Linguagem Libras Facebook Twitter Intagram YouTube Linkedin Site antigo
Compartilhar no FaceBook Tweetar Compartilhar no Linkedin Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Email Imprimir
Publicado em: 03/11/2022 | Atualizado em: 03/11/2022

Escrita e resistência: livro analisa autobiografias de negros escravizados

Débora Motta

A escrita como forma de resistência: Henry Box foi um escravo que fugiu dos EUA para a Inglaterra dentro de uma caixa; à dir., Phillis Wheatley, uma poeta que escrevia com o consentimento do seu senhor branco. Ambos relataram suas memórias em autobiografias e são citados na obra Flores de ébano

Relatos de vida surpreendentes, escritos em primeira pessoa por mulheres e homens negros que foram submetidos à condição de escravos, nos Estados Unidos, antes da abolição oficial da escravatura nesse país, em 1865. Esse é o tema do livro Flores de ébano – Escrita de si como prática de liberdade, da autora Alexandra Lima da Silva, professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Publicada com recursos do programa Apoio à Editoração, da FAPERJ, pela editora Kitabu – Livraria Negra, a obra apresenta uma cartografia das diversas autobiografias escritas por afrodescendentes escravizados, as trajetórias de vida dessas escritoras e escritores negros e a importância da literatura por eles produzida.

A obra reforça o papel da escrita, uma das mais autênticas formas de expressão da alma humana, como um instrumento poderoso de memória e resistência. “Alguns dos personagens escreveram em situação de fuga. Eram escravos fugidos que escreviam sobre suas vivências e vendiam os livros para poder comprar a sua alforria, o seu direito à liberdade. Frederick Douglass, por exemplo, foi um escritor afrodescendente que fugiu dos Estados Unidos para a Inglaterra, e lá conseguiu juntar dinheiro vendendo sua história sobre a experiência nos Estados Unidos como escravizado”, contou Alexandra.

Outros estavam no presídio e nunca conquistaram sua liberdade formal, e escreveram como último desejo de perpetuar suas histórias, antes de morrerem, como Nat Turner, escravo americano que liderou uma revolta de escravizados no Condado de Southampton, na Virgínia, em 1831, que resultou na morte de mais de 50 pessoas brancas e 200 negras. “Após a insurreição de 1831, o medo branco em relação aos perigos dos ‘escravizados letrados’ levou à criação de inúmeras leis proibitivas em relação à instrução de pessoas cativas, o que não impediu que muitas, em segredo e clandestinamente, continuassem a decifrar o caminho das letras por conta própria”, observou.

Alexandra visitou diversos acervos durante seu estágio pós-doutoral nos EUA e pesquisou sobretudo autobiografias de mulheres escravizadas (Fotos: Divulgação) 

Doutora em Educação e historiadora, ela terminou de escrever Flores de ébano em 2020, como desdobramento do programa Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ. A pesquisa foi realizada no ano anterior, quando percorreu pessoalmente bibliotecas e acervos nos Estados Unidos para estudar autobiografias de diversos afrodescendentes escravizados durante seu estágio pós-doutoral, realizado na Universidade de Illinois, com auxílio de uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), de Professor Visitante Júnior.

Alexandra contou que, nos Estados Unidos, esse gênero literário, conhecido como Slave Narratives, se popularizou como um nicho no mercado editorial. “Aqui no Brasil também tivemos a produção de autobiografias por afrodescendentes escravizados em outros suportes, principalmente, manuscritos, mas esse gênero não se difundiu, pois houve a proibição por parte da Coroa portuguesa de impressão de livros e, depois da Independência, não houve interesse do mercado editorial brasileiro em investir nesse tema”, contextualizou. “Temos hoje um movimento no Brasil de tradução de escritores desse gênero literário, que já ganharam mais de 30 edições lá nos Estados Unidos, como Harriet Jacobs e William Wells Brown”, acrescentou. 

Em Flores de ébano, ela dedicou seus esforços de pesquisa principalmente a nomes pouco conhecidos desse gênero literário nos Estados Unidos, com destaque para as mulheres afrodescendentes escravizadas que produziram suas autobiografias. “Tenho procurado enfatizar o feminino, pois quando se fala em intelectualidade negra, as mulheres são menos lembradas como protagonistas e escritoras”, refletiu.

Para destacar o protagonismo de mulheres negras, ela reservou o um capítulo do livro, intitulado "Escritoras da liberdade: mulheres negras, educação e ativismos".

“Temos a história real de Lily Granderson, que era cativa e arriscou sua própria vida para educar outras cativas, clandestinamente. Outra mulher notável foi Anna Julia Cooper, que viveu como escrava na infância e conseguiu ser uma das primeiras mulheres a ser aceita no Doutorado na Sorbonne, na década de 1920. Ela viveu 105 anos”, ressaltou.

Anna Julia Cooper, ex-escrava e escritora, vestida com a beca da sua formatura na Sorbonne: pioneira entre as mulheres negras a ingressar na tradicional instituição francesa

Ela enumerou, ainda, outras autoras negras mulheres destacadas em Flores de ébano. “Outros marcos importante nas autobiografias de ex-cativas foi o trabalho de Harriet Jacobs, autora de Life of a slave girl – written by herself; Louise Jacobs, filha de Harriet, que se tornou professora e fundou uma escola para pessoas negras livres em Alexandria, no estado da Virgina; e Louise Piquet, que foi concebida em um ato de violência sexual contra sua mãe, aos 15 anos, por um homem branco, um senhor de escravos”, completou.

A obra apresenta uma cartografia para orientar educadores e interessados em geral em mergulhar nesse universo de pesquisas sobre o tema. “O objetivo de Flores de ébano é ser semente, no sentido de ajudar a popularizar os caminhos para pesquisas em acervos sobre o tema, incluindo o acesso virtual à coleção North American Slave Narratives, da University of North Carolina at Chapell Hill, entre outros. Que esse livro seja usado como ferramenta didática em salas de aula e como material de pesquisa na área de Educação e que possa ajudar a restituir a mulheres e homens escravizados o direito à memória por meio das suas escritas, e a discutir temas como o racismo e a desigualdade social. Que esses autores sejam reconhecidos a partir do prisma da intelectualidade”, concluiu.

As pesquisas de Alexandra sobre o tema já resultaram na publicação de artigos em periódicos científicos relevantes, como o artigo intitulado Fragments of Myself: Autobiographical Writing as Freedom Practice in the Experience of an Afro-Latina Professor, na Women's Studies Quarterly (https://muse.jhu.edu/article/835953) e Pelas mãos de Eugênia: experiências de mulheres negras em uma família no Rio de Janeiro, na Revista Brasileira de História (https://www.scielo.br/j/rbh/a/p7Wcf3sWwFVZg5C3JZzPdKD/abstract/?lang=pt).

O livro acompanha uma exposição virtual interativa, que pode ser consultada no site https://floresdeebanoexposicao.com.br ou pela imagem em QR Code abaixo:

Topo da página