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Publicado em: 15/01/2026 | Atualizado em: 15/01/2026

Projeto digitaliza inventários e testamentos históricos do Arquivo Público de Campos

Débora Motta

Projeto desenvolvido no Arquivo Público Municipal de Campos envolveu esforços de diversos profissionais arquivistas, para a digitalização de 648 processos, com cerca de 50 mil páginas (Fotos: Divulgação)  

Inventários e testamentos manuscritos na época do Brasil colonial que compõem o rico acervo histórico do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho, em Campos dos Goytacazes, na região Norte fluminense, podem agora ser consultados livremente pela internet, no endereço eletrônico https://arquivodecampos.com.br/. Financiado pela FAPERJ, o trabalho resultou na digitalização de 648 processos, sendo o mais antigo datado de 1648. A partir de um esforço conjunto dos profissionais arquivistas da instituição, mais de 50 mil páginas ganharam versões digitais, no projeto contemplado pelo Programa de Apoio a Estudos para a Recuperação e Reestruturação de Edificações Históricas do Período Colonial (1500-1807), Tombadas por Instituições de Patrimônio Histórico, Sediadas no Estado do Rio de Janeiro, lançado em 2024 pela Fundação.

“É a primeira vez que o Arquivo, ao longo dos seus 24 anos de história, empreende a digitalização em larga escala do seu acervo. A digitalização é fundamental para a conservação dos documentos, para evitar o manuseio e a degradação deles. A expectativa é que, no futuro, nosso acervo todo seja digitalizado”, disse o supervisor de conservação documental do Arquivo Público de Campos, Luís Felipe Ferreira. 

Ele, que é licenciado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), detalhou as etapas do trabalho. “O projeto incluiu o tratamento, a digitalização e a difusão de documentos de inventários e testamentos referidos do Brasil colonial. As primeiras etapas do tratamento foram a organização e a limpeza desses documentos. Alguns precisaram de reparos por conta da degradação do suporte. Depois, fizemos a digitalização e todo o controle de qualidade. Por fim, passamos para a etapa da disponibilização desses documentos ao público, no site do Arquivo de Campos”, resumiu Ferreira.

Os documentos revelam histórias do Brasil colonial, que ajudam a reconstruir o passado do território da antiga Vila de São Salvador – hoje, o município fluminense de Campos dos Goytacazes –, localizada na então chamada capitania da Paraíba do Sul. “Os inventários revelam detalhes dos bens que as pessoas tinham, como o maquinário das fazendas, e dos antigos solares da cidade, as casas de moradia. Curiosamente, os testamentos mostram ainda hábitos religiosos, e até citam alguns santos de devoção na época. Em alguns deles, o falecido deixa cartas de alforria a escravizados”, detalhou o historiador.

Coordenador do projeto no Arquivo de Campos, Luís Felipe Ferreira destaca a importância da digitalização do acervo para expandir o conhecimento sobre o Brasil colonial  

No inventário 00068, por exemplo, a escravizada Anna Dias de Araújo, que pertencia ao falecido Joze Gomes, solicitou ao juiz que assegurasse o seu direito à liberdade após a morte dele, por ter sido sua concubina por muitos anos (requisito da época para ser peticionária nessa ação judicial por liberdade). Conforme o texto do inventário, datado de 2 de agosto de 1758 e grafado com o português da época: “Dis Anna Dias de Araujo, parda escrava que foi do defunto Joze Gomes, que ella teve avizo para vir a esse Juizo dos defuntos e alzentes para ser avaliada no inventário que se fes dos bens do dito defunto, e q. se nao viesse atrarião preza; e para que a supplicante pretende mostrar que é forra e liberta por direito cuja Liberdade conseguio com a morte do dito seu Senhor, por ter sido sua concubina muitos anos e perseverando no dito com-cubinato até o seu fallecimento por acção competente sem ter obrigação de dar dinheiro algú para si nestes para conservação do seu direito (...) da dita sua liberdade”. 

Outro documento que esmiúça detalhes das relações sociais nos tempos da escravidão é o testamento 00149, de 12 de março de 1805. Trata-se de um caso de alforria condicional, onde o testador declara que concede a liberdade à sua escravizada Anna, esposa do escravizado Miguel. Entretanto, com a condição dela só se tornar livre depois de dar à luz o filho ou filha que carrega no ventre. “Deixo a minha negra Anna, mulher do negro Miguel, Liberta porem que não gozará esta Liberdade senao depois de parir o filho ou filha que tras no ventre cujo parto será Captivo, e sua May dita minha escrava deixo Liberta depois do referido parto para agora e para sempre, e com ella possa [?] tratar sem empedimento algum desde esse tempo em diante nem os meos herdeiros apossão impedir em couza alguma.” 

De acordo com Ferreira, digitalizar e disponibilizar esses documentos têm uma inegável importância histórica e abrem novas possibilidades para a pesquisa. “O acesso virtual a esse acervo vai possibilitar a realização de inúmeras pesquisas na área de História e em outras áreas do conhecimento, relacionadas ao Brasil colonial”, concluiu.

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