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Publicado em: 10/09/2026 | Atualizado em: 10/09/2026

Pesquisa desenvolve terapia na busca pela cura definitiva da hepatite B crônica

Cristiane Caruso e Débora Motta

Principal doença entre as que afetam o fígado, a hepatite B crônica não possui atualmente terapia que promova a remissão total do vírus no órgão, e exige um tratamento contínuo do paciente (Foto: Magnific)

Doença viral que afeta o fígado e pode passar despercebida por anos, a hepatite B é um problema internacional de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1,5 milhão de novos casos da doença são notificados anualmente em todo o mundo. Estima-se que dois bilhões de pessoas no planeta estão infectadas com hepatite B, sendo que 296 milhões possuem a forma crônica da doença. O tratamento inclui o uso de medicamentos orais antivirais, que controlam a infecção, com o objetivo de evitar a progressão da doença nos casos crônicos, e a possibilidade dela evoluir para casos de cirrose ou de câncer no fígado. No entanto, as terapias atualmente disponíveis para a hepatite B crônica não promovem a remissão total do vírus no fígado, e requerem o uso contínuo do medicamento pelo paciente e a realização de exames por toda a vida. Vale lembrar que a principal forma de prevenção da infecção pelo vírus da hepatite B é a vacina, que está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), de forma universal, desde 2016. 

Nesse cenário, a bióloga Giovana Angelice, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que participa do Programa de Mobilidade Internacional – Doutorado Sanduíche Nota 10 da FAPERJ, na Bélgica, investiga o desenvolvimento de um tratamento inovador e definitivo para a hepatite B, com base no mecanismo do RNA de interferência (RNAi), capaz de bloquear de vez a replicação do vírus dentro das células. Trata-se de um mecanismo celular natural que silencia genes específicos, ao destruir ou bloquear o seu RNA mensageiro (mRNA), impedindo a produção de proteínas.

“A longo prazo, o desenvolvimento de uma terapia nacional baseada em RNAi abre caminho para a criação, no futuro, de um fármaco brasileiro inovador. Isso reduziria a dependência de tecnologia estrangeira, baratearia os custos de saúde para o estado e, o mais importante, ofereceria uma perspectiva de tratamento mais eficaz e acessível para a população fluminense”, explicou Giovana, que é mestre em Biologia celular e molecular pela Fiocruz, onde integra a equipe do Laboratório de Referência em Hepatites Virais do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), e desenvolve a pesquisa sob orientação do professor Francisco Campello do Amaral Mello.

Giovana Angelice: pesquisadora participa, na Bélgica, de estudo sobre o papel do RNA de interferência para bloquear a replicação do vírus da hepatite B  (Foto: Divulgação) 

De acordo com a pesquisadora, o edital de Mobilidade Internacional da FAPERJ permitiu estabelecer uma importante parceria com o grupo do professor Kai Dallmeier, na Universidade Católica de Leuven (Katholieke Universiteit Leuven), na Bélgica. Essa colaboração estratégica possibilitou, para Giovana, o acesso a um modelo animal inovador desenvolvido pela equipe belga, que reproduz a infecção humana e é essencial para validar a eficácia da terapia desenvolvida pela doutoranda. “As agências de fomento são a espinha dorsal do desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil. Diferente de outros países, a ciência brasileira e fluminense é financiada quase em sua totalidade pelo investimento público. Sem esse apoio, a pesquisa e a inovação não existiriam. Trabalhar em outro país amplia nossa visão de mundo, estimula a criatividade, fortalece a capacidade de resolver problemas e proporciona o aprendizado de um novo idioma, competências indispensáveis para a formação de um pesquisador”, ponderou.

O estudo teve como desdobramento a publicação de um artigo na revista científica internacional International Journal of Molecular Sciences – MDPI, intitulado Evaluation of Interfering RNA Efficacy in Treating Hepatitis B: Is It Promising?.   

Impactos da hepatite B no estado do Rio de Janeiro

Carlos Terra: médico hepatologista, ele ressalta que a evolução da hepatite B crônica no fígado do paciente muitas vezes é silenciosa (Foto: Divulgação)

No estado do Rio de Janeiro, foram registrados 754 casos de janeiro a dezembro de 2025, e 352 casos em 2026, de janeiro a agosto, totalizando 1.106 casos nos dois períodos, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES). A Região Metropolitana I (Rio e adjacências) teve mais notificações, com 449 notificações de casos de hepatite B em 2025, e 192 em 2026. Já a Região Metropolitana II (Niterói e adjacências), teve 77 casos em 2025, e 50 neste ano.

O médico hepatologista Carlos Antonio Rodrigues Terra Filho, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destacou a necessidade de distinguir os casos de hepatite B agudos e crônicos. “Para que o gestor em saúde pública possa mensurar melhor os impactos da doença, precisaríamos diferenciar as notificações dos casos de hepatite B aguda, que têm impacto bem menor, dos casos de hepatite B crônica. Uma vez contraído o vírus, a pessoa pode ter uma infecção aguda e o próprio organismo encontrar a cura espontaneamente, sem um transtorno maior para o sistema de saúde. Mas, em 5% a 10% dos pacientes com hepatite aguda, o vírus permanece no corpo, com potencial para causar inflamação crônica, para a deposição de fibroses (cicatrizes) que se convertem em cirrose, podendo até evoluir após alguns anos para o câncer de fígado, de forma silenciosa”, detalhou.

Principal causa entre as doenças do fígado, a hepatite B é transmitida por agentes patogênicos encontrados no sangue, por contato sexual ou durante a gestação, da mãe ao bebê. Após um período de incubação de 90 dias, as manifestações clínicas da doença podem ser assintomáticas ou mesmo se tornarem uma hepatite fulminante, dependendo da resposta do sistema imunológico do paciente.

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