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Publicado em: 28/05/2026 | Atualizado em: 28/05/2026

Museu de Imagens do Inconsciente celebra 80 anos da terapêutica de Nise da Silveira

Paula Guatimosim

A Dra. Nise da Silveira, ao centro, acompanhando uma aula dos ateliês terapêuticos ao ar livre. Experiência pioneira da médica revolucionou a psiquiatria brasileira e completa 80 anos (Fotos: Divulgação)

O Museu de Imagens do Inconsciente celebra, em 2026, os 80 anos dos ateliês terapêuticos criados pela Dra. Nise da Silveira, uma experiência pioneira que revolucionou a psiquiatria brasileira e consolidou o País como referência internacional em práticas humanizadas de saúde mental. O eixo central das comemorações será o fórum científico “A Emoção de Lidar – 80 anos da terapêutica segundo Nise da Silveira”, realizado com recursos da FAPERJ por meio do edital de Apoio a Eventos Científicos, e apoio da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente. A iniciativa resgata e atualiza uma das experiências mais transformadoras da história da saúde mental no Brasil, que articula ciência, clínica, arte, memória, museologia e direitos humanos.

O Grupo de Estudos do Museu, criado pela própria Nise da Silveira em 1968 e em funcionamento ininterrupto há quase seis décadas, ganha novo alcance em 2026, com 13 encontros híbridos (presenciais e online) reunindo pesquisadores, profissionais da saúde, estudantes e interessados em torno de reflexões sobre os impactos contemporâneos do pensamento da Dra. Nise. Os conteúdos estão alinhados diretamente aos temas hoje centrais para a pesquisa científica e para as políticas públicas: saúde mental, cuidado humanizado, interdisciplinaridade, memória institucional, produção de conhecimento e democratização do acesso à cultura e à ciência.

Além do fórum, o Museu participou ativamente da 24ª Semana Nacional de Museus, comemorada entre 18 e 24 de maio, que, este ano, adotou o tema “Museus: unindo um mundo dividido”, e que considera essas instituições como espaços fundamentais de escuta, diálogo, diversidade e construção coletiva de memória. Ao longo da semana, foram promovidas atividades gratuitas que aproximam o público do legado de Nise da Silveira por meio de oficinas, vivências práticas, rodas de conversa, exposições e do lançamento do documentário histórico “Um caminho para o infinito: Emygdio de Barros”, com texto e roteiro da própria Dra. Nise, que conta a trajetória de um dos principais artistas revelados pelos ateliês terapêuticos.

Tela assinada por Manoel Godin, um dos artistas revelados pelos ateliês criados por Nise da Silveira, em 1946: arte como alternativa terapêutica

Para o coordenador de projetos da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, Eurípedes Junior, é preciso fazer prosperar no meio acadêmico as pesquisas da Dra. Nise da Silveira, que partem do método de leitura das imagens. Segundo ele, a iniciativa neste sentido foi a edição do livro “Benedito” - título inspirado em frase da própria Dra. Nise, que  disse: "Quem será o Benedito que vai se interessar por esse livro?" A obra contou com a colaboração de cerca de 20 pesquisadores e é uma espécie de guia de leitura para os que desejam se aprofundar no estudo das imagens.  “Temos uma dificuldade enorme de disseminar as ideias da Dra. Nise”, alega Eurípedes. Uma das evidências dessa dificuldade é, por exemplo, o fato de que apenas este ano será lançado o primeiro livro em língua inglesa.

Os Ateliês

Criados em 1946, como alternativa aos métodos então predominantes na psiquiatria, como eletrochoques, isolamento e lobotomia, a Dra. Nise da Silveira criou a Seção de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico, desenvolvendo gradativamente 17 atividades diferentes. Através da arte e da livre expressão, os ateliês de pintura e modelagem apostavam na criatividade e na liberdade individuais como fatores fundamentais para o exercício da cidadania. Os ateliês terapêuticos representaram uma ruptura radical com a psiquiatria tradicional. Ao reconhecer, nas produções expressivas de seus pacientes, manifestações legítimas da vida psíquica, a Dra. Nise inaugurou uma abordagem revolucionária, baseada no afeto e na liberdade criadora. Esse trabalho pioneiro influenciou decisivamente a Reforma Psiquiátrica brasileira e antecipou movimentos internacionais de renovação psiquiátrica, consolidando o Brasil como referência mundial em práticas humanizadas no campo da saúde mental. 

