territórios” desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Pesquisa Urb.Anas da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF. Como as cidades não são pensadas e estruturadas para facilitar o trabalho do cuidado, o tema tem sido trabalhado para aprofundar uma agenda de pesquisa no campo da Arquitetura e Urbanismo, assim como no Planejamento Urbano e Regional.
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Professora e idealizadora do jogo, Rossana Brandão Tavares vem estudando caminhos para a articulação entre os problemas urbanos e de moradia, familismo e a reprodução social. A pesquisadora desenvolve há 15 anos suas investigações sobre a Região Portuária do Rio (Foto: Divulgação/Camille Cristine) |
“A proposta da pesquisa é justamente estudar, compreender e propor caminhos para a articulação entre os problemas urbanos e a reprodução social que, historicamente, é de responsabilidade das mulheres. Dessa forma, discutimos a importância de pensar as cidades a partir da ética do cuidado e da gestão feminista do habitat”, explica Rossana, coordenadora do Urb.Anas e Jovem Cientista do Nosso Estado.
Como uma das ações previstas no programa da FAPERJ é a promoção de práticas relacionadas à pesquisa em escolas públicas no estado, a equipe coordenada por Rossana realizou atividades com os alunos do Colégio Estadual Reverendo Hugh Clarence Tucker, na Gamboa. Eles são moradores da região. Em conjunto com os pesquisadores e seus professores, os estudantes puderam refletir sobre as condições de vida no local, o trabalho do cuidado, o cotidiano das mulheres e questões como familismo e reprodução social.
O “Jogo do Cuidado” foi lançado no final de 2025, na Semana Acadêmica da UFF. O jogo e a pesquisa também foram apresentados e discutidos em outros eventos acadêmicos e em uma audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
Foram impressas 20 unidades do jogo e, diante do grande interesse que ele vem despertando nos eventos em que foi apresentado, a equipe do Urb.Anas desenvolveu um site, a partir do qual o tabuleiro e todas as cartas do jogo podem ser impressos. O site será lançado oficialmente dia 3 de março, às 16h, em um encontro virtual com as pesquisadoras, mas já pode ser acessado em: www.jogodocuidado.com.br . Na ocasião, também será apresentado o site www.urbanasuff.arq.br , onde será possível acompanhar as atividades do grupo de pesquisas.