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Publicado em: 26/08/2002

Parlamentares, artistas e domésticas: mediadores da sociedade moderna

Parlamentares, artistas e domésticas: mediadores da sociedade moderna

O que podem ter em comum um vereador, um carnavalesco e uma empregada doméstica? Vivendo aparentemente em mundos tão diferentes, os três exercem - cada um a seu modo - o papel de mediador, um elo de ligação entre grupos sociais distintos. Para estudar o fenômeno da mediação nas sociedades complexas, uma equipe de pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ), coordenada pelo professor Gilberto Velho, vem acompanhando diversos setores da sociedade.

O objetivo principal do projeto é, através do estudo do fenômeno da mediação, levantar questões sobre as sociedades complexas, especificamente a brasileira. Uma forma de entender melhor como se dão as trocas entre grupos distintos, que dividem o mesmo espaço. “A sociedade é diferenciada. Nela estão contidos múltiplos grupos, com diferentes níveis de realidade, estilos de vida específicos e códigos particulares. A mediação é a interpretação, a tradução entre diferentes códigos, mundos e estilos de vida”, explica Gilberto Velho, decano do Departamento de Antropologia do Museu Nacional.

O projeto Mediação e Cidadania na Sociedade Brasileira é apoiado pela FAPERJ desde 1999, quando foi selecionado no primeiro edital do Programa Cientistas do Nosso Estado. Seu desdobramento, Carreiras, Projetos e Mediações em Sociedades Complexas, foi contemplado no segundo edital, este ano. “O resultado dessa pesquisa será um valioso instrumento para a formulação de políticas públicas”, afirma o professor.

Domésticas atuam como elo entre universos distantes

Agente de mudanças sociais, o mediador é a figura-chave desse processo. Para entendê-lo melhor, 14 pesquisadores, entre doutores, mestrandos e doutorandos, estão recorrendo a perfis distintos e significativos. Um dos casos mais emblemá- ticos é o dos vereadores, que transitam entre os eleitores, as camadas populares, parlamentares, órgãos oficiais e a imprensa. Não é feito juízo de valor sobre a mediação realizada por eles, mas existem formas diferentes de exercê-la. “Há estilos diferentes de trabalho, que vão trazer conseqüências para a produção do Legislativo e para a sua imagem”, afirma a professora Karina Kuschnir, pesquisadora associada do Departamento de Antropologia.

Outro caso estudado é o das domésticas, profissionais que fazem a ponte entre as camadas populares e abastadas da sociedade. A empregada leva à casa das patroas a experiência culinária, noções de medicina caseira, gosto musical e comportamento do seu meio. Em troca, conduz à sua comunidade uma adaptação do estilo de vida experimentado pelos patrões.

“As domésticas têm mais chance de compreender o universo das patroas, que não costumam ir até a favela”, explica a professora Karina Kuschnir. Essa troca de costumes, entretanto, pode gerar conflitos. Há até casos engraçados, como o da patroa que presenteia a empregada, que faz regime, com uma caixa de bombom. Simplesmente por negar-se a aceitar que a doméstica tenha direito a esse tipo de preocupação estética.

Bezerra da Silva, Luiz Gonzaga, Hélio Oiticica: entre o popular e o urbano

Sem querer entrar no campo da Psicologia, Gilberto Velho costuma dizer que o indivíduo não nasce mediador, mas pode ter o potencial para tornar-se. “Existem circunstâncias que vão favorecer o desenvolvimento de mediadores”. O professor cita como exemplos Bezerra da Silva e Luiz Gonzaga, artistas que desempenharam papel de mediadores entre culturas populares e setores urbanos. Ambos mereceram estudos específicos, assim como o artista plástico Hélio Oiticica, que chegou a radicar-se na Mangueira para transportar os valores daquela comunidade para sua obra.

“O mediador é um personagem ambíguo”

O potencial para a mediação, entretanto, pode levar a crises de identidade, como a do político vindo do movimento de base, que não consegue reeleger-se. Ele pode descobrir que não é mais uma pessoa comum, mas também não é um parlamentar. Na verdade, o mediador é um personagem ambíguo. “Essa ambigüidade pode lhe ser favorável ou extremamente negativa. Ele pode tornar-se um objeto de suspeita, passível de estar trabalhando para o outro”, analisa Gilberto Velho.

No projeto há vários outros casos de mediadores sendo estudados, como os carnavalescos, grupos de idosos, e jovens urbanos que formaram grupos de Forró, assimilando e reinterpretando a cultura nordestina. Há, ainda, um estudo sobre transe e possessão. Nele, mães e pais-de-santo que freqüentam terreiros de Umbanda e instituições psiquiátricas na tentativa de curar pessoas são acompanhados. “São mediadores que ficam expostos ao código do terreiro e ao código médico oficial psiquiátrico”, explica.

O material da pesquisa dará origem a diversos produtos. Em 1999 foi lançado o livro “Antropologia Urbana: cultura e sociedade no Brasil e em Portugal”, com artigos de antropólogos brasileiros e portugueses fazendo comparações entre o Rio de Janeiro e Lisboa. Este ano foi realizado o seminário “Mediação, Cultura e Política”, que em breve será transformado em livro.

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