Além da efeméride dos 80 anos dos ateliês terapêuticos, maio marca também o Dia Nacional da Luta Antimanicomial (18 de maio) e o aniversário de fundação do Museu de Imagens do Inconsciente (20 de maio). Quem visitar o Museu conhecerá o maior acervo do mundo dedicado à produção expressiva em contextos terapêuticos, com mais de 400 mil obras, entre telas, papéis, modelagens, textos e poemas, sendo 128 mil tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Ipham), um patrimônio único para pesquisa nas áreas de saúde mental, arte, psicologia, museologia e história da cultura brasileira. Mais do que uma efeméride, a programação reafirma a atualidade e a potência do legado de Nise da Silveira diante dos debates contemporâneos sobre saúde mental, inclusão, cuidado e direitos humanos.

Eurípedes Junior: para o coordenador de projetos da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, ainda existe dificuldade para disseminar as ideias da Dra. Nise da Silveira 

O fórum científico “A Emoção de Lidar – 80 anos da terapêutica segundo Nise da Silveira” será composto de 13 encontros híbridos, sempre às terças-feiras, das 11h às 12h30, reunindo pesquisadores, profissionais da saúde, estudantes e interessados em torno de reflexões sobre memória, clínica, arte, museologia e saúde mental. Segundo Eurípedes, o objetivo do fórum é “ampliar o diálogo com outros serviços e ressonâncias afins”. As próximas datas serão 9 e 23 de junho; 4 e 18 de agosto; 1º, 15 e 29 de setembro; 13 e 27 de outubro; 10 e 24 de novembro. A entrada é gratuita e o Museu Imagens do Inconsciente está localizado na Rua Ramiro Magalhães, 521 - Engenho de Dentro. Para participar do Fórum no formato online, basta acessar o canal do Museu no YouTube ou o Instagram: @museuimagensdoinconsciente. O Fórum será gravado e os vídeos estarão disponíveis.

“O objetivo principal do evento é difundir o método criado pela Dra. Nise, dentro de uma unidade de saúde pública. Hoje, vivemos numa sociedade com grande desequilíbrio entre o mundo externo e interno. A tecnologia disponível colocou o externo em evidência, e essa exposição exagerada vem gerando um adoecimento coletivo e um desequilíbrio social que desencadeou um processo de medicalização intensiva”, acredita Eurípedes Júnior.   

O Museu Imagens do Inconsciente mantém o legado da Dra. Nise até hoje, promovendo os ateliês terapêuticos de pintura, cerâmica, teatro, terapias corporais e oficinas de gênero, entre outros, para pessoas com transtornos mentais que frequentam o Sistema Único de Saúde (SUS) como usuários da saúde mental e são encaminhados para as práticas terapêuticas. Uma vez por mês, os ateliês também recebem o público interessado em participar das oficinas, já que a expressão artística deve estar ao alcance de toda a comunidade. O Museu recebe visitas de terça a sábado, das 10h às 16h, e agenda visitas guiadas também para grupos, mediante agendamento prévio. Duas exposições estão em cartaz no momento: “Ocupação Nise da Silveira” e “Riquezas do Mundo Interno”, que além das obras do Museu, reúne obras criadas em outros hospitais  psiquiátricos, baseada no livro "Do asilo ao museu - Nise da Silveira e as coleções da loucura", de autoria de Eurípedes Junior. Toda a documentação dos ateliês terapêuticos está sendo digitalizada e alguns livros icônicos, reeditados, como “Os cavalos de Octávio Ignácio”, o primeiro livro publicado de autoria de um paciente da Dra. Nise. 

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