Marcos Patricio
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| O Museu Nacional/UFRJ vem investindo na digitalização das coleções de História Natural (Foto: Divulgação/MN-UFRJ) |
A equipe do Museu Nacional (MN), unidade de ensino e pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), segue trabalhando em diversas frentes para a reabertura da instituição ao público em 2029, onze anos após o incêndio que destruiu parte expressiva das instalações do Palácio de São Cristóvão e de seu acervo físico, em setembro de 2018. Entre essas ações, destaca-se o projeto de digitalização das coleções científicas, desenvolvido com apoio da FAPERJ.
Parte dos resultados desse trabalho foi apresentada no artigo “An overview of Natural History Collections, post-disaster recovery, and digitization progress at the Museu Nacional/UFRJ, Brazil”, publicado recentemente no Biological Journal of the Linnean Society. O estudo oferece uma visão geral atualizada das coleções de História Natural do Museu Nacional, distribuídas em cinco grandes áreas: Entomologia, Invertebrados, Vertebrados, Botânica e Paleontologia.
De caráter institucional, o artigo é o primeiro a reunir dados numéricos sobre as coleções de História Natural do Museu Nacional após o incêndio, apresentando tanto o impacto das perdas quanto o crescimento desses acervos até 2024. “O artigo traça um panorama da importância histórica das coleções preservadas, mostra o trabalho contínuo das equipes curatoriais na manutenção e ampliação dos acervos e evidencia os esforços para estruturar fluxos de aquisição, organização e preservação de dados digitais. Vale lembrar que quase toda a coleção de insetos do MN foi perdida fisicamente, mas representantes digitais dessa coleção foram preservados”, explica a pesquisadora Cristiana Serejo, autora do artigo e coordenadora do Laboratório de Coleções Digitais do Museu Nacional, o Lab Coldigi-MN.
O artigo também destaca as ações realizadas no período pós-incêndio, com ênfase nas atividades de resgate, recomposição e digitalização dos acervos. Essa última frente está diretamente relacionada à criação do Lab Coldigi-MN, que vem contribuindo para dar visibilidade nacional e internacional aos avanços do Museu Nacional na recuperação, organização, digitalização e difusão de suas coleções científicas.
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| Cerca de 22 mil imagens já foram capturadas no processo de digitalização das coleções. O número representa, aproximadamente, 3.800 espécies (Foto: Divulgação/MN-UFRJ) |
Parte expressiva dos resultados apresentados no artigo foi alcançada por meio do projeto “Reestruturação do Museu Nacional/UFRJ através de seus acervos biológicos: digitalização, curadoria e gestão do fluxo de metadados e sua disponibilização em plataformas abertas para sociedade”, coordenado por Cristiana Serejo. A iniciativa recebeu financiamento do edital Apoio à Conservação da Biodiversidade: Coleções Biológicas RJ - Colbio 2020, da FAPERJ.
“Esse projeto foi essencial para fortalecer a infraestrutura digital, a curadoria e a gestão dos dados das coleções, além de ampliar o acesso público às informações sobre os acervos do Museu Nacional”, afirma Cristiana, doutora em Ciências Biológicas, na área de Zoologia, pela Universidade de São Paulo (USP) e professora titular do MN.
O projeto reúne ações como a implementação do sistema de gerenciamento de coleções Specify 7.0 nas coleções zoológicas, especialmente Invertebrados e Vertebrados; o suporte ao sistema Jabot, utilizado pelo Herbário do Museu Nacional; a capacitação de equipes curatoriais e estudantes; e o incentivo à publicação dos dados gerados em revistas científicas e plataformas abertas.
“Atuamos na digitalização de parte das coleções de História Natural do Museu. Em 2023, iniciamos a captura e o armazenamento de imagens dos acervos com base em protocolos desenvolvidos pela equipe do projeto. Foram cerca de 22 mil imagens capturadas, representando aproximadamente 3.800 espécies, sendo 650 referentes a materiais-tipo das coleções do Museu Nacional”, explica Cristiana, que foi vice-diretora do MN entre 2018 e 2022 e, entre 2019 e fevereiro de 2026, acumulou essa função com a de diretora-adjunta de Coleções.
