Cristiane Caruso e Paula Guatimosim
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| Doença inflamatória autoimune, a artrite reumatoide afeta principalmente as articulações periféricas (mãos e pés), provocando dor crônica, rigidez, edema articular, fadiga, limitação funcional e perda de independência (Foto: Portal Drauzio Varella) |
Pesquisadores do Laboratório de Nanorradiofarmácia do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), localizado na Cidade Universitária, Ilha do Fundão, desenvolveram um novo medicamento que promete tratar a artrite reumatoide com apenas duas aplicações por ano. Desenvolvido em parceria com o Instituto de Tecnologia de Fármacos da Fundação Oswaldo Cruz (Farmanguinhos/Fiocruz), em ensaios com animais, o medicamento não só combateu a inflamação como foi capaz de reconstituir a cartilagem danificada das articulações. O artigo foi publicado no European Journal of Nuclear Medicine, periódico referência em radiofármacos.
Segundo o pesquisador apoiado pela FAPERJ, Ralph Santos-Oliveira, coordenador do laboratório e presidente da Associação Brasileira de Radiofarmácia, tudo começou quando sua equipe identificou em um medicamento usado para câncer ósseo, uma ação antiinflamatória muito potente. Os pesquisadores, então, isolaram uma nanopartícula do fármaco e, há quatro anos, vêm testando em animais. Os resultados revelaram que a aplicação direta combate a inflamação, como também é capaz de regenerar a cartilagem das articulações afetadas pela doença.
“Como o medicamento existente é líquido, se fosse aplicado em sua forma original extravasaria nas articulações. Mas, na forma de nanofármaco, fica restrito à articulação, sem provocar nenhum efeito colateral”, explica Santos-Oliveira, que também coordena o Programa Redes de Pesquisa em Nanotecnologia no Estado do Rio de Janeiro da FAPERJ. Segundo ele, o efeito do medicamento é tão potente que controla os sintomas da doença por seis meses. Ou seja, o doente deixa de tomar até três medicamentos por dia para fazer apenas duas aplicações por ano. O pesquisador acrescenta que outra vantagem do tratamento é a rapidez no processo de avaliação dos resultados, já que a ação do nanofármaco é local.
A nanotecnologia está presente em muitos materiais, como tecidos especiais, catéteres, implantes, protetores solares, coberturas resistentes e muitos medicamentos. Ela utiliza materiais em escala atômica e de tamanhos nanométricos, ou seja, uma unidade de medida que corresponde a um milionésimo do metro. Na área de medicamentos, a nanotecnologia permite a redução da toxicidade dos fármacos e da dose efetiva recomendada, e torna o direcionamento mais eficaz dos princípios ativos dentro das células, pois, por serem minúsculos, são capazes de atingir alvos específicos.
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| Ralph Santos-Oliveira: segundo o pesquisador, o efeito potente do medicamento é capaz de controlar os sintomas da doença por seis meses. O doente deixa de tomar até três medicamentos por dia para fazer apenas duas aplicações por ano (Foto: Divulgação) |
De acordo com o bolsista da FAPERJ, o que se espera agora é o interesse da indústria farmacêutica em comercializar o medicamento, para que as etapas de testes in vivo e aprovação pela Anvisa sejam cumpridas. A conjuntura é favorável, já que os radiofármacos são uma prioridade na estrutura dos BRICS, grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, presidido pelo Brasil em 2025.
“O comprometimento da FAPERJ ao dar suporte a pesquisas nas mais diversas áreas vem contribuindo decisivamente para o desenvolvimento socioeconômico do estado. O apoio à ciência, tecnologia e inovação vai além de editais de fomento. É disseminar conhecimento, é formar capital humano, é criar competitividade, é gerar emprego”, definiu Caroline Alves, presidente da FAPERJ.
A artrite reumatóide é uma doença inflamatória autoimune, sistêmica, crônica, que afeta principalmente as articulações periféricas (mãos e pés), mas também pode ter manifestações extra-articulares, incluindo envolvimento pulmonar, cardiovascular, neurológico e impacto funcional importante. Entre os sintomas estão dor crônica, rigidez, edema articular, fadiga, limitação funcional e perda de independência. Sem diagnóstico e tratamento oportunos, pode levar à destruição articular, incapacidade laboral, redução de mobilidade e comprometimento da qualidade de vida, daí a necessidade do diagnóstico precoce.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2019 havia aproximadamente 18 milhões de pessoas vivendo com artrite reumatoide no mundo, dos quais, cerca de dois milhões de brasileiros. A doença atinge mais mulheres (70%) do que os homens, em geral, na faixa etária entre 30 e 40 anos e com incidência crescendo com a idade. Provoca inflamação e dor intensa nas articulações, inchaço e rigidez, principalmente nas mãos e pés, além de afetar o sistema imunológico, levando-o a atacar o revestimento das articulações (membrana sinovial) e cartilagem. Sem tratamento, pode causar deformidades e danos irreversíveis.
As projeções globais indicam um aumento expressivo da carga da doença nas próximas décadas. A previsão é de que, em 2050, mais de 30 milhões de pessoas poderão viver com artrite reumatoide no mundo, o que representaria aumento de aproximadamente 80% em relação a 2020. Esse crescimento é atribuído principalmente ao envelhecimento populacional, ao aumento absoluto da população mundial e à maior sobrevida de pessoas com doenças crônicas.