Paula Guatimosim
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| Desvios no ganho de peso durante a gestação gemelar podem aumentar o risco de complicações maternas e neonatais |
O ganho de peso gestacional (GPG) é fundamental para a saúde materna e infantil, especialmente entre gestantes de gêmeos, devido ao risco aumentado de complicações. No Brasil, as recomendações de GPG para gestantes gemelares ainda se baseiam em faixas estabelecidas por órgãos internacionais, como o Institute of Medicine (IOM), que nunca foram validadas para nossa população. A doutoranda em Saúde da Criança e da Mulher pelo Instituto Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz) Thaísa Bissoli pretende avaliar a aplicabilidade de uma referência internacional de ganho de peso gestacional – desenvolvida para gemelares – analisando se essas recomendações realmente se associam a melhores desfechos maternos e neonatais no nosso contexto.
Segundo pesquisas, nos últimos 30 anos, a incidência de gestações gemelares aumentou em todo o mundo. No Brasil, essa taxa de incidência dobrou, passando de 0,9% em 1980 para mais de 2% na última década. Esse aumento está associado ao adiamento da maternidade, à maior adoção de técnicas de reprodução assistida e ao aumento do índice de massa corporal (IMC) médio das mulheres em idade fértil — fatores que refletem mudanças no perfil sociodemográfico e reprodutivo da população feminina brasileira.
“Até recentemente, o acompanhamento de todas as gestantes – com feto único ou múltiplo – era realizado com base em curvas internacionais que não representavam adequadamente a população brasileira. Só em 2021, foi publicado o estudo do Consórcio Brasileiro de Nutrição Materno-Infantil, propondo uma curva construída a partir de dados de gestantes brasileiras, e que, a partir de 2022, foi incorporada na caderneta de saúde da gestante. No entanto, para a construção dessa curva, foram excluídas as gestações gemelares, o que faz muito sentido do ponto de vista metodológico, considerando que não é esperado um ganho de peso semelhante entre gestações únicas e gemelares, mas não podemos esquecer essa lacuna no cuidado das gestantes gemelares. Acredito que agora seja o momento de concentrarmos esforços para preencher essa lacuna, e o estudo da Thaísa representa um passo fundamental nesse sentido, permitindo compreender com maior clareza a magnitude do problema e trazendo luz a um tema de grande relevância para a saúde materna”, afirma Fernanda Rebelo, orientadora do estudo.
Thaísa esclarece que desvios no ganho de peso durante a gestação gemelar podem aumentar o risco de complicações maternas e neonatais. O ganho de peso excessivo está associado à maior probabilidade de desenvolver diabetes gestacional, síndromes hipertensivas, pré-eclâmpsia e necessidade de cesariana, entre outros desfechos adversos. Em contrapartida, o ganho de peso insuficiente pode resultar em restrição do crescimento fetal, baixo peso ao nascer, parto prematuro e maior necessidade de internação neonatal.
A pesquisadora, bolsista do programa de fomento à pesquisa "Doutorado Nota 10", da FAPERJ, explica que seu estudo é uma análise secundária da pesquisa "Nascer no Brasil 1 e 2", que abrangem gestantes atendidas entre 2011-2012 e 2020-2022 em hospitais públicos e privados de todos os estados brasileiros. As variáveis analisadas incluem GPG, complicações maternas e desfechos neonatais. Espera-se que os resultados forneçam subsídios para a adaptação das diretrizes de ganho de peso gestacional para gestantes gemelares brasileiras, promovendo um melhor acompanhamento e reduzindo complicações associadas a essa condição.
