Paula Guatimosim
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| Exemplos da fauna da Ilha do Bom Jesus, em fotos de Gabriel e Daniel Mello (beija-flor, carcará e lagarta) e ilustrações de Sara Fonseca (tainha) e Agnes Antonello (borboleta e capivara) |
A Ilha do Fundão – resultado de um aterro que, em 1945, unificou oito ilhas de um antigo arquipélago da Baía de Guanabara para a criação da Cidade Universitária da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – enfrenta sérios problemas ambientais devido ao acúmulo de lixo trazido pela maré. O aterramento do arquipélago modificou de forma profunda o ambiente, alterou a circulação de água na Baía e contribuiu para o acúmulo contínuo de resíduos, afetando manguezais e a vida marinha. A maré passou a trazer todo o tipo de lixo, incluindo plásticos, pneus, materiais de construção, móveis etc. Além disso, a região ainda recebe esgoto doméstico, industrial e outros poluentes, especialmente através do Canal do Cunha, que deságua na região antes de seguir para a Baía de Guanabara. Tanto o aspecto visual quanto o forte odor impressionam quem observa o entorno do campus universitário.
Ao longo dos anos, diferentes projetos voltados ao estudo e à preservação ambiental surgiram na Cidade Universitária. “Como a vida ainda resiste naquele ambiente tão modificado?” Foi para responder a esta pergunta que a pesquisadora Ana Karla Freire de Oliveira submeteu e teve aprovado o projeto “Design da informação com foco na conscientização ambiental: estudo aplicado para a identificação, catalogação e preservação das espécies da fauna e da flora da Ilha do Bom Jesus no Rio de Janeiro” ao Programa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE) da FAPERJ. Essa pesquisa é um desdobramento do projeto “Estuário da Ilha do Bom Jesus”, submetida ao programa de Mestrado e Doutorado Acadêmico para Inovação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (MAI/DAI/CNPq), que busca fortalecer a pesquisa, o empreendedorismo e a inovação, por meio do envolvimento de estudantes de graduação e pós-graduação em projetos de interesse do setor empresarial, assim como oferecer às indústrias os benefícios da pesquisa de alto nível.
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| A exposição na Biblioteca Nacional, no Rio, proporcionou uma experiência olfativa de algumas espécies vegetais (Foto: Divulgação) |
Como o programa do CNPq propõe a vinculação do projeto a uma indústria, a professora Ana Karla Freire de Oliveira encontrou eco nos objetivos de promoção da sustentabilidade da L’Oréal, uma das empresas residentes no Parque Tecnológico da UFRJ, na Ilha do Bom Jesus. Graduada em Design Industrial, mestre em Engenharia Agrícola e doutora em Engenharia de Materiais e de Processos Metalúrgicos, Ana Karla, Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, é uma das coordenadoras do projeto, ao lado da mestre em Arquitetura e doutora em Planejamento Urbano e Regional Madalena Ribeiro Grimaldi. Ao longo de dois anos (incluindo o período da pandemia de Covid-19), as orientadoras do Programa de Pós-Graduação em Design da UFRJ e uma equipe formada por quatro pesquisadores (três mestrandos e uma doutoranda), três biólogas e três ilustradoras (orientadas pela professora Dalila Santos, da Escola de Belas Artes da UFRJ) se dedicaram incansavelmente à identificação e catalogação das espécies da fauna e da flora remanescentes do antigo arquipélago. O objetivo do projeto foi integrar as áreas do Design, da Arte e da Biologia em prol da educação, conhecimento e preservação ambiental.
O levantamento resultou na identificação de mais de 100 espécies de fauna e flora na Ilha do Bom Jesus, dentre elas espécies típicas de manguezal, restinga e Mata Atlântica, incluindo invertebrados, peixes, répteis, aves e mamíferos (sagui híbrido e a capivara), o sabiá-laranjeira, insetos predadores, borboletas e o caranguejo Minuca rapax. Não é raro encontrar exemplos dessa fauna transitando pelo Fundão. Também foram identificados peixes de relevância pesqueira, como a tainha e a sardinha-brasileira, importantes para as comunidades locais. De forma sucinta, Ana Karla explica que o termo “design da informação” representa a prática de estruturar, organizar e apresentar dados de forma clara e visualmente compreensível, transformando informações complexas em mensagens de fácil entendimento. Para tanto, combina design gráfico, usabilidade e arquitetura da informação para aprimorar a comunicação, garantindo assim que o usuário entenda o conteúdo de forma eficaz.
