Cristiane Caruso e Paula Guatimosim
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| Um pequena quantidade de saliva, urina ou leite das vacas em contato com o reagente revela, em 5 minutos, a doença do animal ou a contaminação por antibiótico (Fotos: Divulgação) |
Doenças que acometem os bovinos, especialmente o rebanho leiteiro, causam prejuízos estimados em R$ 6 bilhões por ano para os pecuaristas brasileiros, de acordo com informações publicadas no www.embrapa.br/gado-de-leite. As perdas são decorrentes da queda na produção de leite, no descarte de leite com resíduos de antibióticos, custos de tratamentos e abate prematuro de animais.
O que pode mudar rapidamente este cenário é o avanço da pesquisa. Cientistas do Laboratório de Nanorradiofarmácia do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), localizado na Cidade Universitária, Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, desenvolveram um microchip diagnóstico capaz de detectar as principais doenças dos bovinos em apenas cinco minutos. Coordenado pelo pesquisador Ralph Santos-Oliveira, Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, o estudo integra o Programa Redes de Pesquisa em Nanotecnologia, criado pela Fundação em 2019.
O microchip é impresso em 3D em material transparente e ali são acrescidos reagentes específicos para diversas doenças do gado bovino. Com a ajuda da nanotecnologia, apenas algumas gotas da saliva ou urina do animal em contato com o reagente revelam em cinco minutos qual a enfermidade. Gotas de leite também podem acusar a presença de antibióticos no produto, que deve ser retirado imediatamente de circulação.
A mastite, uma inflamação da glândula mamária, é uma das principais doenças do gado leiteiro, respondendo por cerca de 70% das perdas, principalmente pela redução na produção de leite. Além disso, o leite de vacas tratadas com antibióticos não pode ser comercializado, gerando desperdício e queda de receita. Além da mastite, brucelose, tuberculose, diarréia, tristeza parasitária estão entre as enfermidades que podem ocorrer no rebanho.
Manter a sanidade do plantel de vacas leiteiras exige gastos e tempo. As fazendas contratam médicos veterinários, que fazem visitas periódicas para avaliar, entre outras coisas, a saúde dos animais. Em geral, exames de sangue são feitos para a detecção de doenças, sendo necessário enviar amostras para os laboratórios de análise, que darão a respostas em alguns dias.
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| Ralph Santos-Oliveira: segundo o pesquisador, o material já está disponível para empresas interessadas na comercialização. O próximo passo será fazer o mesmo microchip diagnóstico para detecção de doenças em equinos. |
“A grande vantagem dos microdispositivos para teste colorimétrico é que eles não dependem de profissional com especialização para utilizá-los e fornecem o resultado em tempo real, cerca de cinco minutos”, aponta Santos-Oliveira. O pesquisador explica que o pequeno dispositivo, similar a um kit teste de gravidez, é produzido em impressora 3D e os reagentes são adicionados de acordo com a doença que se quer investigar. Algumas gotas de saliva, urina ou leite – para o caso de detecção de resíduo de antibióticos no leite – são adicionadas ao microchip e a reação será positiva ou negativa para a doença em questão ou presença de resíduo de medicamento. Desta forma, o pecuarista reduz o tempo e o custo do diagnóstico, podendo tomar uma decisão de tratamento mais rápida e evitar prejuízos.
Segundo Santos-Oliveira, que submeteu o projeto ao Programa Agro do Futuro, da FAPERJ, o próximo passo será o registro da patente, mas o material já está disponível para empresas que estejam interessadas na comercialização. O laboratório do IEN também pretende fazer o mesmo microchip diagnóstico para detecção de doenças em eqüinos. De acordo com o pesquisador, qualquer empresa interessada poderá com baixo custo e rapidez atender ao mercado e solicitar a aprovação na Anvisa”, concluiu.
O Programa Agro do Futuro nasceu com o objetivo de apoiar projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação que fortaleçam o ecossistema de agritechs e foodtechs no estado, estimular a criação de novas empresas de base tecnológica, ampliar mercados e consolidar cadeias agroindustriais inteligentes. A proposta é promover a modernização da produção agrícola e da agroindústria, reduzir perdas, ampliar a segurança alimentar e impulsionar a inserção de produtos fluminenses em mercados mais exigentes e sofisticados.
Segundo a presidente da FAPERJ, Caroline Alves, a iniciativa reforça o papel da ciência no desenvolvimento econômico do estado. “O Rio de Janeiro tem enorme potencial para integrar inovação tecnológica ao setor agroalimentar. Queremos estimular soluções que aumentem a produtividade, fortaleçam cadeias produtivas e ampliem a competitividade do estado, sempre com foco na sustentabilidade e na geração de conhecimento e riqueza”, afirma.