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Publicado em: 17/01/2019

Um olhar crítico sobre a Belle Époque brasileira

Débora Motta

"Garotos Jornaleiros", foto de Marc Ferrez, datada de 1899: a
imprensa ganhou fôlego na virada para o século XX
 (Acervo IMS) 

A virada do século XIX para o XX representou um momento de intensa transformação na vida cultural, social e política carioca. Um novo contexto histórico, marcado pelo avanço da urbanização e pelo entusiasmo diante do progresso tecnológico e industrial, surgia no Rio de Janeiro. Aos poucos, a cidade ganhava uma feição moderna, inspirada pela arquitetura e pelos costumes parisienses. A reforma urbana que resultou na inauguração da Avenida Central, durante a gestão do prefeito Pereira Passos (1902-1906), os encontros literários e saraus nos cafés da Rua do Ouvidor, o advento do cinematógrafo, dos automóveis e da iluminação elétrica; e a efervescência da imprensa eram algumas novidades que transformavam o cotidiano da população na capital da Primeira República. Era a passagem de um Brasil rural para um Brasil cosmopolita.

Para difundir o acesso a obras raras, reunidas num só local, sobre esse período histórico – conhecido como Belle Époque e delimitado entre 1890 e 1920 –, a professora de Teoria Literária Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo, do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), organiza o site do projeto Observatório Crítico da Belle Époque (http://labelleuerj.com.br). “O objetivo é difundir o acesso a um acervo digital interativo de literatura e imagem, como um painel integrado de obras literárias e imagens artísticas representativas da Belle Époque, acompanhadas de estudos teórico-críticos e documentos. Hoje, o site já reúne mais de 200 obras digitalizadas, além de ensaios de pesquisadores de diferentes instituições de ensino, com uma perspectiva multidisciplinar. Ao todo, cerca de 25 pesquisadores de diferentes instituições brasileiras, das áreas de História, Arte, Literatura e Filosofia, participam do grupo, incluindo colaboradores de Portugal”, diz Carmem, que é uma das coordenadoras, na Uerj, do Laboratório de Estudos de Literatura e Cultura da Belle Époque (Labelle), ao lado de Fátima Maria de Oliveira e Rosa Maria de Carvalho Gens.

Capa da revista Kosmos, de janeiro de 1904 
(clique na imagem para aumentar o tamanho)

Carmem destaca a importância de um olhar acadêmico mais atento aos estudos sobre a Belle Époque, por considerá-lo um período de pouco destaque na historiografia oficial, apesar da riqueza da sua produção cultural. “Na historiografia, esse período fica comprimido entre 1900 e 1920 e, na maioria das vezes, é estudado com ênfase na produção literária, como se a Belle Époque fosse apenas um momento de passagem para o Modernismo, sendo por isso denominada de Pré-Modernismo”, explica a pesquisadora, que foi contemplada pela FAPERJ no programa Cientista do Nosso Estado. “Estudar a Belle Époque com mais profundidade é muito relevante para compreender as heranças culturais que permitirão rever a própria história da cidade do Rio de Janeiro, considerando a experiência urbana e a vida cultural, artística e literária da época.”

A professora, que também foi contemplada no programa Prociência (Uerj/Faperj), observa que há algumas semelhanças entre a Belle Époque e o contexto histórico atual. “Percebemos afinidades da Belle Époque com o contemporâneo em relação à forma como as pessoas lidam com as novas tecnologias e as mudanças que elas trazem para entender a noção de tempo e espaço. Se hoje a gente lida com o celular, naquela época as pessoas estavam aprendendo a lidar com a fotografia, o primeiro cinema, automóveis, a imprensa e outras novidades. A cidade passou a ser um fascínio e, ao mesmo tempo, um risco. Daí a importância de estudar os movimentos literários e artísticos e entender o papel dos intelectuais. Foi nessa época que começou a profissionalização dos escritores, que passaram a disputar espaço entre as novas seções e funções na imprensa da época – em jornais como A Gazeta de Notícias, O Paiz e o Correio da Manhã, e as revistas Fon-fon, Careta e Kosmos. Nos jornais, as crônicas – de João do Rio, por exemplo – orientavam o leitor sobre como viver nessa nova estrutura da cidade”, reflete Carmem. “Outro ponto em comum com os dias de hoje é o acirramento do autoritarismo e da violência que, durante a Belle Époque, eram inflamados por discursos de ordem, civilização, ciência e nacionalismo, e marcaram o cenário pré-Primeira Guerra Mundial”, completa.

Carmem: projeto visa difundir
acervo digital interativo sobre a Belle
Époque no País
 (Foto: Divulgação)

Entre os autores que tiveram suas obras disponibilizadas em formato digital no site do Observatório Crítico da Belle Époque, estão nomes ilustres, como os historiadores Manoel Bonfim e Capistrano de Abreu, as escritoras Gilka Machado, Carmen Dolores e Júlia Lopes de Almeida, os poetas Augusto dos Anjos, Cruz e Souza e Olavo Bilac, o cronista, escritor e jornalista João do Rio; o escritor Lima Barreto (com sua revista de crítica literária Floreal) e o primeiro grande crítico de arte do Brasil, Gonzaga Duque. “Esses intelectuais ajudaram a disseminar a atmosfera dos salões, cabarés, confeitarias, cinemas, teatros e conferências, que se cruzavam como espaços de encontros e divulgação de arte no Rio da Belle Époque. Os escritores e a imprensa escrita tinham papel de destaque antes do advento do rádio, traduzindo o novo cotidiano urbano para a população. Não à toa, a morte de João do Rio parou a cidade”, pondera.

O site também apresenta diversos artigos acadêmicos que analisam aspectos da época, como Vozes dissonantes e vozes abafadas: literatura brasileira de autoria feminina na Belle Époque, de Anna Fraedrich; A grande reforma urbana do Rio de Janeiro: Pereira Passos, Rodrigues Alves e as ideias de civilização e progresso, de André Nunes de Azevedo; Sensibilidade moderna e romance em Lima Barreto, assinado pela própria Carmem; Proust: perfil de um tradutor da Belle Époque, de Luciana Persice Nogueira, entre diversos outros.

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