Paula Guatimosim
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| A fotocatálise acelera o processo, aumenta o potencial das reações e ainda reduz o gasto de energia e a produção de resíduos (Fotos: Arquivo pessoal) |
Vanessa Nascimento nasceu em Casca, uma pequena cidade pertencente à região de Passo Fundo, no Planalto Central do Rio Grande do Sul, com cerca de nove mil habitantes, em sua maioria descendentes de imigrantes italianos. Ela lembra que desde criança se compadecia das dificuldades que os moradores do pequeno município enfrentavam para terem acesso a tratamento médico e fármacos. Seu sonho sempre foi ajudar a comunidade e a medicina parecia ser o caminho mais natural. Mas quando presenciou uma cirurgia em seu próprio pé, desistiu da ideia, passando a se interessar pela química, estimulada por um professor.
Ela se formou em Química Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria (2009), cursou mestrado e doutorado em Química na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com um período sanduíche na Universidade de Perugia (Itália). Fez estágio pós-doutoral na própria UFSC, sob orientação do professor Faruk Nome e, em seu primeiro concurso público, conquistou uma vaga de professora adjunta do Departamento de Química Orgânica da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ali, Vanessa lidera o grupo de pesquisa do laboratório SupraSelen, fundado por ela, onde comanda estudos pioneiros ligados à obtenção de moléculas e supramoléculas contendo selênio para as mais diversas aplicações (antioxidantes, anti-inflamatórios, catalisadores etc.). Mãe de dois meninos gêmeos de sete anos, sempre que pode, Vanessa leva os filhos para os eventos profissionais, o que, ela garante, já vem despertando nas crianças o interesse pela Química.
“Um dos motivos que contribuíram para que eu permanecesse no Rio de Janeiro foi o constante apoio da FAPERJ”, afirma Vanessa, que teve três projetos aprovados pelo programa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE), o primeiro em 2019, e, agora, concorre ao edital de Apoio à Jovem Cientista Mulher Dra. Tatiana Sampaio. A pesquisadora também foi uma das vencedoras do Prêmio FAPERJ de Pesquisa e Inovação, lançado em 2025, na categoria “Pesquisa de Impacto”.
Suas pesquisas são alinhadas aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) – plano de ação global estabelecido pela ONU em 2015 –, ao contemplar a redução de resíduos e o uso de matérias-primas renováveis e solventes mais seguros. As quinonas são compostos orgânicos presentes na natureza como a vitamina K. Já o selênio é um mineral essencial ao organismo, com ação antioxidante, anti-inflamatória, capaz de combater os radicais livres. “Nossa ideia foi juntar essas características biológicas das quinonas e do selênio para reduzir a toxidade dos fármacos e potencializar sua atividade”, explica Vanessa.
Segundo ela, por meio de parcerias e colaborações, como a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), sua equipe desenvolveu moléculas que, inicialmente, foram testadas no tratamento da tuberculose, uma doença grave com tratamento longo que, se não for executado de forma correta, pode levar o paciente à morte. Segundo a pesquisadora, os medicamentos desenvolvidos para o combate da tuberculose têm mais de 50 anos e, muitas vezes, não matam as bactérias porque, ao longo do tempo, o organismo já adquiriu resistência a eles. Por ser uma doença que, em geral, acomete a população de baixa renda, as indústrias não se interessam em desenvolver novos fármacos. É justamente para atender a essa necessidade que a equipe da pesquisadora desenvolveu novas moléculas para o tratamento mais rápido e eficaz da doença, trabalho que lhe rendeu o “PeerJ Award” em 2019, em um evento realizado em Perúgia, na Itália, que reuniu centenas de cientistas de mais de 40 universidades de diversos países.
Em um segundo momento de sua pesquisa, Vanessa e sua equipe organizaram uma quimioteca de compostos com essa combinação. Em colaboração com a UFF/campus Nova Friburgo, uma das classes de compostos foi testada no tratamento de câncer de boca, com excelentes respostas, e as moléculas com os melhores resultados já estão sendo testadas in vivo. Segundo a pesquisadora, não existem fármacos específicos para o câncer de boca, que possui uma tendência de aumentar devido ao excesso do uso dos cigarros eletrônicos (ou vapes). Em reportagem da revista Translational Cancer Research, uma revisão bibliográfica considerou quase uma centena de artigos sobre o “potencial carcinogênico oral dos cigarros eletrônicos”. O estudo indica que análises químicas de cigarros eletrônicos mostraram a presença de compostos orgânicos voláteis com potencial carcinogênico. Com base nas evidências da literatura publicada, o cigarro eletrônico pode ser considerado um fator de risco potencial para o câncer oral devido à presença de componentes carcinogênicos e à sua capacidade de induzir alterações prejudiciais às células orais, embora ainda haja carência de estudos prospectivos de longo prazo e de estudos de caso-controle em larga escala. O selênio também vem sendo testado em bancada como antioxidante e, juntamente com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma terceira classe de moléculas vem sendo testada para o tratamento da tuberculose.
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| Vanessa Nascimento: para a pesquisadora, atender as necessidades da população por meio das pesquisas é uma forma de retribuir à sociedade |
Outra molécula desenvolvida pelo seu laboratório tem potencial para o tratamento da esporotricose, doença negligenciada causada por um fungo do gênero Sporothrix, cujo principal transmissor é o gato doméstico. Os felinos desenvolvem feridas profundas que não cicatrizam e o tratamento com fungicida pode levar seis meses, sem garantia de cura. A esporotricose é transmitida aos humanos pelo contato direto com o fungo ou arranhões/mordidas de gatos doentes. Segundo Vanessa, a zoonose, que pode causar desde lesões na pele até infecções graves, tem apresentado um crescimento preocupante, principalmente no estado do Rio de Janeiro. Com este trabalho Vanessa Nascimento conquistou o prêmio "Para Mulheres na Ciência", promovido pelo Grupo L’Oréal em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e a Unesco, na categoria Ciências Químicas. O prêmio valoriza a produção científica de mulheres que enfrentam desafios contemporâneos.
Além de reconhecer o olhar para as doenças negligenciadas, o prêmio também considerou o aperfeiçoamento e a sustentabilidade do método para a obtenção das moléculas. Segundo Vanessa, o laboratório vem utilizando a fotocatálise, também chamada de luz visível (luz de LED), cuja irradiação nas moléculas acelera o processo e aumenta o potencial das reações. O fotorreator, desenvolvido pela equipe em 2022, tornou o processo mais seletivo, com menor gasto de energia, reduziu a produção de resíduos e acelerou o processo (dias gastos na bancada para horas no fotorreator).
“Sempre digo para meus alunos que necessitamos sobreviver da pesquisa e, para isso, precisamos ter números, mas realizar a pesquisa buscando atender às necessidades da população é uma forma de retribuir à sociedade, que paga nossos salários. Um olhar para as doenças negligenciadas é também uma forma de olhar para a população”, alega Vanessa.
Neste ano de 2026, Vanessa foi surpreendida com o prêmio “Martin D. Rudd Early Career Researcher Prize”, concedido pela revista Phosphorus, Sulfur, and Silicon and the Related Elements, que reconhece jovens pesquisadores de destaque no mundo. Vanessa não sabia que havia sido indicada pelo seu ex-orientador do doutorado-sanduíche na Itália. O prêmio é concedido a um pesquisador avaliado como promissor, convidado a apresentar seu trabalho no workshop anual da Rede de Redox e Catálise de Selênio e Enxofre (WSeS), que este ano será realizado em setembro, no Japão.