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Publicado em: 15/06/2022 | Atualizado em: 15/06/2022

Estudante de Letras da UFRJ vence prêmio internacional com pesquisa sobre protofeminismo

Paula Guatimosim

Nísia Floresta foi pioneira na educação feminista no Brasil Império e em seu colégio adotou um currículo progressista (Ilustração: Mulheres illustres do Brazil /dominio publico)

Foi pesquisando os exemplos de protofeminismo esquecidos ao longo da história que a estudante de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Yasmim Pontes, constatou a falta de visibilidade da literatura lésbica. Determinada a dar continuidade a sua investigação, a bolsista de Iniciação Científica da FAPERJ, sob a orientação da professora da Faculdade de Educação da UFRJ, Nastassja Pugliese, iniciou sua pesquisa sobre as raízes da emancipação feminina e da igualdade de gênero no Brasil do século XIX, a imprensa feminista e a filosofia da educação de Nísia Floresta, com a qual venceu a premiação.

“A Yasmim foi selecionada em um processo muito competitivo, cujo prêmio raramente é concedido às ciências humanas”, esclarece Nastassja. Para a orientadora, vários fatores contribuíram para a conquista do prêmio, em especial a qualidade e o volume da pesquisa de Yasmim sobre o tema e o fato de ela ser bolsista de iniciação científica da FAPERJ sob sua orientação. Outro fator importante foi a recente criação da Cátedra UNESCO para a História das Mulheres na UFRJ e a colaboração, através da atuação da sua coordenadora Nastassja Pugliese, com o projeto Extending New Narratives in the History of Philosophy. Coordenado pela professora Lisa Shapiro, da Simon Fraser University, o projeto é financiado pelo Social Sciences and Humanities Research Council, do Canadá, e conjuga 12 universidades parceiras. Nastassja é uma das pesquisadoras do projeto, que conta com outros 70 colaboradores, na missão promover o resgate das obras de filósofas e cientistas e realizar projetos de pesquisa para manutenção e valorização do legado intelectual, educacional e cultural de mulheres brasileiras.

“Esta premiação é tanto fruto do esforço pessoal da Yasmim quanto um resultado deste projeto institucional mais amplo que é a criação da Cátedra UNESCO para a História das Mulheres, visando a consolidação da pesquisa sobre filósofas brasileiras através da construção de parcerias internacionais”, esclarece Nastassja. O projeto tem como objetivo a produção da entrada Nísia Floresta para o Project VOX, base de dados mantida pela Biblioteca da Universidade de Duke, na Carolina do Norte (EUA), e por seu Departamento de Filosofia, sobre a obra de filósofas, conta Nastassja, que, com apoio do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ, se prepara para viajar à Simon Fraser University como professora visitante, para coordenar presencialmente o desenvolvimento desta pesquisa coletiva. Segundo ela, a pesquisa resultará em material didático bilíngue sobre Nísia Floresta, “referência para a filosofia da educação e uma figura fundamental na história do feminismo no Brasil”.

Intitulado ‘Fundamentos filosóficos do direito à educação: o cartesianismo prático de Nísia Floresta’, o projeto no qual Yasmim atua como bolsista de Iniciação Científica vem investigando a obra de Nísia Floresta e seus fundamentos filosóficos do direito à educação. Muito à frente de seu tempo, a filósofa, educadora, escritora, abolicionista, indigenista, Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885) acreditava no papel social das mulheres e no exercício de sua cidadania. Ela foi pioneira na educação feminista no País e como diretora de colégio no Brasil Império, adotou em seu currículo progressista a dança, música, aritmética, geografia, e línguas estrangeiras, além de ter defendido o direito à educação científica para mulheres. Apesar do importante trabalho realizado pela filósofa, Nísia integra um grande grupo de mulheres que acabaram sendo esquecidas ao longo da história.

O foco da pesquisa de Nastassja Pugliese (esq.) e Yasmim Pontes (dir.) são as obras de mulheres que foram esquecidas ao longo da história 

“Sempre tive interesse na área de estudo de gênero, mas foi após o evento online III Vozes: mulheres na história da filosofia (https://www.youtube.com/channel/UCVsZCXKEvVKk2Ch1DIfokaw), organizado pela minha orientadora e também apoiado pela Faperj por meio do Programa de apoio à organização de eventos, que comecei a me interessar pelo resgate das mulheres que publicaram, mas foram esquecidas”, explica Yasmim. Na Simon Fraser University ela espera aperfeiçoar sua pesquisa e, sobretudo, sua formação como aluna e cientista. “Aqui tenho uma biblioteca que me dá acesso a várias outras, o que é muito legal quando se trabalha como fontes primárias”, diz a pesquisadora. Yasmim relata que o que mais a tem impressionado em Vancouver é a relação da cidade com o meio ambiente. “É lindo aqui, há muitos parques e tudo é extremamente limpo. Também é muito boa a infraestrutura do campus universitário e o cuidado com a pesquisa”, conta Yasmim.

Quanto à escolha de Nísia Floresta, Yasmim explica que sua decisão ocorreu quando soube que Nisia fora a tradutora de um panfleto radical inglês, anônimo, do século XVIII (o panfleto Sophia), para Direitos das Mulheres e as Injustiças dos Homens. Considerado um marco fundador do feminismo no Brasil e na América Latina, o panfleto apresentava teses em defesa da educação científica das meninas. Nastassja destaca ainda que Nísia Floresta foi uma pioneira do pensamento político brasileiro, pois viveu ao longo do Brasil Império, defendendo não apenas os direitos das mulheres à educação, como o direito dos indígenas brasileiros à terra, e escrevendo uma das primeiras obras abolicionistas do país. “Não há pensadora melhor para se investigar quando falamos de protofeminismo no Brasil”, alega Nastassja, que também conta com apoio da FAPERJ, como o Auxilio ao Pesquisador Recém Contratado (ARC) e um Apoio à Pesquisa Básica (APQ1) para o desenvolvimento do seu projeto.  

A orientadora diz que Yasmim ganhará treinamento técnico em Humanidades Digitais e em pesquisas de fontes em arquivos, desenvolvendo mais a sua habilidade enquanto pesquisadora em ciências humanas. “O projeto no qual ela trabalhará desenvolve a interseção entre filosofia e novas tecnologias, o que torna este estágio uma experiência de pesquisa de ponta que poderá gerar frutos, através de exemplos do que é interessante fazer, para a academia brasileira”, alega. “Além disso, junto ao projeto Extending New Narratives ela ganhará muito conhecimento sobre a obra de mulheres filósofas e poderá voltar para o Brasil cheia de novas ideias e técnicas para pesquisas”, conclui Nastassja.

O Mitacs Globalink Research Award, iniciativa realizada pela organização canadense Mitacs, que desde 1999 reconhece projetos de relevância para a inovação industrial e social.  O prêmio oferece aos alunos selecionados de graduação, pós-graduação e pesquisadores de pós-doutorado uma bolsa de pesquisa de $ 6.000 para realizar um projeto de pesquisa com duração de 12 a 24 semanas no outro país, sob a supervisão conjunta de um professor do país de origem e um professor canadense.

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