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Publicado em: 28/07/2022 | Atualizado em: 28/07/2022

Pesquisa conduzida na Uerj investiga os processos inflamatórios nas doenças crônicas

Paula Guatimosim

No Laboratório de Farmacologia Celular e Molecular da Uerj, a equipe de pesquisa busca investigar o microambiente inflamatório a fim de identificar potenciais alvos farmacológicos para o tratamento de doenças crônicas (Fotos: Ibrag/Uerj)

Com uma longa história em estudos sobre inflamação, o Laboratório de Farmacologia Celular e Molecular do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Ibrag/Uerj) vem se dedicando a investigar processos celulares e moleculares envolvidos na resposta inflamatória frente às doenças crônicas. O projeto “Alvos Moleculares e Terapêuticos no Microambiente Inflamatório em Doenças Crônicas”, coordenado pela pesquisadora Thereza Christina Barja Fidalgo, bolsista de produtividade 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e que conta com bolsa Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, é o mais recente estudo liderado pela farmacêutica-bioquímica no laboratório. A pesquisa parte do princípio de que a homeostase, palavra derivada dos termos gregos homeo (similar) e stasis (estático), que significa a condição de estabilidade para que o organismo realize suas funções adequadamente para o equilíbrio do corpo, depende da interação entre as respostas imune e metabólica. E é justamente seu desequilíbrio que leva ao surgimento de doenças, como o câncer, as cardiovasculares e a obesidade. 

De acordo com Thereza Christina, que coordena o grupo de pesquisa em Farmacologia Celular e Molecular da Uerj, essas doenças crônico-degenerativas têm em comum, como importante fator fisiopatológico, a presença de um microambiente inflamatório. Por isso, a compreensão dos processos celulares envolvidos, das moléculas chaves e de seus mecanismos de ação podem levar à descoberta de novos alvos moleculares para sua prevenção e tratamento. Sua equipe se dedica a estudar o papel de elementos que compõem esse microambiente, como as células imunes, a matriz extracelular, vesículas extracelulares (VEs) e mediadores solúveis, além das alterações funcionais e do metabolismo celular sobre o desenvolvimento dessas doenças, visando identificar potenciais alvos farmacológicos para o tratamento do câncer, da obesidade e da aterosclerose. 

Professora do Departamento de Biologia Celular da Uerj, ela esclarece que atualmente o conceito de inflamação se expandiu para além da sua associação a condições patológicas, e inclui o que é chamado de processo inflamatório “fisiológico”, como a que ocorre para a implantação do óvulo fecundado no útero, por exemplo. Neste caso, é criado um processo inflamatório controlado e capaz de se auto resolver, que facilitará a interação entre o embrião e o epitélio uterino, permitindo que a gravidez possa prosseguir. Contudo, a não-resolução de uma resposta inflamatória, que tenha como objetivo inicial a adaptação do organismo a um estímulo não fisiológico, juntamente com sua persistência, pode anteceder o estabelecimento de doenças crônico-degenerativas, como o câncer e a obesidade. 

Thereza Christina: A inflamação é uma resposta do organismo para se ‘defender’ de algum evento diferente do normal e que exige uma resposta resolutiva e, de preferência, regenerativa

Thereza Christina explica que são características da inflamação a presença de células da resposta imune do organismo, que migram para o local inflamado; a produção de mediadores inflamatórios, como as citocinas, que estiveram em evidência durante a pandemia da Covid-19, e outros mediadores químicos produzidos pelo organismo, em condições fisiológica ou patológica. “A inflamação é uma resposta do organismo para se ‘defender’ de algum evento diferente do normal e que exige uma resposta resolutiva e, de preferência, regenerativa. Nas doenças crônicas, a inflamação pode perdurar, pois o organismo não consegue combatê-la, seja porque está sendo ‘enganado’, como no caso do câncer, ou devido a um estímulo permanente, como na obesidade”, explica. 

Segundo a pesquisadora, na obesidade, condição do indivíduo que possui Índice de Massa Corporal (razão entre o peso e o quadrado da altura) acima de 30, o acúmulo de gordura nas células do tecido adiposo leva à produção de uma resposta inflamatória sistêmica de baixo grau, persistente, que contribui para as graves alterações metabólicas,  características da obesidade, doença que hoje acomete 20% da população adulta brasileira. No câncer, há uma resposta diferente, onde as células tumorais, através de mediadores liberados local e sistemicamente, conseguem “educar” as células do sistema imune, que passam a responder de forma pró-tumoral. Suas pesquisas buscam justamente estudar as células inflamatórias que estão presentes nesse microambiente obeso ou tumoral. “Porque se soubermos como essas doenças se mantêm ativas devido à presença de elementos pró-inflamatórios, podemos tentar interferir terapeuticamente”, justifica Thereza. 

