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Publicado em: 27/08/2002

Razão, afetividade e desejo: Brancos e Negros em dois continentes

Razão, afetividade e desejo: Brancos e Negros em dois continentes

Laura Moutinho


Um estudo inédito está mapeando o relacionamento entre brancos e negros no Rio de Janeiro e na Cidade do Cabo, na África do Sul. A pesquisa está sendo desenvolvida pela antropóloga Laura Moutinho, sob a coordenação do pesquisador Peter Fry, do programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Razão, Afetividade e Desejo nas Relações são os principais pontos de partida da pesquisadora que vem entrevistando casais de diferentes idades e condições sócio - econômicas nas duas cidades.
Esta é a primeira vez que uma pesquisa compara o Rio de Janeiro e a Cidade do Cabo, reconhecida internacionalmente como a mais democrática e mestiça cidade do continente africano. Em entrevista exclusiva ao FAPERJ 2000 a pesquisadora Laura Moutinho fala sobre o seu trabalho.

F.2000 - Como surgiu a idéia da pesquisa?

Laura Moutinho - A partir de algumas entrevistas que realizei com homens e mulheres militantes do movimento negro durante o período do meu mestrado. Na ocasião, me chamou atenção a forma como as mulheres estendiam para as relações afetivas suas idéias políticas. Nesse sentido, as escolhas amorosas, a família, a gravidez, enfim, tudo, acabava adquirindo contorno ideológico. Já para os homens a distinção entre o público e o privado aparecia de forma mais marcada, embora para ambos os sexos fosse difícil conciliar projetos políticos e escolhas afetivas. As entrevistas revelam que os relacionamentos afetivos-sexuais entre brancos e negros são questões muito importantes na vida daquelas pessoas.

F.2000 - Por que a comparação entre Rio de Janeiro e Cidade do Cabo?

Laura Moutinho - A área de relações raciais surgiu sob a égide da comparação. Na literatura que existe sobre o tema, o Brasil é sempre comparado aos Estados Unidos, ora como paraíso, ora como inferno racial. Li algumas análises sobre a África do Sul e percebi que incluí-la neste circuito traria a possibilidade de ressaltar especificidades ainda não exploradas, revelando a forma como o problema racial foi construído e vivenciado nesses países.

F.2000 - Que tipo de especificidades?

Laura Moutinho - As idéias sobre separação e mestiçagem tiveram no Brasil e na África do Sul tratamentos, em princípio, absolutamente diferenciados. O Brasil, pelo menos do ponto de vista retórico, valorizou a mestiçagem, enquanto a África do Sul deslocou seu foco para a separação, de tal modo que esta adquiriu contornos legais e levou ao apartheid. Mas a Cidade do Cabo, por sua vez, é conhecida nacional e internacionalmente como a mais democrática e mestiça cidade da África do Sul. Um lugar onde registra-se uma grande quantidade de relacionamentos afetivos entre brancos e negros. Ambos, o Rio de Janeiro e a Cidade do Cabo, têm em comum o fato de serem cosmopolitas e possuírem centros turísticos e culturais valorizados no mundo todo.

F.2000 - De que forma os dados são obtidos em sua pesquisa?

Laura Moutinho - Através de entrevistas com homens e mulheres que residem nas duas cidades. Em princípio não há restrição em termos de faixa etária ou escolaridade mas esses dados serão devidamente considerados na análise do material. Alguns eventos sociais são mais propícios para este tipo de encontro, como os bailes funks, as escolas de samba, a capoeira e determinadas praias. Na Cidade do Cabo venho desenvolvendo uma estratégia similar à adotada no Rio de Janeiro. Construí uma teia de relações que me possibilitaram criar uma rede significativa de informantes. Através destes contatos iniciais, constatei que os relacionamentos afetivos - sexuais entre brancos e negros vêm sendo valorizados.

F.2000 - Como você avalia esta tendência?

