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Publicado em: 27/08/2002

Lagoa: crônica de uma morte anunciada

Lagoa: crônica de uma morte anunciada

Quem já cuidou de um aquário certamente aprendeu algumas lições sobre o funcionamento de sistemas biológicos semifechados. Vários cuidados devem ser tomados para que sejam mantidas as condições adequadas à sobrevivência dos organismos ali colocados. Imaginemos o caso de um aquariofilista inexperiente, que sistematicamente exagera na oferta de alimentos para seus peixes. Passados alguns dias, surpreso, o criador observa os peixes amontoados na superfície da água, na busca desesperada de um pouco de oxigênio. Se atitudes rápidas não forem tomadas para repor o oxigênio perdido, fatalmente o aquariofilista terá que comprar novos peixes para o aquário.


O que aconteceu no exemplo apresentado é facilmente explicável. Ao introduzir uma quantidade excedente de alimento no aquário, o aquariofilista rompeu o tênue equilíbrio entre produção, consumo e decomposição da matéria orgânica no ecossistema. Nesse momento, a homeostase do sistema biológico foi rompida, e os processos de decomposição, que consomem oxigênio, se tornaram mais intensos do que os processos de produção (fotossíntese, por exemplo), que repõem o oxigênio na massa d’água.


O exemplo acima guarda forte relação com o que ocorre periodicamente na Lagoa Rodrigo de Freitas. A Lagoa também pode ser considerada um sistema semifechado devido ao insignificante nível de renovação do volume de água ali armazenada. Por outro lado, a entrada de energia no sistema é intensa, tanto pela introdução de matéria orgânica proveniente de ligações clandestinas de esgotos na rede pluvial como pelo aporte de nutrientes provenientes da lavagem das vias públicas com as águas das chuvas. Acrescentam-se a isso as altas temperaturas e a intensa insolação nos meses de verão.


Como no aquário, a Lagoa necessita de cuidados especiais. Para que se torne um ecossistema mais estável são necessárias duas ações: redução drástica do atual aporte de matéria orgânica - para tanto, terão que ser eliminados todos os pontos de lançamento de esgotos domésticos na rede pluvial - e aumento da taxa de renovação da água da Lagoa com água do mar, por meio do alargamento e aprofundamento do canal do Jardim de Alá, como propõe o professor Paulo Rosman, da COPPE.


Outras medidas vêm sendo propostas como a utilização de um sistema de aeração da massa d’água por meio de sopradores, tal como ocorre em viveiros de aqüicultura. Embora seja uma solução tecnicamente viável, não resolve o problema de forma definitiva e apresenta outros incovenientes, a exemplo da necessidade de manutenção permanente dos compressores.


Temos que aceitar o fato de que a Lagoa não é mais um ecossistema em suas características naturais. A urbanização do seu entorno e a drástica redução da sua área original potencializaram suas fragilidades, passando a exigir do Poder Público ações mais efetivas para sua recuperação e estabilidade. Se mais uma vez iniciativas efetivas não forem adotadas voltaremos, em breve, a discutir os motivos que levaram a uma nova mortalidade de peixes na Lagoa.


Paulo Roberto Ferreira Carneiro Biólogo
Pesquisador do Laboratório de Hidrologia da COPPE/UFRJ

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