Débora Motta, Marcos Patricio e Paula Guatimosim
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| Mesa de abertura do Congresso no Palácio Tiradentes: representantes do poder público, profissionais e produtores discutiram caminhos para apoiar o desenvolvimento da cadeia produtiva da uva, do vinho e do enoturismo em território fluminense (Foto: Marcos Patricio) |
A FAPERJ participou do III Congresso Desafios do Enoturismo no Estado do Rio de Janeiro realizado, dias 19 e 20 de maio, no Palácio Tiradentes, antiga sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). O evento reuniu produtores de uvas e de vinhos, pesquisadores, representantes dos poderes Executivo e Legislativo, além de técnicos e profissionais dos setores agrícola e de turismo para discutir as perspectivas do enoturismo e da vitivinicultura fluminense. Organizado pelo Departamento de Geografia e Meio Ambiente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), o encontro teve o apoio da FAPERJ.
A cerimônia de abertura do evento foi mediada pelo deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha, que destacou o crescimento da produção de vinhos no interior fluminense. “Era inacreditável, há duas décadas, que o estado do Rio de Janeiro pudesse chegar ao estágio que atingiu no plantio de uvas. O Rio de Janeiro está dando exemplo, gerando emprego, renda e desenvolvimento local”, afirmou o parlamentar, que é autor de um Projeto de Lei, em tramitação na Alerj, destinado a apoiar o desenvolvimento da cadeia produtiva da uva, do vinho e do enoturismo no estado.
Representando a Presidência da FAPERJ, o assessor da Diretoria de Tecnologia, Marcelo Corenza, ressaltou a importância dos editais lançados pela Fundação para induzir o desenvolvimento da vitivinicultura e apoiar a criação e estruturação de territórios fluminenses com o registro de Indicações Geográficas (IGs). “A FAPERJ vem lançando uma série de editais voltados ao fomento da cadeia agroprodutiva fluminense. Em 2021, fizemos um estudo e identificamos uma ausência de registros de Indicações Geográficas no estado, que são instrumentos importantes de valorização de produtos originários de territórios específicos, como é o queijo da Canastra, por exemplo. Então, em 2022, lançamos o primeiro edital Apoio a Indicações Geográficas, que teve dez projetos aprovados, entre eles o polo de moda íntima de Nova Friburgo. Em 2025, lançamos uma segunda edição deste edital, que teve 14 propostas de IGs aprovadas, sendo que duas dessas conseguiram obter o selo de IGs: a farinha de mandioca e o abacaxi de São Francisco de Itabapoana, no Norte fluminense”, contou Corenza.
O deputado Jair Bittencourt avaliou o potencial do enoturismo no interior do estado. “Há uma produção extraordinária no Rio de Janeiro, com grandes produtores, e uma estrutura sendo montada para receber turistas. O turismo no interior é um caminho natural para o desenvolvimento do estado, gerando renda para a agricultura familiar e fortalecendo toda a cadeia produtiva ligada ao campo”, afirmou.
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| Os assessores da Diretoria de Tecnologia da FAPERJ Guilherme Santos (esq.) e Marcelo Corenza representaram a Fundação e destacaram os impactos do edital Apoio a Indicações Geográficas para induzir o desenvolvimento regional (Fotos: Lécio Augusto Ramos) |
O congresso foi apoiado pelo edital Apoio à Organização de Eventos Científicos, Tecnológicos e de Inovação no Estado, da FAPERJ. “Nesta terceira edição do congresso, reunimos representantes do setor público, de associações de produtores, pesquisadores e profissionais da área para discutir ações e projetarmos as perspectivas de evolução do enoturismo no estado do Rio de Janeiro”, explicou a curadora do encontro, Geiza Rocha, pesquisadora do Departamento de Geografia da PUC-Rio.
Também participaram da cerimônia de abertura, o secretário estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Rio de Janeiro, Felipe da Costa Brasil; o diretor do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio, professor Glaucio José Marafon; a chefe-geral da Embrapa Agrobiologia, Cristhiane Oliveira da Graça Amancio; o vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado do Rio de Janeiro (Faerj) e superintendente-adjunto do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural-Rio (Senar-Rio), Mauricio Salles; o presidente da Associação dos Vitivinicultores da Serra do Rio de Janeiro (Aviva), Ideraldo Luiz Machado; e o coordenador de Desenvolvimento Regional da Secretaria de Desenvolvimento Regional do Interior, Pesca e Agricultura Familiar, Diogo Campos Versari; entre outros. Também estiveram presentes representantes das prefeituras de municípios produtores; da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro-Rio); da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Rio de Janeiro (Emater-Rio) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-RJ).
Na quarta-feira, 20 de maio, o deputado estadual e ex-secretário de Turismo do estado do Rio de Janeiro Gustavo Tutuca deu início ao segundo dia de evento. Ele traçou um panorama do turismo durante a pandemia, quando as medidas restritivas afetaram negativamente o setor, mas destacou a recuperação da atividade com o fim do isolamento e a volta das famílias ao turismo ao ar livre. Tutuca informou que o turismo internacional também vem batendo marcas expressivas de crescimento no estado, tendo alcançado a marca de 2,2 milhões em 2025. Para este ano, que já acumula 17% de aumento nos primeiros meses, a previsão é de que 2,5 milhões de turistas estrangeiros visitem o Rio de Janeiro. Gustavo Tutuca acredita que desenvolver novas e atrativas rotas do turismo no interior pode aumentar a permanência do turista estrangeiro no estado.