Laura Moutinho - Segundo algumas pessoas entrevistadas esta seria, inclusive, uma forma de reposta das pessoas fartas dos cerceamentos provocados pelo aparato legal, que obrigava os grupos raciais a se manterem separados. Cheguei a realizar um levantamento dos casos incluídos na Law Report, de 1948 a 1995, que foram enquadrados na Mixed Marriage Act - a lei que proibia casamentos inter-raciais - e na Immorality Amendment Act - a lei que proibia intercurso sexual entre pessoas classificadas em distintos grupos raciais. A Law Report traz, inclusive, um resumo de casos importantes que modificaram a jurisprudência.

F.2000 - A pesquisa constata contradições entre a literatura sobre o tema e a realidade?

Laura Moutinho - No Brasil, a literatura sobre o tema aponta para um predomínio de uniões entre homens mais escuros com mulheres mais claras. Acredita-se que fatores demográficos aliados a uma estratégia de mobilidade social levariam os homens escuros a optarem por mulheres mais claras. Trata -se de uma abordagem baseada somente no mercado matrimonial formal e as normas de preferência que organizam este mercado, como idade, religião, raça e status social. Mas o que estes dados não revelam, em nível local e contextual, são os valores envolvidos nessas escolhas.

F.2000 - Que valores são esses?

Laura Moutinho - Embora as estatísiticas sejam úteis para fornecer um quadro geral dos casamentos inter-raciais na sociedade brasileira, esses dados e análises somente contemplam casamentos formais. Mas os relacionamentos afetivo-sexuais podem assumir diferentes feições e estilos.
A estratégia de mobilidade social pode ser uma fator de união de casais, mas há outros fatores que venho procurando focalizar como, por exemplo, cumplicidades, erotismo. A pergunta básica que orienta minha análise é de que modo a cor, a raça é percebida ou não nesses encontros. Além disso, de que forma os esteriótipos raciais atuam nas novas hierarquias de gênero e de sexualidade? Estamos tentando descobrir.

F.2000 - Que pontos já descobertos em seu trabalho mais lhe chamaram a atenção?

Laura Moutinho - O destaque do homen negro como objeto privilegiado do desejo no Brasil. Se do ponto de vista cultural “a mulata é a tal”, o predomínio de homens mais escuros com mulheres mais claras contraria esta visão. Mesmo em minha pesquisa de campo tenho enfrentado enorme dificuldade em encontrar homens claros com mulheres escuras. O que representa o oposto do que diz inclusive a literatura clássica sobre o tema, que aponta para um predomínio de homens brancos com mulheres escuras. É interessante porque se nesta literatura a mulata com seus dotes sensuais aparece como o elo, nas estatísticas e no meu estudo de campo o homem negro, antes ausente, vem aparecendo como objeto privilegiado de desejo.

F.2000 - O que isso revela?

Laura Moutinho - Revela a complexidade, e a dinâmica nas quais estes casais estão inseridos. Além de certa “síndrome utilitarista”, que ocorre em análises sobre o tema, creio que é possível identificar outros fatores. Não é somente a busca de ascensão social que opera a união entre esses pares. No mercado dos afetos e prazeres a mobilidade social é apenas um dos aspectos relevantes nos encontros afetivos-sexuais. Acredito, por exemplo, que as narrativas humanistas, religiosas de esquerda, assim como uma série de conteúdos eróticos articulados, a cor, raça, contribuem possibilitando a inclusão de atores no mercado erótico-afetivo que, a princípio, de outra forma não seriam considerados ou teriam poucas chances.

F.2000 - O que mais a surpreendeu até agora ?

Laura Moutinho - Quando iniciei a pesquisa sabia que estava trabalhando com dois sistemas sociais dicotômicos, a África do Sul, onde os direitos constitucionais foram definidos com base na raça e a mestiçagem era vista como ameaça e perigo para a nação, e o Brasil, onde em princípio não houve racismo legal e que a mestiçagem era vista como um elemento de criação e originalidade. Mas a pesquisa tem mostrado algumas semelhanças entre esses dois sistemas.