De acordo com a pesquisadora, uma parceria entre o Laboratório de Farmacologia Celular e Molecular e os cirurgiões bariátricos do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe/Uerj) contribui para o desenvolvimento de um dos modelos que vêm sendo estudados na obesidade. Os médicos, com autorização dos pacientes, fornecem uma pequena amostra do tecido adiposo retirado durante a cirurgia para que os pesquisadores possam identificar os elementos contidos nesse tecido e como eles respondem a alguns estímulos.  No caso do câncer, há modelos in vitro, no qual são estudadas as células do sistema imune, as células brancas do sangue (que migram para o local do tumor) para verificação do seu comportamento. “Nós mimetizamos in vitro o que pode ocorrer in vivo, ou seja, como ocorre o contato da célula tumoral com as células do sistema imune; o que cada uma delas pode produzir/liberar; quais as alterações das funções dessas células e como podemos modificar essa resposta”, esclarece. 

Com base em estudos anteriores, a equipe procura caracterizar e isolar as vesículas extracelulares liberadas pelo tecido adiposo de indivíduos obesos. Essas microvesículas transportam componentes das células-mães (que as liberam) e, através da circulação sanguínea, podem “entregá-los” em outros locais do organismo, atuando como um eficiente meio de comunicação entre as células. Quando as células do sistema imune recebem alguns dos componentes dessas microvesículas, ocorrem mudanças no seu perfil funcional, tornando-as mais ativas para migrar para o tecido adiposo obeso, aumentando o quadro inflamatório local. “Como sabemos que a obesidade é um fator favorável ao desenvolvimento de alguns tipos de câncer, como o de mama, por exemplo, procuramos saber como essas microvesículas liberadas do tecido adiposo do indivíduo obeso podem interferir na célula do câncer de mama. In vitro, já observamos que uma célula tumoral de câncer de mama, ao receber moléculas contidas nessas microvesículas se tornam mais migratórias, aumentando sua capacidade de produzir metástases e aumentar sua malignidade, por exemplo”, relata Thereza. 

Outra linha de pesquisa em curso busca investigar o quanto as microvesículas liberadas pelo tecido adiposo obeso podem interferir no remodelamento ósseo, ou seja, no processo natural e contínuo de restauração do osso envelhecido e/ou danificado por um tecido novo. Nesse caso, também é verificado se o microambiente inflamatório decorrente da obesidade interfere no processo. 

Thereza Christina diz que, em colaboração com a nutricionista Simone Vargas, que também integra o Departamento de Biologia Celular da Universidade, vem desenvolvendo modelos de obesidade em animais. Na pesquisa, é oferecida aos animais uma alimentação muito rica em lipídios, que os torna obesos, suplementada, ou não, com óleo de sementes de chia (Salvia hispânica), planta nativa do centro e sul do México, muito cultivada nos altiplanos andinos e cujas sementes são ricas em ômega-3. “Observamos que essa suplementação, mesmo conjugada a dieta obesa, melhora o quadro metabólico do animal, que embora não emagreça, experimenta uma impressionante melhora metabólica, como a maior sensibilidade à insulina, o que é favorável para o obeso”, explica a pesquisadora. 

A pesquisadora acredita que o fato ter permanecido na Uerj, mesmo quando a Universidade ainda não tinha grande tradição em pesquisa, foi um diferencial que reverteu em um ganho profissional

Segundo Thereza, este e outros estudos só foram possíveis devido à interação com pesquisadoras do Instituto de Nutrição da Uerj, nos quais também foi evidenciado que a suplementação com o óleo de chia aos animais obesos modificou as características e a morfologia do tecido adiposo subcutâneo, que assumiu atributos de tecido adiposo marrom (mais saudável). As colaborações também incluem ex-alunos, hoje pesquisadores em outras instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal Fluminense (UFF), no estudo das interferências das microvesículas de células tumorais em demais células do sistema imune, considerando a inflamação como um componente dessas doenças crônicas. 

“Nosso objetivo principal é estudar esses processos e suas interações para o desenvolvimento de alvos terapêuticos”, ressalta a pesquisadora, que este ano também passou a compor o quadro da Academia Brasileira de Ciências (ABC). “A entrada na ABC foi uma grande honra, ainda mais sabendo que na Uerj somos três mulheres ocupando cadeiras na Academia”.

Em sua opinião, o novo perfil do quadro de docentes pesquisadores da área Biomédica na Uerj, que procuram uma maior interação entre a pesquisa científica básica e a clínica, com destaque para a maior facilidade de acesso às atividades no Hospital Pedro Ernesto, está possibilitando um maior desenvolvimento da pesquisa translacional ética e de qualidade na universidade.

De acordo com ela, a FAPERJ tem tido um papel fundamental, favorecendo a colaboração intra e interinstitucional, o que é essencial para incrementar e dar maior visibilidade à pesquisa científica no Estado do Rio de Janeiro. Ao fazer um balanço de sua carreira, Thereza Christina acredita que sua descendência, ou seja, o destino dos alunos que formou, pode revelar a sua contribuição à Uerj. “Nada é mais importante na carreira de um cientista do que a oportunidade de oferecer uma boa formação científica aos seus alunos. Hoje, vejo que a opção que fiz em permanecer na Uerj, mesmo quando ela não tinha uma grande tradição em pesquisa, foi um diferencial que reverteu em um ganho profissional. Talvez, numa instituição que tivesse uma maior tradição em pesquisa acadêmico-científica, eu não tivesse tanta liberdade para investir nisso”, finaliza.

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