Marcos Patricio
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| Objetivo do projeto é avaliar a capacidade de resiliência e de resposta do Sistema Único de Saúde diante do aumento súbido de casos de síndromes respiratórias causado por eventos climáticos extremos (Foto: Magnific) |
Como fazer para que uma estrutura enorme e complexa como o Sistema Único de Saúde (SUS), desenhada para atender a milhões de pessoas em todo o Brasil, não entre em colapso em um cenário de aumento repentino e agudo de casos de síndromes respiratórias gerado por eventos climáticos intensos? Um projeto desenvolvido no Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), busca compreender como o SUS reagiria a uma situação como essa.
O projeto “Estrutura de Avaliação da Resiliência Sistêmica – O SUS sob a pressão das mudanças climáticas e o aumento das síndromes respiratórias” propõe o desenvolvimento de um modelo multidimensional de avaliação da resiliência do SUS, fundamentado em Análise de Decisão Multicritério (MCDA), para apoiar a tomada de decisão na gestão pública. O trabalho é o tema da tese de doutorado da pesquisadora Paloma Palmieri Alves, no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS), do Icict/Fiocruz.
Bolsista do Programa de Excelência Acadêmica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/Proex), Paloma é orientada pelo professor Marcel Pedroso. Coordenador da Plataforma de Ciência de Dados aplicada à Saúde (PCDaS) do Icict/Fiocruz, o pesquisador é apoiado pelo programa Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ. Paloma é coorientada pelo professor Alessandro Jatobá, coordenador do Laboratório de Tecnologia, Informação e Resiliência em Saúde Pública (ResiliSUS), coordenador adjunto do Centro de Estudos Estratégicos (CEE) da Fiocruz, e também Jovem Cientista do Nosso Estado.
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| Paloma Palmieri: para a autora do projeto, a iniciativa busca integrar grandes volumes de dados para criar indicadores que permitam aos gestores identificar vulnerabilidades antes que uma crise se instale (Foto: Acervo pessoal) |
“A motivação central desta pesquisa consiste na compreensão de como o SUS apresenta capacidade de resiliência e responde ao aumento súbito e crônico de demanda gerado por eventos climáticos extremos, como queimadas e aumento da poluição. Ela advém da necessidade de entender não apenas como o SUS sobrevive a esses 'choques’, mas sua capacidade de adaptação, aprendizado e de fortalecimento frente a estes”, explica Paloma, pesquisadora do ResiliSUS/Fiocruz.
O projeto foi desenvolvido dentro da linha de pesquisa “Informação para Análise, Vigilância, Monitoramento e Avaliação em Saúde”, uma das três linhas mantidas pelo PPGICS. “Essa linha de pesquisa dedica-se à análise de políticas, produção, organização e uso da informação para análise, vigilância, monitoramento e avaliação de sistemas de saúde, da situação de saúde da população brasileira e de seus determinantes sociais e ambientais”, explica Marcel Pedroso, doutor em Administração Pública pela Universidade de Brasília (UnB).
A expectativa é que o estudo produza um índice de resiliência aplicável ao SUS; evidências sobre vulnerabilidades regionais; ferramentas para antecipação de crises sanitárias; e subsídios para formulação de políticas públicas. “O impacto esperado é o fortalecimento da capacidade de resposta do SUS, contribuindo para um sistema mais eficiente, equitativo e preparado para enfrentar desafios futuros”, adianta Paloma, graduada em Estatística e mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Regulamentado em 1990, o SUS é uma das maiores estruturas públicas de saúde do mundo, composta por unidades como postos de saúde, clínicas da família, farmácias, laboratórios, hospitais e UTIs. Conta também com serviços de diferentes níveis de complexidade, como exames, consultas, distribuição de medicamentos, internações, cirurgias e transplantes. Gerenciado de modo descentralizado e compartilhado pela União, estados e municípios, esse arcabouço precisa funcionar de forma integrada e harmônica para não comprometer o atendimento aos usuários.
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| De acordo com o coordenador da Plataforma de Ciência de Dados Aplicada à Saúde, Marcel Pedroso, o projeto integra uma linha de pesquisa voltada à análise de políticas e à avaliação da situação de saúde da população brasileira, entre outros aspectos (Foto: Raquel Portugal/Multimeios/Icict/Fiocruz) |
O SUS norteia as atividades do PPGICS. “Isso decorre tanto da própria inserção do Programa na Fiocruz e no Icict quanto da trajetória acadêmica que construímos ao longo dos anos. Grande parte das nossas pesquisas nasce de problemas concretos da saúde pública brasileira: a gestão da informação, a comunicação em saúde, a circulação de evidências, a vigilância, a avaliação de políticas, os desafios da ciência aberta e o uso de dados para apoiar a tomada de decisão. No PPGICS, o SUS não é tratado apenas como um campo de aplicação posterior ao conhecimento produzido. Ele está presente desde a formulação dos problemas de pesquisa”, explica Marcio Sacramento de Oliveira, coordenador do Programa. Aprovado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em 2008, o PPGICS obteve nota 7 na avaliação da Capes de 2021-2024.
