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Publicado em: 15/08/2019

Diversificar ciência e economia é meta do governo português

Por Ascom Faperj

Carlos Gross (esq.), vice-presidente da Firjan, seguido do ministro
Manuel Heitor, do presidente da FAPERJ, Jerson Lima, e do diretor
de Tecnologia da Fundação, Mauricio Guedes (Fotos: Paula Johas)

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, Manuel Heitor, foi o convidado especial da quinta edição do encontro “Diálogos da Inovação”, realizado na última sexta-feira, 9 de agosto, na Casa Firjan, em Botafogo. O evento é uma parceria da FAPERJ com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Em sua palestra, Heitor falou do salto em inovação realizado em Portugal nos últimos anos, impulsionado pela preocupação governamental em diversificar a economia e as formas de fazer ciência. Sem esquecer os indicadores internacionais como forma de evidenciar os avanços alcançados em seu país, o ministro falou sobre priorizar as pessoas e da importância de massificar e democratizar o conhecimento para gerar mais e melhores empregos e, claro, da necessidade de aumentar investimentos públicos e privados na área. Ao final, a pedido do diretor de Tecnologia da FAPERJ e moderador da palestra, Mauricio Guedes, comentou sobre o Centro de Pesquisa Internacional do Atlântico, cujo escritório brasileiro fora inaugurado pela manhã, no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em solenidade da qual o ministro também participou.

Para abrir os Diálogos, Carlos Fernando Gross, vice-presidente da Firjan, saudou o pioneirismo de Portugal no estímulo à inovação, ciência e tecnologia e lembrou a importância da indústria criativa para o desenvolvimento do Brasil e para promover soluções inovadoras ao mencionar a pesquisa “Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil – Edição 2019”, realizada na Federação. Em seguida, a jornalista e especialista em projetos especiais da entidade, Julia Zardo, falou do desafio de evitar a fuga de cérebros do Brasil. "Peço desculpas ao ministro, mas nosso desafio é manter as pessoas aqui e não permitir que elas mudem para Portugal. Ou melhor, que elas possam ir para lá fazer suas pesquisas, mas voltem para exercer suas habilidades no Brasil", brincou.

Estar preparado para as transformações tecnológicas no mundo do trabalho nos próximos anos foi a preocupação central da fala do ministro português. “A sociedade que temos hoje é diferente do que era há 10 anos e daqui a uma década será totalmente diferente daquela que temos hoje. Sobretudo pela rápida transformação tecnológica, estamos a formar pessoas que não sabemos se terão empregos no futuro e nem quais empregos serão. Só sabemos que vão ser muito diferentes daqueles que são hoje”, avaliou.

De acordo com dados do Ministério, Portugal gerou 400 mil postos novos de trabalho nos últimos quatro anos, metade deles destinado a pessoas com ensino superior e a outra metade com ensino secundário. Atualmente o país tem a maior concentração de pequenas e médias empresas inovadoras da Europa, segundo ranking divulgado pela União Europeia no mês passado, e agora pertence ao grupo dos países moderadamente inovadores, enquanto há três anos estava entre os “modestos”.

Apesar da preocupação com o desenvolvimento de ambiente propício para inovação, Heitor também enfatizou a importância da sociologia e da pesquisa sobre os limites das políticas tecnocráticas. Para isso, recorre às ideias do geógrafo brasileiro Milton Santos. “Também usando muito do que temos aprendido com a cooperação que temos com o Brasil, com grandes sociólogos e geógrafos brasileiros, há uma dimensão do desejo de participação social e da apropriação social e econômica do conhecimento. Aquilo que Milton Santos, no contexto brasileiro, conceituou como a psicosfera para além da tecnosfera. Apesar de ser engenheiro, tenho me apercebido que os limites das políticas tecnocráticas têm que ser analisados de forma cuidadosa hoje, em um contexto de desenvolvimento de políticas públicas”. O ministro ainda destacou o pensamento da economista italiana e professora da University London College Mariana Mazzucato, de que vivemos uma crescente socialização dos riscos e da privatização do conhecimento. “E isso torna qualquer política pública para inovação bastante complexa. É preciso uma abordagem completamente holística para nos desfazer desses mitos que estão muito associados entre o melhor e o pior e a concentração de financiamento e a necessidade de diversificar e de democratizar o acesso ao conhecimento”, considerou.

