Paula Guatimosim
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Paisagem da Caatinga, um dos domínios fitogeográficos, ao lado da Amazônia, com maior potencial para novas descobertas (Foto: Ricardo Moura) |
A análise do padrão histórico de descrição das espécies nativas de angiospermas (plantas com flores) no Brasil num intervalo de 267 anos (entre 1753 e 2020), com base em dados taxonômicos publicados, revela que apesar de o Brasil ser historicamente um dos países que mais descrevem novas espécies, centenas delas podem ser extintas antes mesmo de serem descritas. O estudo mostra que o catálogo taxonômico brasileiro está longe de ser completo. Ao analisar cerca de 33 mil espécies nativas distribuídas nos seis grandes domínios fitogeográficos do país, verificou-se que os atuais esforços de coleta e descrição são insuficientes frente ao ritmo acelerado da perda de habitat.
A pesquisa, conduzida no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), considerou dezenas de milhares de registros, utilizando modelos estatísticos que incorporam o esforço de pesquisa taxonômico ao longo do tempo e as datas de descrição das espécies para estimar o quanto da flora brasileira ainda permanece desconhecida. Na sequência, foi analisada a variação espacial do potencial de descoberta e da completude taxonômica em todo o território nacional, comparando as áreas com maior número estimado de espécies não descritas com a rede atual de áreas protegidas, a fim de avaliar como as prioridades de conservação poderiam mudar se todas as espécies já fossem conhecidas.
“Tesouros ocultos” é o termo que os autores do artigo, publicado no periódico científico PLOS One, usaram para se referir às espécies de plantas ainda não descritas pela ciência. Sem um nome científico, essas espécies tornam-se invisíveis para políticas de conservação e pesquisa – é como se não existissem oficialmente. “Sem um nome científico, uma espécie torna-se invisível para a ciência, ficando excluída de políticas públicas, estratégias de conservação e mesmo de pesquisas básicas e aplicadas”, alerta a pesquisadora Janaina Gomes da Silva mestre e doutora em Ciências Biológicas (Botânica) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela contou com bolsa de Pós-Doutorado Sênior da FAPERJ ao longo de todo o período do seu estudo. Um domínio fitogeográfico se refere a uma região geográfica onde certas condições morfoclimáticas prevalecem e onde um tipo particular de vegetação é predominante, embora vários tipos de vegetação possam coexistir dentro dela. A Amazônia, especialmente em áreas remotas ainda inexploradas, e a Caatinga aparecem como as regiões com maior potencial para novas descobertas, mas com cobertura insuficiente por Unidades de Conservação (UCs), sobretudo no caso da Caatinga.
Janaína acredita que o estudo reforça a urgência de políticas públicas mais estratégicas e coordenadas para a coleta, catalogação e conservação da flora brasileira. A criação ou expansão de Unidades de Conservação em áreas críticas pode ser decisiva para evitar perdas irreversíveis. “Além disso, ao identificar lacunas espaciais no conhecimento florístico do país, fornecemos direções para futuras expedições científicas e ações de conservação. Isso representa uma contribuição prática e imediata para gestores, cientistas e tomadores de decisão”, afirma.
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Inflorescência de Dyckia Schult. & Schult.f. (Pitcairnioideae, Bromeliaceae), angiosperma encontrada na Ilha do Cardoso/SP (Foto: Janaina Gomes) |
Angiospermas
Angiospermas são as plantas que produzem flores e frutos, dentro dos quais ficam protegidas suas sementes. Estão presentes no nosso dia a dia de várias formas: nas árvores das florestas, nos alimentos, nos jardins, nas hortas e até em plantas com propriedades medicinais. São o grupo mais diverso de plantas existentes e dominam os biomas terrestres, particularmente importantes para a diversidade taxonômica no Brasil, que é o país com maior diversidade florística do mundo, com aproximadamente 33.609 espécies nativas de angiospermas, incluindo 19.247 espécies endêmicas e 341 gêneros exclusivos do Brasil. Além de seu valor para a biodiversidade, as angiospermas fornecem serviços ecossistêmicos essenciais, como a regulação do ciclo hidrológico, a produção de oxigênio e o armazenamento de carbono. Árvores e outras plantas vasculares armazenam grandes quantidades de carbono em seus tecidos, ajudando a reduzir o CO2 atmosférico e a mitigar as mudanças climáticas. Conservar e manejar as angiospermas de forma sustentável contribui diretamente para a preservação do planeta e para garantir um clima mais estável.
