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Publicado em: 13/08/2020

Soro criado por cientistas brasileiros pode ser arma no tratamento da Covid-19

Débora Motta

Testes com cavalos na Fazenda Vital Brazil: animais
produziram anticorpos potentes contra a infecção
causada pelo novo coronavírus (Fotos: Divulgação) 

Pesquisadores de instituições sediadas no estado do Rio de Janeiro criaram, com tecnologia brasileira, um soro que pode ser uma arma valiosa no tratamento da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2). Desenvolvido por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Instituto Vital Brazil (IVB) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o soro, obtido a partir do sangue de cavalos, possui anticorpos neutralizantes – de 20 a 50 vezes mais potentes do que aqueles naturalmente encontrados no plasma sanguíneo de pacientes que já foram infectados pelo vírus e estão se recuperando. O anúncio foi feito nessa quinta-feira, dia 13 de agosto, e ganhou grande destaque nos principais meios de comunicação do País. O projeto conta com apoio da FAPERJ.

Os pesquisadores aguardam a aprovação, ainda com prazo indeterminado, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), para a realização de testes clínicos (em humanos). Caso essa etapa seja aprovada, o soro pode ser aplicado para reforçar o sistema imunológico de pacientes com casos mais graves de Covid-19, como são usados os soros contra o tétano ou veneno de cobras.

Coordenada pelo professor e pesquisador do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ Jerson Lima Silva – que desde o início de 2019 ocupa o cargo de presidente da FAPERJ –, a pesquisa em rede teve início em maio e vem sendo desenvolvida com recursos da Fundação, por meio da Ação Emergencial Projetos para Combater os Efeitos da Covid-19 – Parceria FAPERJ/SES – 2020. “Essa pesquisa reafirma a importância das instituições unirem suas diferentes expertises. Somos uma equipe de mais de 20 pesquisadores, na UFRJ, no IVB e na Fiocruz. Sabemos que há mais de 170 formulações de possíveis vacinas contra o novo coronavírus, em diferentes fases de desenvolvimento, ao redor do mundo, e estamos desenvolvendo outra alternativa, pelo caminho da imunização passiva, com o soro. O Brasil já tem forte tradição científica, que não pode ser menosprezada, na produção de soros. Há 103 anos, Vital Brazil escreveu uma carta ofertando a patente do soro antiofídico para ser produzido no Instituto Butantã e nesta quarta, 12 de agosto, demos entrada na patente para a produção do soro anti-Covid-19”, destacou Jerson, que durante simpósio virtual realizado na noite desta quinta-feira, 13 de agosto, organizado pela Academia Nacional de Medicina (ANM). Na transmissão ao vivo, ele também anunciou a submissão de publicação sobre a pesquisa no MedRxiv, que é um repositório de resultados preprint, ou seja, pré-publicados.

Um elemento essencial do projeto é uma proteína do novo coronavírus, que tem se mostrado estratégica para diferentes usos e pesquisas: a chamada proteína S (responsável pela ligação e entrada do vírus na célula humana). Localizada na espícula do vírus, região que lembra uma coroa, com pequenas antenas, ela é considerada pelos cientistas um alvo preferencial do sistema imunológico quando este reage à infecção causada pelo novo coronavírus. Em outras palavras, o organismo produz grande quantidade de anticorpos contra esta proteína, quando é infectado pelo vírus. A letra S é derivada da palavra spike, em inglês, ou espícula, em português. No Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares (LECC) do Instituto de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia, da UFRJ (Coppe/UFRJ), a equipe coordenada pela professora Leda Castilho vem produzindo desde fevereiro de 2020 a proteína S recombinante, ou seja, uma cópia fiel da proteína S da superfície do novo coronavírus. Foi esta proteína S produzida no laboratório da Coppe/UFRJ que foi inoculada em cavalos do Instituto Vital Brazil, cuja sede fica em Niterói.

Além de ser usada em pesquisas diversas, a proteína S vem sendo utilizada também em testes para diagnóstico sorológico da Covid-19 e em vacinas que ainda estão em desenvolvimento. “Nosso papel no LECC é a produção de uma glicoproteína recombinante da espícula do vírus SARS-CoV-2, ou seja, de uma cópia da proteína S, presente em grande quantidade na superfície externa do novo coronavírus e que foi usada na pesquisa para imunizar os cavalos do IVB. Graças à inoculação dessa proteína, em maio deste ano, os equinos tiveram uma produção expressiva de anticorpos contra o novo coronavírus”, explicou Leda.

O presidente do IVB, Adilson Stolet, exibe frasco com
o soro anti-Covid-19: com bons resultados em equinos,
produto aguarda aprovação da fase de testes clínicos

O presidente do Instituto Vital Brazil, Adilson Stolet, um dos integrantes da pesquisa, ressaltou que o Brasil tem vasta tradição científica brasileira na produção de soros. “O IVB, que comemorou seu centenário em 2019, é uma fábrica de imunoglobulinas para soros, incluindo os antirrábicos, para o tratamento da raiva, e os antiofídicos, para o veneno da serpente brasileira. Os soros produzidos pelo IVB têm excelente resultado de uso clínico, sem histórico de hipersensibilidade ou eventuais reações adversas”, disse. Os testes foram realizados com cinco cavalos na Fazenda Vital Brazil, localizada no município fluminense de Cachoeiras de Macacu, onde são criados os equinos utilizados no processo de obtenção de plasma para produção dos soros hiperimunes do IVB. “Depois da imunização dos cavalos, trouxemos o plasma deles, em amostras colhidas na Fazenda, para a nossa Fábrica de imunoglobulinas, em Niterói. Lá, realizamos o processo de produção do soro, separando o anticorpo específico contra o vírus, a imunoglobulina anti-Covid 19”, resumiu.

A pandemia causada pela Covid-19 resultou, até agosto de 2020, em mais de 700 mil mortes e mais de 19 milhões de casos confirmados em todo o mundo. No Brasil, a marca de 100 mil óbitos e três milhões de infectados foi atingida esta semana. Enquanto não há vacinas aprovadas e, mesmo posteriormente, pela dificuldade de suprir a grande demanda internacional de vacinação, o uso potencial da imunização passiva por terapia com soro deve ser considerado com uma opção. “O objetivo é que esse tratamento soroterápico seja usado como uma política pública de saúde complementar à aplicação da futura vacina contra a Covid-19, para os casos mais graves de pacientes com Covid e os que requerem internação hospitalar. Como o soro é intravenoso, o efeito já começa em minutos após a aplicação. Sem o soro, um paciente leva cerca de 15 dias para produzir naturalmente anticorpos, o que pode representar a diferença entre a vida e a morte em casos mais graves”, ponderou Stolet.

Participam da pesquisa um grupo grande de cientistas, incluindo Leda Castilho e Renata Alvim (Coppe/UFRJ); Luís Eduardo Ribeiro da Cunha, Adilson Stolet e Marcelo Strauch (IVB); Amilcar Tanuri, Andrea Cheble Oliveira, Andre Gomes, Victor Pereira e Carlos Dumard (UFRJ); Thiago Moreno Lopes (Fiocruz) e Herbert Guedes (UFRJ/Fiocruz). O pedido de patente se refere ao processo de produção do soro anti-SARS-CoV-2, a partir da glicoproteína da espícula (spike), com todos os domínios, preparação do antígeno, hiperimunização dos equinos, produção do plasma hiperimune, produção do concentrado de anticorpos específicos e do produto finalizado, após a sua purificação por filtração esterilizante e clarificação, envase e formulação final. Além do apoio da FAPERJ, a pesquisa conta com subsídios do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

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