O projeto conduzido por Paloma se propõe a avaliar todos os estados e o Distrito Federal e utiliza uma base integrada de indicadores provenientes de múltiplos sistemas nacionais e de dados relacionados a meio ambiente. Inclui sistemas como o de Informações Hospitalares (SIH), o de Informação sobre Mortalidade (SIM), o de Informações Sobre Orçamentos Públicos em Saúde (SIOPS) e o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), entre outros. Além de bases ambientais e climáticas fornecidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Os indicadores reúnem também dados socioeconômicos produzidos pelo IBGE e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Os números contemplam aproximadamente uma década de informações e cobrem dimensões essenciais da resiliência. “Trata-se de uma agenda extremamente atual, pois combina saúde, ambiente, desigualdades regionais, capacidade de resposta do sistema e uso estratégico de dados”, destaca Sacramento, doutor em Saúde Pública e Meio Ambiente pela Fiocruz.
Para o coordenador do PPGICS, o objetivo do projeto não é apenas produzir um diagnóstico acadêmico, mas transformar dados dispersos e heterogêneos em indicadores capazes de apoiar a gestão pública. “Esse tipo de pesquisa mostra por que a informação em saúde é uma infraestrutura estratégica para o SUS. Dados, quando qualificados e interpretados, ajudam a antecipar vulnerabilidades, reconhecer desigualdades, orientar prioridades e melhorar a capacidade de resposta diante de crises sanitárias, ambientais e sociais”, afirma.
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| Marcio Sacramento: na avaliação do coordenador do PPGICS, o trabalho mostra que a informação em saúde é uma infraestrutura estratégica para o SUS. Segundo ele, a qualificação e interpretação dos dados ajudam a orientar prioridades e a melhorar a capacidade de resposta do Sistema (Foto: Raquel Portugal/Multimeios/Icict/Fiocruz) |
O estudo inova ao fazer uma integração inédita entre dados de saúde e dados climáticos, métodos estatísticos e ciência de dados, e modelagem multicritério aplicada à gestão do SUS. “O projeto propõe uma estrutura abrangente para avaliar a resiliência do SUS. O diferencial da pesquisa é a integração de grandes volumes de dados para criar indicadores que permitam aos gestores identificar vulnerabilidades antes que uma crise se agrave”, esclarece Paloma.
O processamento estruturado e massivo de fontes tão complexas e heterogêneas no projeto só é viável graças à Plataforma de Ciência de Dados aplicada à Saúde (PCDaS) do Icict/Fiocruz. A estrutura permite o processamento de um amplo conjunto de dados heterogêneos, a integração de múltiplas bases em escala nacional e a execução de análises de forma eficiente. O seu uso viabiliza não apenas o cálculo do “índice de resiliência” atual, mas também a possibilidade de rodar simulações preditivas. Isso mostra que a Ciência de Dados é uma ferramenta prática de gestão, que propicia a antecipação de eventos adversos e o fortalecimento da capacidade adaptativa do SUS diante de uma crise climática.
“A importância da PCDaS reside no fato de ser um ecossistema que preenche uma lacuna tecnológica entre as diversas fontes de dados de saúde pública brasileira — muitas vezes, em formatos legados e não padronizados — e as necessidades modernas de análise de dados para benefício do SUS”, explica Marcel Pedroso, coordenador da Plataforma. “A PCDaS é considerada o primeiro ecossistema de dados especializado em saúde pública no Brasil. A aquisição das primeiras máquinas da Plataforma teve o auxílio do edital Apoio às Instituições de Ensino e Pesquisa Sediadas no Estado do Rio de Janeiro – 2014 da FAPERJ”, recorda Pedroso.
Ao transformar dados complexos em informação estratégica para gestão, o projeto pretende contribuir diretamente para a melhoria dos serviços de saúde. “Em um país marcado por desigualdades territoriais, sociais, econômicas, raciais, ambientais e informacionais, não é possível pensar a saúde pública sem discutir quem produz dados, como são organizados, quais evidências chegam aos gestores, que informações circulam entre os diferentes grupos sociais e como a comunicação interfere na relação entre ciência, Estado e sociedade”, conclui Marcio Sacramento.