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| O objetivo do projeto é formar jovens financeiramente conscientes (Fotos:Freepik) |
Paula Guatimosim
O nível de endividamento das famílias brasileiras atingiu níveis alarmantes em 2025, passando de 79% em outubro, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Como agravante, os dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) mostram que 30,5% das famílias estavam com dívidas atrasadas e 13,2% não tinham condições de quitá-las. A pesquisa considera, como dívidas, as contas a vencer nas modalidades cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e de casa. Segundo a confederação, o aumento do endividamento pode ter sido consequência das compras durante a Black Friday e as antecipadas para o Natal.
“Há também um forte apelo de consumo, agravado pelos jogos de apostas, a facilidade do comércio eletrônico e tantas outras transformações que a gente fica sem saber para onde ir”, pondera a pesquisadora doutora Branca Regina Cantisano dos Santos e Silva, da Faculdade de Administração e Finanças da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FAF/Uerj). Ela venceu o edital Pensa Rio - Apoio ao Estudo de Temas Relevantes e Estratégicos para o Estado do Rio de Janeiro com o projeto “Educação Financeira Inteligente como Ferramenta de Inclusão Social e Desenvolvimento Sustentável”.
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| O projeto considera que altos índices de endividamento perpetuam as desigualdades sociais |
O objetivo do projeto é implementar, avaliar e consolidar um programa de Educação Financeira Inteligente, em um polo da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), como modelo piloto estadual, fundamentado no “Método Eu Lucro Para Sempre” (MELPS), criado e gerido pela professora Luciana Maria, CEO da Lucrativa, empresa de educação financeira, com o objetivo de formar jovens financeiramente conscientes, validar cientificamente os resultados e divulgar as metas alcançadas, para fomentar as políticas públicas, com o uso de recursos digitais (podcasts, QR Codes, murais interativos etc.), seminários e premiações, estimulando o protagonismo estudantil e promovendo aprendizagem efetiva.
“O estado do Rio de Janeiro enfrenta um desafio estrutural: jovens ingressam no mercado de trabalho sem preparo financeiro, o que contribui para altos índices de endividamento e para a perpetuação de desigualdades sociais”, consta da justificativa do projeto. Alinhado ao Plano Nacional de Educação Financeira (PNEF 2021–2030) e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 4, 8 e 10), o trabalho utiliza uma metodologia organizada em quatro etapas: Estruturação Inicial e Diagnóstico Científico; Implementação Pedagógica e Engajamento; Sistematização Científica e Expansão; e Consolidação, Sustentabilidade e Disseminação. Além da formação dos jovens em educação financeira e da conscientização sobre a importância desse aprendizado para a sociedade, serão produzidos livros temáticos, será criado o Observatório de Educação Financeira Juvenil na Uerj, entre outros resultados. “Esperamos impactar diretamente milhares de jovens e suas famílias, fortalecer a cidadania financeira, reduzir vulnerabilidades, gerar um banco de dados inédito, publicar artigos científicos, organizar eventos de disseminação e entregar uma proposta oficial de expansão educacional para a rede Faetec”, explica a professora.
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| Branca Cantisano: com o projeto, a pesquisadora espera impactar milhares de jovens e suas famílias, criando uma rede de disseminação para que se instaure a cultura da educação financeira |
“Conseguimos reunir um grupo muito interessante”, afirma Branca, cuja equipe é composta, entre outros, pelo doutor em Administração de Empresas com ênfase em Finanças, Paulo Vitor Jordão da Gama Silva, do Departamento de Ciências Contábeis da Faculdade de Administração e Finanças da Uerj. Ele é autor de livros sobre criptomoedas e dinheiro virtual. A contribuição de Paulo Vitor no Pensa Rio está voltada à articulação entre educação financeira, tecnologia e comportamento econômico, ajudando a traduzir conceitos complexos – como crédito, risco e novas formas de dinheiro, a exemplo das criptomoedas e de projetos de moedas digitais de bancos centrais, como o DREX, no Brasil – em ferramentas práticas que ampliem a autonomia financeira dos jovens.
Outra colaboradora é Maria Isabel de Castro de Souza, que foca a educação financeira na saúde e mantém um podcast sobre o assunto na Unidade de Desenvolvimento Tecnológico da Uerj (UDT/Uerj) – onde coordena o projeto Teleodonto. Também integram a equipe a doutora Herika Crhistina Maciel de Oliveira Costa, que se dedica ao projeto de inovação social da Uerj que auxilia a população de baixa renda a preencher corretamente a declaração do Imposto de Renda; e o professor doutor José Mauro Gonçalves Nunes, psicólogo que aborda a autonomia, o senso crítico e a responsabilidade, para que o jovem aprenda desde cedo a tomar decisões conscientes sobre finanças e consumo que impactam positivamente no seu presente e no seu futuro; o professor doutor Guilherme Portugal, com prêmios na área de custos; e a doutora Danúbia da Cunha de Sá Caputo que também aborda as finanças na área da saúde.
Branca, que conta com o apoio da FAPERJ desde 2007 e, atualmente, é Cientista do Nosso Estado (CNE), já criou um "jogo da mesada", que, de forma lúdica, auxilia jovens a administrar o dinheiro que recebem da família. É um background em educação financeira. “Esperamos que o projeto crie uma rede de disseminação para que se instaure a cultura da educação financeira”, afirma a professora. Segundo ela, a Faetec promoverá um grande seminário, em parceria com diversas secretarias, para que o projeto seja incluído no currículo pedagógico do estado. “A educação financeira pode vir a ser uma grande virada na educação, não apenas junto aos alunos do ensino médio, mas também do fundamental”, aposta a pesquisadora.