F.2000 - Cite alguns exemplos.

Laura Moutinho - Lá também a aparência - às vezes mais que a descendência - é um fator preponderante na classificação racial dos indivíduos. Do mesmo modo, tanto na Cidade do Cabo quanto no Rio de Janeiro existem fortes objeções por parte das famílias em relação a esses casamentos ou namoros, sobretudo nas camadas médias e altas. Na Cidade do Cabo, com a instalação do apartheid, famílias inteiras foram separadas e perseguidas pela polícia por serem mestiças. Algumas pessoas, cujos membros receberam distintas classificações de cor, além de possuírem uma cidadania diferenciada, ficaram décadas sem poder manter contato. Havia uma verdadeira paranóia em relação a possibilidade de miscigenação. A partir de uma simples suspeição ou denúncia de miscigenação, a categoria de cor de uma pessoa, originalmente imputada, poderia ser modificada para outra.

F.2000 - Que tipo de critério era utilizado para definição de cor em casos de miscigenação?

Laura Moutinho - Inúmeros. Na Cidade do Cabo enrolar os fios do cabelo de uma pessoa em uma caneta, por exemplo, era um dos critérios usados para conferir a raça do indivíduo. Se estes ficassem enrolados após a retirada da caneta, a pessoa era reclassi- ficada como mestiça e sua vida mudaria completamente. No Rio de Janeiro também venho registrando muitos dramas relativos às diferenças de classificação de cor no interior da família. Conflitos entre irmãos, na relação com os pais, na escola e entre os amigos são os mais mencionados.

F.2000 - Quando pretende concluir sua pesquisa?

Laura Moutinho - No ano que vem, quando pretendo defender minha tese de doutorado em antropologia.

F.2000 - O que mais a surpreendeu até agora ?

Laura Moutinho - Quando iniciei a pesquisa sabia que estava trabalhando com dois sistemas sociais dicotômicos, a África do Sul, onde os direitos constitucionais foram definidos com base na raça e a mestiçagem era vista como ameaça e perigo para a nação, e o Brasil, onde em princípio não houve racismo legal e que a mestiçagem era vista como um elemento de criação e originalidade. Mas a pesquisa tem mostrado algumas semelhanças entre esses dois sistemas.

F.2000 - Como a sociedade na Cidade do Cabo vem reconstruindo sua história pós-apartheid?

Laura Moutinho - Realizei uma viagem à Cidade do Cabo ano passado e vou realizar outra este ano. Minha impressão da cidade é muito positiva. Ela possui, por exemplo, uma estrutura pública, exceto em termos de transporte coletivo, muito melhor do que a do Rio de Janeiro. Além disso, embora seja uma sociedade cortada verticalmente pela ‘raça’, a queda oficial do regime parece ter produzido uma significativa diferença no dia a dia das pessoas. Uma senhora “coloured” - classificação utilizada para “mestiço” - me disse que sente profundamente a distinção entre a era apartheid e o momento atual. O fato é que uma mudança na lei não altera automaticamente a dinâmica das relações sociais em um país onde, mesmo antes do estabelecimento legal do apartheid, em 1948, já funcionavam leis restritas de manutenção da pureza racial. No entanto, como destacaram os próprios entrevistados, hoje é possível circular livremente em ônibus, bairros, escolas, pubs, restaurantes, o que é extremamente significativo para aqueles que se sentiam cerceados e continuamente ameaçados.

F.2000 - Brancos e negros falam abertamente sobre o tema?

Laura Moutinho - Ambos ainda apresentam muita dificuldade. O apartheid e relacionamentos “mistos” parecem ser assuntos tabus, pelo menos foi o que senti nas tentativas de conversas sobre estes pontos com brancos sul-africanos. Para aqueles que sofreram diretamente a repressão aos relacionamentos inter-raciais é muito doloroso falar sobre os dramas que vivenciaram.

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