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| Cristiana Serejo: segundo a pesquisadora, o MN/UFRj vem fortalecendo a governança institucional na área de coleções. Foi criada a Diretoria-Adjunta de Coleções e apresentados o Plano Museológico, o novo Regimento Interno e a Política de Gerenciamento de Coleções (Foto: Divulgação/Diogo Vasconcellos) |
O trabalho também envolve a disponibilização dos bancos de dados digitalizados das coleções a pesquisadores e ao público em geral. Essa divulgação ocorrerá por meio do futuro portal institucional do Museu Nacional, atualmente em construção, e de plataformas abertas como o Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira - SiBBr e o Global Biodiversity Information Facility - GBIF. Embora o Museu Nacional já disponibilizasse dados nessas plataformas antes do projeto, a iniciativa vem permitindo ampliar, qualificar e atualizar os bancos de dados, fortalecendo a presença institucional do MN em redes nacionais e internacionais de informação científica. É possível acessar direto os dados do MN no SIB-Br pelo link. O projeto impulsionou a produção e a circulação científica dos resultados pelas equipes curatoriais do MN, por meio da publicação de artigos e da participação em eventos especializados.
Segundo a pesquisadora, o sistema de gerenciamento de coleções Specify 7.0 foi implementado em 2024 e já funciona em ambiente de nuvem com algumas bases de dados do MN, como Entomologia, Cnidaria e Invertebrados Grupos Menores. “Em maio, vamos migrar as coleções de Annelida, Crustacea, Echinodermata e Malacologia e, na sequência, as coleções de Vertebrados. A Botânica já conta com armazenamento em parceria com o Jardim Botânico. O projeto também apoiou a aquisição de equipamentos, como novas estações de fotografias, e o pagamento do serviço de digitalização da Litoteca”, detalha.
O Lab Coldigi-MN funciona desde 2023, quando tiveram início as atividades do projeto apoiado pela FAPERJ. Entre 2023 e 2025, o laboratório contou com quatro bolsistas do programa Treinamento e Capacitação Técnica (TCT), que deram suporte às diferentes etapas de execução do projeto. Nesse período, foram desenvolvidos protocolos de digitalização, atividades de captura e tratamento de imagens, organização de arquivos digitais, gestão de dados de novas aquisições e de registros produzidos anteriormente, especialmente nas áreas de Entomologia e Ornitologia. Também foram iniciados estudos para a elaboração de um ambiente institucional em rede voltado à organização dos representantes digitais das coleções e, em médio prazo, à estruturação de um repositório digital institucional. Em 2025, a equipe participou ativamente da finalização da Política de Gerenciamento de Coleções do Museu Nacional. Atualmente, o laboratório também vem desenvolvendo a Política de Preservação Digital do Museu Nacional, com previsão de entrega ainda em 2026.
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| As coleções de História Natural do Museu estão distribuídas em cinco grandes áreas: Entomologia, Invertebrados, Vertebrados, Botânica Paleontologia (Foto: Divulgação/Diogo Vasconcellos) |
O projeto apoiado pela FAPERJ contribuiu para o fortalecimento da infraestrutura tecnológica do Museu Nacional, por meio da aquisição de equipamentos de armazenamento digital, como storages, e de melhorias na infraestrutura de TI, especialmente no aumento da velocidade de tráfego de dados. Funcionou também como uma alavanca para o fortalecimento da agenda digital do Museu Nacional. A partir dele, a digitalização deixou de ser apenas uma ação pontual de apoio às coleções e passou a integrar uma estratégia institucional mais ampla.
O Museu Nacional vem fortalecendo sua governança institucional na área de coleções. Um marco importante foi a criação da Diretoria Adjunta de Coleções, em 2019, que contribuiu para ampliar o diálogo entre departamentos, setores e equipes curatoriais. “Passamos a realizar encontros mensais com representantes dos departamentos e setores e formalizamos documentos importantes para a preservação dos acervos, como a Política de Gerenciamento de Coleções, lançada em 2025. Ainda em 2025, foram apresentados o Plano Museológico e o novo Regimento Interno do Museu, que substitui uma versão antiga que datava de 1971. Outro ponto importante foi a contratação de brigada de incêndio e a obtenção de alvarás do Corpo de Bombeiros para alguns prédios do MN. Agora, em 2026, vamos avançar na elaboração da Política de Preservação Digital do Museu Nacional, frente à crescente demanda dessa área”, conclui Cristiana.
O processo de recuperação do Museu Nacional também foi tema de uma videorreportagem do Canal da FAPERJ no YouTube.