Ministro Manuel Heitor recebe os cumprimentos de Mauricio
Guedes e do público após proferir palestra na Casa Firjan

Nessa perspectiva, Manuel Heitor entende que não se deve perguntar em quais novas tecnologias investir, quais são as áreas prioritárias ou quais cursos criar nas nossas universidades, apesar de serem questões comumente colocadas pela comunicação social e em fóruns de políticas públicas. Sua pergunta é mais complexa: Como as pessoas, as instituições e os incentivos podem ser efetivamente orientados, transmitidos e assimilados para melhor interligar/conectar cientistas, empresas e policy makers de modo a garantir que as nossas sociedades evoluam de forma socialmente responsável, sustentável e empreendedora?

Algumas das respostas foram elucidadas ao longo da sua palestra. Uma delas é o aumento do investimento e a diversificação na economia e na forma de fazer ciência. Como exemplo bem-sucedido, o ministro citou o incentivo à criação de “laboratórios colaborativos”, destinados a gerar empregos a partir do conhecimento, e que não priorizam gerar novos conhecimentos científicos, mas soluções tecnológicas. “Hoje tenho consciência que um dos exercícios mais difíceis, mais importantes nessa revitalização portuguesa foi a valorização e diversificação que demos ao sistema politécnico das universidades em Portugal. E isto é muito difícil porque eu não sei se o politécnico é melhor ou pior. Nem interessa. São diferentes”, comentou.

O ministro também colocou em discussão o status da pesquisa básica em relação à pesquisa aplicada e citou Einstein. “Muitos de nós fomos educados nos tempos em que a investigação boa era só aquela que era considerada básica. Hoje sabemos que esse paradigma é importante, temos que ter investigação fundamental, mas temos que ter outras formas de investigação e todas devem ser boas e avaliadas pelos pares. A investigação de Einstein, há 100 anos, era aplicada ou fundamental? Não sei, era boa. E, por isso, em 1907 ele desenvolveu as primeiras equações que levariam, 40 anos mais tarde, o desenvolvimento do primeiro laser, e  mais 30 anos até a miniaturização de um laser. Hoje vamos a um dentista e não sabemos que estamos a usar as equações de Einstein”, disse.

Ao mencionar os diversos avanços realizados por Portugal, o ministro comentou que poderiam ter sido muito mais rápidos se os investimentos fossem maiores. Destacou que em qualquer país o relacionamento com o Ministério da Fazenda é complicado e foi necessária muita negociação entre o governo e as instituições de pesquisa. O compromisso acordado foi de manter o financiamento existente e, em contrapartida, as universidades e institutos de pesquisa não deveriam demandar mais recursos. “Por outro lado, assumimos o compromisso de acabar com a precariedade do trabalho científico e a Fazenda teve que assumir o investimento público”, contou. O resultado foi um incremento de 500 milhões de euros no orçamento.

A meta do Ministério de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal para a próxima década é alcançar um investimento de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) em Ciência, Tecnologia e Inovação e, para isso, será preciso dobrar o investimento público e multiplicar por 3,5 vezes o montante do setor privado, principal investidor na área. Nesse cálculo está incluído o pagamento de salários e a expectativa de geração de 25 mil novos empregos. Outra meta do Ministério é ter a liderança em computação avançada até a próxima década. “Há 40 anos a contribuição das empresas era de 30% e hoje passa de 50%. No passado, a maior parte dos investimentos era feita por laboratórios do Estado e pelo ensino superior. Hoje temos um percurso totalmente diferente”, comentou.

