Paula Guatimosim
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| Pesquisa destaca que a realização da Copa feminina no Brasil é uma oportunidade de ampliar a participação das mulheres nos espaços de liderança e que o planejamento para o megaevento deve envolver a participação da população local, o poder público e a iniciativa privada (Foto: NPTU) |
Em pleno clima de final da Copa do Mundo, torcidas e seleções aguardam a grande decisão entre Espanha e Argentina, no próximo domingo, 19 de julho. Em 2027, será a vez das mulheres entrarem em campo. Serão 32 seleções participando da Copa do Mundo Feminina da FIFA em oito estádios no País, nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Recife e Fortaleza. Entretanto, a pesquisa revela que mais de 50% dos entrevistados não sabiam da realização do megaevento no Brasil em 2027.
“Mais do que movimentar a economia e o turismo, a competição é uma oportunidade de fortalecer o futebol feminino, ampliar a participação das mulheres no esporte e consolidar legados sociais capazes de ultrapassar os limites dos estádios”, avalia Paola Lohmann, professora do Programa de Pós-graduação em Administração da Afya Unigranrio e coordenadora da pesquisa e do Núcleo de Pesquisa em Turismo (NPTU). Segundo ela, ouvir a população neste período pré-evento é fundamental para construir estratégias mais conectadas à realidade local, ampliar a participação social, fortalecer o legado do evento e identificar oportunidades de atuação para o poder público e a iniciativa privada.
“É possível notar que a Copa representa uma oportunidade histórica para acelerar a valorização do futebol feminino no Brasil e ampliar a participação de mulheres em espaços de liderança, empreendedorismo, turismo, saúde e esporte” afirma a pesquisadora, que conta com recursos do Programa de Apoio às Cientistas Mães com Vínculo em Instituições de Ciência e Tecnologia Sediadas no Estado do Rio de Janeiro para desenvolver seu estudo. Mas ela alerta que o curto espaço de tempo para o evento exige uma interação maior entre diferentes atores e um direcionamento mais ágil e concreto, a fim de se estruturar estratégias, mitigar riscos e maximizar oportunidades.
Segundo Paola, os dados da pesquisa revelam que a Copa do Mundo Feminina de Futebol parte de um cenário favorável de aceitação social. Dentre os 407 entrevistados, 79,4% consideram positiva a realização do evento no Brasil. Entre os benefícios mais esperados pela população estão a maior visibilidade e valorização do futebol feminino; a geração de empregos e renda; o aumento do fluxo de turistas, os impactos econômicos positivos; os avanços em inclusão, igualdade e representatividade; o incentivo à prática esportiva; e os legados para infraestrutura urbana.
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| Dados do estudo revelam que a Copa parte de um cenário favorável de aceitação social e, entre os benefícios mais esperados pela população, estão a maior visibilidade e a valorização do futebol feminino e a geração de emprego e renda (Foto: NPTU) |
"Os resultados indicam que o megaevento é percebido pelos respondentes não apenas como um evento esportivo, mas como uma oportunidade de transformação social, cultural e econômica, e a valorização do futebol feminino aparece como o principal legado esperado pela população, superando inclusive as expectativas relacionadas aos impactos econômicos do evento”, reforça Paola.
As principais preocupações apontadas pelos entrevistados estão relacionadas à gestão dos recursos públicos; gastos excessivos e corrupção; falta de segurança pública; aumento de preços; infraestrutura insuficiente; dificuldades de mobilidade urbana; possíveis manifestações de preconceito e machismo. Ou seja, os resultados mostram que a maior desconfiança não está relacionada ao evento em si, mas à capacidade de gestão dos recursos públicos, refletindo uma preocupação recorrente observada em outros megaeventos realizados no País. Um aspecto que chama atenção na pesquisa é que a população demonstra confiança na realização da Copa, mas mantém um olhar crítico sobre sua gestão.
Interessante notar que 53% dos entrevistados declaram interesse alto ou muito alto por esportes. Por outro lado, 54,8% dos entrevistados não acompanham o futebol feminino, sendo muitos por falta de interesse. E ainda existe um percentual significativo, 53%, que não sabe que o megaevento será realizado no Brasil. Mas, quando sabem que o evento será no País, 83,1% declaram que pretendem assistir à Copa Feminina de alguma maneira. Neste sentido, a Copa 2027 pode ser o gatilho para converter o interesse latente em esporte por engajamento efetivo com o futebol feminino. E, para tanto, a comunicação sobre o megaevento precisa ser massificada, com linguagem acessível e presença nos meios de comunicação de massa.
Os dados revelam que, na percepção dos moradores, o sucesso do evento dependerá menos da competição em si e mais da capacidade de planejamento, transparência e gestão eficiente dos recursos e das ações das instituições envolvidas. Ana Kazz, doutoranda da PUC, reforça que "a pesquisa converge com outros achados inéditos sobre preocupação com a garantia de um legado positivo, desconfiança dos responsáveis por gerir esse legado e uma tensão entre vontade de conhecer o novo e desinteresse pelo feminino no futebol".
Há um ceticismo em relação à capacidade da Copa de promover melhorias duradouras em áreas estruturais como segurança pública e mobilidade urbana. Por outro lado, pode-se observar que os impactos esperados vão além do esporte, abrangendo o fortalecimento do turismo, a geração de oportunidades para mulheres empreendedoras e a ampliação da visibilidade internacional dos destinos brasileiros.
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| Paola Lohmann: segundo a pesquisadora da Afya Unigranrio, o megaevento é percebido não apenas como um evento esportivo, mas como uma oportunidade de transformação social, cultural e econômica (Foto: Divulgação) |
Quando questionados sobre os legados permanentes da Copa Feminina, os entrevistados demonstraram maior confiança nos impactos positivos para o turismo e para o esporte. A população acredita que o evento contribuirá para a divulgação da atividade turística; o aumento do número de visitantes; ganhos econômicos; e fortalecimento do esporte.
“A pesquisa demonstra que turismo e esporte concentram as maiores expectativas de benefícios duradouros, reforçando a importância de estratégias que conectem o megaevento ao desenvolvimento dos destinos turísticos”, diz Paola.
O interesse em assistir às partidas presencialmente nos estádios também aparece abaixo do esperado, indicando uma distância entre a percepção positiva sobre a competição e o engajamento efetivo da população. Para Kaarina Virkki, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Administração da Afya Unigranrio e pesquisadora do NPTU, integrante do estudo, esse resultado sinaliza um importante desafio para o período pré-evento. “Um dos aspectos que mais chamou a atenção foi a baixa expectativa dos entrevistados em viajar durante a Copa e, também, em assistir aos jogos nos estádios. Isso demonstra que, embora exista uma percepção positiva sobre o evento, ainda há espaço para fortalecer o interesse e o envolvimento direto da população com a competição”, destaca.
A pesquisa ouviu 407 moradores da cidade do Rio de Janeiro e Região Metropolitana, entre maio de 2025 e janeiro de 2026, por meio de entrevistas presenciais e online realizadas pela plataforma Survey Monkey. Ao todo, foram aplicadas 45 perguntas sobre nível de interesse por esportes, prática esportiva, turismo esportivo, nível de interesse pelo futebol feminino, intenção de viagem durante o megaevento, percepção de impactos, desafios e oportunidades do megaevento, experiência com Copa do Mundo e perfil do respondente. As pesquisadoras sugerem a ampliação do estudo para outras cidades-sede, permitindo construir um panorama nacional mais representativo sobre as expectativas e percepções em torno do megaevento no Brasil. O estudo, que contou com apoio da FAPERJ, pode ser acessado em https://nptu.com.br/chuteira-rosa/.