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| As gêmeas Giovana e Beatriz, monozigóticas diamnióticas, nasceram prematuras, com 34 semanas de gestação |
Mestre em Alimentação, Nutrição e Saúde pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde estudou células endoteliais humanas, Thaísa conta que sua aproximação com a área materno-infantil aconteceu após a maternidade. Ela tem uma filha de 10 anos e um menino de 8 anos, mas foi um drama pessoal, vivido após o nascimento de suas sobrinhas e afilhadas gêmeas — Giovana e Beatriz —, que a motivou a aprofundar ainda mais seus estudos. As bebês, monozigóticas diamnióticas, nasceram prematuras, com 34 semanas de gestação. Beatriz apresentou uma má-formação cardíaca, o Defeito do Septo Atrioventricular Total (DSAVT). Apesar de ter sido submetida à cirurgia, permaneceu internada na UTI e não resistiu, falecendo com 1 ano e 28 dias de vida. “A história delas me levou a aprofundar meus estudos sobre gestações gemelares e a me dedicar à pesquisa que subsidie um cuidado baseado em evidências, sensível às particularidades dos gêmeos”, relata a pesquisadora.
Thaísa explica que a gemelaridade é classificada de acordo com a zigoticidade e a corionicidade. Gêmeos dizigóticos (fraternos) resultam da fertilização de dois óvulos distintos e apresentam placentas e bolsas amnióticas separadas, com menor risco de complicações. Já os gêmeos monozigóticos (idênticos) compartilham o mesmo material genético, mas podem apresentar diferentes padrões placentários — de dicoriônicos e diamnióticos (onde cada bebê tem sua própria placenta e sua própria bolsa amniótica) a monocoriônicos e monoamnióticos (gêmeos idênticos que compartilham uma mesma placenta e um único saco amniótico) — o que aumenta o risco de complicações como a síndrome de transfusão feto-fetal, prematuridade e malformações congênitas. A ultrassonografia precoce é essencial para identificar a corionicidade e a amnionicidade e orientar o manejo adequado. Embora as gestações dizigóticas sejam mais frequentes, todos os tipos de gestação gemelar apresentam risco aumentado em comparação às gestações únicas, com repercussões tanto para a saúde materna quanto neonatal.
Atualmente, Thaísa está escrevendo um artigo sobre o perfil materno e neonatal das gestações gemelares no Brasil, com o objetivo de descrever perfil materno-neonatal, analisar os principais desfechos ao nascimento e caracterizar os padrões de discrepância de peso entre gêmeos no período de 2017 a 2023, utilizando dados nacionais do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), para submissão ainda este ano em periódico brasileiro.
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| Thaísa Bissoli: para a pesquisadora, seu trabalho visa contribuir para uma transformação no acompanhamento pré-natal de gestantes gemelares brasileiras |
Segundo ela, o instrumento atualmente utilizado para monitorar o ganho de peso das gestantes gemelares no Brasil pode não ser adequado para prever desfechos adversos, maternos e neonatais. Isto porque as recomendações atuais de GPG para gestantes de feto único não foram testadas em gestações gemelares, e as diretrizes internacionais de ganho de peso em gestações gemelares não foram criadas para mulheres brasileiras, e nunca foram adequadamente validadas no país. Assim, é possível observar a importância de testar a viabilidade e efetividade das curvas de ganho de peso internacionais para o contexto brasileiro.
“Este trabalho visa contribuir para uma transformação no acompanhamento pré-natal de gestantes gemelares brasileiras, pois poderá trazer à tona a necessidade de uma política de cuidado voltada especificamente para este público, incentivando a criação de um instrumento específico que poderá ser incorporado às cadernetas das gestantes brasileiras, reduzindo o risco de desfechos adversos para mãe e criança a curto, médio e longo prazos”, afirma a pesquisadora, para quem o apoio da Fundação tem sido fundamental. "Com a bolsa da FAPERJ, consigo me dedicar exclusivamente à pesquisa e ainda tenho a possibilidade de concorrer a outros apoios, como o Doutorado Sanduíche. Essa oportunidade permitirá ampliar meus conhecimentos, fortalecer vínculos e estabelecer parcerias com pesquisadores de outros países que possuem reconhecida expertise na minha área de estudo.” conclui Thaísa.