“Foram muitas trocas com a comunidade local, especialmente pescadores, que nos ajudaram muito a conhecer e compreender o ambiente que, para eles, é fonte de sustento”, conta a pesquisadora. O objetivo principal do projeto, segundo ela, é despertar a conscientização ecológica e a necessidade de manutenção e conservação das espécies remanescentes na ilha.
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| Ana Karla Freire: para a pequisadora, o objetivo principal do projeto é despertar a conscientização ecológica e a necessidade de manutenção e conservação das espécies remanescentes na ilha (Foto: Arquivo Pessoal) |
Ana Karla foi docente da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ ao longo de 14 anos e considera este um de seus mais importantes projetos. Devido a questões familiares, ela solicitou remanejamento para a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), sua cidade natal, onde atualmente reside, mas espera que sua equipe amplie este projeto para toda a Ilha do Fundão.
O rico resultado do inventário foi a base para a estruturação de ações de educação ambiental. Uma das “entregas” previstas no projeto foi a criação de um website, batizado de Ilha Viva, onde é possível encontrar belíssimas fotos e ilustrações botânicas das espécies da flora e da fauna da Ilha do Bom Jesus, acompanhadas de dados científicos e até mesmo, no caso das aves, do áudio com seu canto peculiar (veja exemplo aqui). A L’Oréal abriu suas portas aos alunos de uma escola da ilha para mostrar o projeto e ainda aproveitou o material para editar um livro trilíngue e promover quatro exposições: uma na sede do Inova UFRJ e três nos Centros de Pesquisa e Inovação da L’Oréal em Paris. A pesquisa ainda foi apresentada em dois congressos, um internacional, na cidade de Assis, Itália, onde a professora Ana Karla apresentou o artigo intitulado “Imagens e Sustentabilidade: Mímesis aplicada a ilustrações científicas para representação da fauna e flora da Ilha do Bom Jesus, Rio de Janeiro”; e outro nacional, no Congresso de Cosmetologia, em Nova Iguaçu, apresentado pela Maria Eduarda Figueiredo, representante da L’Oreal.
Além do acervo fotográfico e de ilustrações terem sido expostos em Paris, houve também uma grande mostra na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, intitulada “Olhar ao Redor”. A exposição destacou a biodiversidade da Ilha do Bom Jesus (Baía de Guanabara) unindo ciência, arte e sustentabilidade. A mostra exibiu ilustrações científicas e fotos do Projeto Ilha Viva, com entrada gratuita. Segundo a curadora da exposição, Marisa Flórido Cesar, “Olhar ao Redor buscou refletir como habitar coletivamente em uma era de extermínio acelerado das espécies, de iminente catástrofe ambiental. A Ilha, que ainda vive, nos faz compreender que há interdependência das formas de vida e dos mundos, que somos um encontro multiespécies e que as existências estão entrelaçadas, dos fungos que reciclam os solos degradados às estrelas que correm em nossas veias”.
Arquipélago formado por oito ilhas
Até meados do século XX, a região onde hoje está situada a Cidade Universitária era um arquipélago formado por oito ilhas — Cabras, Catalão, Pindaí do França e Pindaí do Ferreira, Sapucaia, Bom Jesus e Fundão. Entre 1949 e 1952, as ilhas foram unificadas por meio de um amplo projeto de aterro que viabilizou a construção do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A Ilha do Bom Jesus foi doada pelos seus proprietários em 1704 à Congregação dos Frades Franciscanos, que ali ergueram a Igreja do Bom Jesus da Coluna. Edificada em 1705, portanto com mais de 300 anos, a igreja era integrada a um convento e, mais tarde, passou a funcionar como hospital, onde recebia, em sua maioria, feridos de guerra. Como hospital, acolheu pessoas acometidas por doenças diversas, leprosos, escravizados e vítimas das epidemias de febre amarela e cólera que assolaram o Rio de Janeiro em períodos diversos. Foi presídio e recebeu levas de imigrantes. Na Ilha, está localizado o Asilo dos Inválidos da Pátria, erguido por D. Pedro II para abrigar soldados egressos da Guerra do Paraguai. O nome da igreja remete à tradição popular de que Jesus teria ficado preso a uma coluna e teria sido açoitado, antes de ser crucificado. A imagem principal no altar retrata a cena. O templo foi tombado em 1937 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e teve sua restauração completa em 2008. Saiba mais sobre a equipe e o projeto aqui.