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| Uvas produzidas na Vinícola Arouca, de Areal: o município no Centro-Sul fluminense é conhecido como a capital da uva do estado do Rio de Janeiro e vem atraindo visitantes com o enoturismo (Foto: Vinícola Arouca/Divulgação) |
A diretora executiva da Diretoria de Suporte Operacional, Controladoria e Administração da agência de fomento do Estado, AgeRio, Fernanda Curdi, destacou que o enoturismo tem potencial de fortalecer toda a cadeia econômica regional. Em sua opinião, o turismo de experiência é uma vocação do Rio de Janeiro e o enoturismo abre novas oportunidades para diversas regiões do estado. “Para que essa atividade se expanda, o investimento é fundamental, e a AgeRio trabalha para ampliar e interiorizar o acesso ao crédito”, afirmou Fernanda, citando como exemplo o Fungetur, que concede crédito de até R$ 15 milhões.
Em seguida, o assessor da Diretoria de Tecnologia da FAPERJ, Guilherme Santos, falou das políticas de fomento da Fundação, a primeira entre as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) a criar editais para apoiar o Agro. Ele destacou o Programa de Estruturação e Consolidação de Indicações Geográficas, que qualifica e certifica produtos e/ou serviços de determinadas regiões, como o champagne francês, por exemplo, que só pode receber essa denominação se for produzido na região homônima. O assessor da FAPERJ destacou a parceria do Sebrae na identificação das potenciais IGs no estado, e acrescentou que o processo de certificação (atribuição do INPI) envolve muitas pesquisas. “Temos um potencial enorme para esse Agro de maior valor agregado”, afirmou. O resultado da segunda edição do programa foi divulgado este mês, no qual 16 projetos foram contemplados.
O casal Angélica e Leandro Caiafa Orçay, proprietários da Casa Caiafa, estão investindo em um novo projeto turístico na região serrana de Nova Friburgo (Três Picos), no Rio de Janeiro. Há quatro anos eles escolheram a região, que possui altitude (1350 metros) e temperatura adequadas à produção de vinho e azeite, duas de suas paixões. Os olivais ocupam quatro hectares e, em breve, ocuparão mais quatro. Já os vinhedos, cultivados em outros quatro hectares e com previsão de expansão de mais cinco ainda este ano, são compostos por uvas Syrah, Sauvignon Blanc, Malbec, Pinot Noir e Chardonnay, além de variedades italianas, entre elas a Sangiovese. Segundo Angélica, os testes já mostram um grande potencial para a produção de espumantes. Ela conta que, ao contrário da região de Areal, onde o produtor adota a poda invertida (ou poda dupla), uma técnica para alterar o ciclo da videira, em Nova Friburgo o casal faz a poda normal e produz vinho no inverno. O terroir decorrente da altitude, clima e solo é de uma uva com mais acidez e vinhos mais frutados.
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| Proprietários da Casa Caiafa, Angélica e Leandro Caiafa investem na produção de vinhos em Nova Friburgo, na Região Serrana (Foto: Paula Guatimosim) |
O presidente da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio de Janeiro (Emater-Rio), Marcelo Monteiro da Costa, destacou o papel das 72 unidades da Emater no estado. “O extensionista ouve e percebe os anseios de quem vive da terra”, ressaltou, acrescentando que além da experiência em observar a execução dos projetos no campo, a Emater também auxilia na elaboração de políticas públicas. Segundo dados da Associação dos Vitivinicultores da Serra do Rio de Janeiro (Aviva), atualmente há mais de 40 hectares de área plantada em Areal e municípios adjacentes, dezenas de vinícolas em formação e muitas já em produção. Mas, segundo o presidente da Emater, esse circuito das vinícolas colaborou para incrementar a produção de uvas de mesa pelos agricultores familiares da região, incluindo uma comunidade quilombola.
Para o coordenador de Agronegócio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) do Rio de Janeiro, Daniel Freitas, o estado tem uma grande oportunidade para desenvolver o enoturismo, agregando diversos atrativos como restaurantes, pousadas e as próprias vinícolas. Em sua opinião, a região Sul do Brasil continuará sendo o grande referencial na produção de vinhos no País, mas, o Rio de Janeiro pode conquistar uma boa fatia do mercado de vinhos finos, principalmente no comércio regional. “O vinho tem um grande potencial de mercado, principalmente quando aliado ao turismo de experiência”, aposta Freitas, lembrando que o Sebrae apoia outros circuitos similares, como o Circuito do Vale do Café, por exemplo. Freitas finalizou a mesa de abertura, mediada por Geiza Rocha, responsável pela comunicação institucional, relações estratégicas e apresentadora do programa semanal Rio em Foco, na TV Alerj. A jornalista também comanda o podcast O Rio é Di Vino, que vai ao ar toda quinta-feira com episódios sobre o universo da vitivinicultura.