Quando o desmatamento atinge áreas pouco amostradas, é possível perder espécies únicas, antes mesmo de conhecê-las. A pesquisa estima que o catálogo de angiospermas do Brasil ainda esteja incompleto em pelo menos 19% a 23%, com lacunas que variam de 4% a 39% entre os diferentes domínios fitogeográficos. Ou seja, ainda há muitos “tesouros” botânicos escondidos, espécies desconhecidas que precisam ser descobertas, descritas e conservadas antes que desapareçam. O fato de os diferentes métodos empregados no estudo apontarem para as mesmas regiões – em especial, a Amazônia e a Caatinga – com o maior número estimado de espécies não descritas, indica que tais regiões deveriam ser priorizadas para pesquisa taxonômica e conservação. Segundo Janaina, finalizar o catálogo de espécies pode trazer muitos benefícios práticos, além de avanços científicos. “Uma melhor compreensão da diversidade vegetal tem implicações diretas para setores como agricultura, biotecnologia e indústria farmacêutica”, acrescenta.
Os resultados revelam um grande desequilíbrio no conhecimento botânico entre regiões do Brasil. Enquanto o Sudeste tem inventários relativamente completos, o Norte e o Nordeste, especialmente a Amazônia, ainda são amplamente subamostrados. Cerca de 45% da Amazônia brasileira não possui registros de coleta, o que aponta para zonas críticas que carecem de atenção urgente. Aproximadamente 80% das áreas com alto potencial de descoberta não coincidem com áreas protegidas (UCs) no Brasil. Em particular, a Caatinga, que carece de cobertura de proteção integral em áreas de alto potencial de descoberta, apesar de sua rica biodiversidade. Isso destaca a necessidade de expandir e redesenhar estratégias de conservação para incluir regiões negligenciadas pela atual rede de áreas protegidas. Embora a Amazônia concentre a maior parte das áreas protegidas do Brasil (~28%), outras, como a Caatinga, permanecem sub-representadas, com apenas 1,3% sob proteção integral. “Notavelmente, cerca de 50% das áreas com maior potencial para a descoberta de novas espécies estão localizadas em terras indígenas. Isso destaca o papel fundamental desses territórios”, alega Janaina.
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Janaina Gomes: para a pesquisadora, identificar lacunas espaciais no conhecimento florístico do país é uma contribuição para gestores, cientistas e tomadores de decisão |
Foi literalmente voando que Janaina Gomes se encantou pela Botânica. Ela conta que sempre admirou a riqueza natural brasileira, por sua biodiversidade moldada por clima, relevo e história geológica que serve de palco para uma das mais diversas floras do mundo. “Foi esse cenário que me capturou para a ciência de forma quase poética: um sequestro feliz, do qual me recusei a querer me libertar". Ela explica que seus primeiros passos profissionais foram voltados à aviação. Durante anos pilotou aviões. Mas foi olhando pela janela de uma cabine, durante voos sobre o Pampa gaúcho, sua terra natal, que se viu fascinada pela paisagem abaixo, mais do que pelo painel de controle. “Aquela visão aérea despertou perguntas que seguem guiando minha pesquisa até hoje: o que explica tanta diversidade entre os biomas? Por que algumas espécies existem apenas em certas regiões? Como evoluíram? Que histórias o DNA e a morfologia das folhas e flores podem nos contar? Como contam a história evolutiva do planeta?" Por um tempo ela tentou conciliar as duas carreiras, mas a Ciência a arrebatou por completo.
Eimear Nic Lughadha, pesquisadora do Royal Botanic Gardens Kew, localizado a sudoeste de Londres, coautora do artigo, complementa: “Cada espécie perdida por extinção representa um custo de oportunidade (não sabemos o que perdemos), enquanto cada espécie descrita para a ciência representa um ativo de potencial importância para a bioeconomia emergente do Brasil”.
Para a também coautora do estudo, a pesquisadora do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) Rafaela Forzza, coordenadora dos projetos Reflora e Flora & Funga do Brasil e bolsista do programa "Cientista do Nosso Estado" da FAPERJ, é preciso mais investimento na ciência de catalogação da biodiversidade brasileira. "Muitos dos locais apontados pelo artigo, especialmente na Amazônia, são de difícil acesso e sem recursos para a realização de expedições de coleta não conseguiremos atingir 100% da catalogação. Além disso, a devastação anda mais rápido que a ciência, infelizmente. Precisamos urgentemente diminuir a perda de vegetação nativa em todo o território brasileiro", diz.
Em síntese, a pesquisa evidenciou um descompasso crítico entre o ritmo da descoberta de espécies e a velocidade da destruição de habitats, com implicações diretas para a ciência, o planejamento territorial e a formulação de políticas ambientais eficazes. “Ignorar essa lacuna é aceitar que muitas espécies desaparecerão silenciosamente, sem nunca terem sido vistas, nomeadas ou estudadas, um apagamento irreversível do nosso patrimônio natural e do conhecimento que poderia gerar”, alerta Janaina. As pesquisadoras defendem uma estratégia nacional coordenada para catalogar a diversidade vegetal, com foco na Amazônia, que inclua o financiamento contínuo à pesquisa, a formação e contratação de taxonomistas e o uso de tecnologias como drones e sensoriamento remoto para acessar áreas remotas.