A proposta do Air Centre

Cerimônia de inauguração do Air Centre foi realizada
no Parque Tecnológico da UFRJ (Foto: Divulgação)

A rede de pesquisa do Centro Internacional de Investigação do Atlântico é um exemplo que reúne os objetivos levantados pelo ministro português em sua palestra e teve seu primeiro escritório brasileiro inaugurado na manhã de 9 de agosto. “Há um ano e meio começamos uma conversa com os portugueses, incluindo o ministro Manuel Heitor, vislumbrando o ingresso do programa do Air Centre. Assinamos um convênio de adesão no ano passado para montar uma sede no Brasil, que se concretizou agora. Este é um projeto permanente dos laboratórios da UFRJ, aberto a todo o estado fluminense”, disse o diretor executivo do Parque Tecnológico, José Carlos Pinto, na cerimônia de inauguração.

“A ideia do Air Centre tem muito a ver com um espaço novo, uma forma de integração da informação disponibilizada por satélite, usando, sobretudo, tecnologias de menor custo e, obviamente, com menor impacto ambiental. Institucionalmente montamos o Air Centre, mas o desafio é global”, explicou o ministro durante sua participação nos Diálogos da Inovação. Para ele, o Air Centre também está ligado à ideia de que a diversificação da economia tem que estar associada à diversificação do sistema científico e à forma de fazer pesquisa e desenvolvimento e diferentes instituições.

As pesquisas da rede estão direcionadas ao desenvolvimento de pequenos satélites e incluem desde o monitoramento dos oceanos, o regime das chuvas até o ambiente urbano, além do desenvolvimento de bancos de dados e gerenciamento de grandes volumes de informação. “O foco é a geração de emprego qualificado, centrado efetivamente em uma relação complexa, mas cada vez mais nova, entre o setor do espaço e setores não espaciais. Estou a falar da agricultura. Não é possível aumentar a produtividade da terra sem obter informação por satélite. Estou a pensar nas pescas, no desenvolvimento local. Hoje um pequeno satélite consegue mapear todo ambiente urbano com uma resolução excelente e baixo custo”, exemplificou.

No encerramento, o diretor de Tecnologia da FAPERJ, Mauricio Guedes, mostrou-se animado com os avanços conquistados por Portugal, em especial na área da Ciência, Tecnologia e Inovação. Ele citou um desafio comum aos países. “Portugal e toda a Europa passam, assim como o Brasil, por um descompasso entre a produção científica e a inovação. Nós somos o décimo terceiro país em produção de artigos científicos e somos o 66º no ranking de inovação. Perdemos duas posições no último ranking. Então esse é um desafio permanente para o Brasil”, comentou.

O presidente da FAPERJ, Jerson Lima, que esteve presente tanto na inauguração do Air Centre, pela manhã, quanto na palestra do ministro à tarde, disse estar de acordo com a perspectiva de Manuel Heitor em relação à necessidade de se valorizar tanto a ciência pura como a aplicada, e falou da importância da cooperação internacional na pesquisa. “A vinda do ministro consolida essa cooperação que existe há alguns anos e agora volta a se intensificar. E a FAPERJ está com um edital aberto, uma modesta contribuição para fomentar essa cooperação internacional. A Fundação identificou que era importante olhar para o lado internacional, no qual começamos a ter uma atuação forte nos anos 2012 e 2013, mas, depois, por conta da crise, ela foi diminuída. Então essa retomada é muito importante, com foco em alguns países da Europa, como Alemanha, França, o próprio Reino Unido, mas, especialmente, com Portugal”, disse o presidente.

Na cerimônia de inauguração do Air Centre compuseram a mesa de abertura (da esq. para dir. na foto) o diretor executivo do Air Centre, Joaquim José Brito, o presidente da FAPERJ, Jerson Lima; a subsecretária de Programas e Captação de Recursos para Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Rio de Janeiro, Luana Abreu dos Santos Lourenço, que representou o secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Leonardo Rodrigues; o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, Manuel Heitor; o vice-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carlos Frederico Rocha; a vice-diretora do Instituto de Pós-Graduação de Engenharias (Coppe/UFRJ), Suzana Kahn; e o diretor executivo do Parque Tecnológico da UFRJ, José Carlos Pinto. 

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