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Publicado em: 26/08/2002

Lixo que vale ouro

Lixo que vale ouro

Transformar lixo em fonte de energia. Este é o objetivo da pesquisa que vem sendo desenvolvida no Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais (IVIG) da COPPE e foi tema da tese de mestrado recém-defendida pelo matemático Luciano Basto Oliveira. “Estamos tentando transformar em fonte de energia o que existe em abundância e representa um transtorno para a sociedade consumista. O lixo faz parte do nosso dia-a-dia e é um problema que só pode ser resolvido de forma coletiva”, comenta Basto. Na tese, o pesquisador ressalta o potencial brasileiro para gerar energia elétrica a partir de resíduos sólidos e demonstra que a alternativa poderia aumentar a atual oferta do país em 50 milhões de Megawatt-hora por ano, a preço competitivo. Para se ter uma idéia, este número representa mais de 15% do total de energia elétrica produzida no país, totalizando 1/4 do que gera a usina hidrelétrica de Itaipu.

Aproveitamento Energético de Resíduos Sólidos Urbanos e Abatimento de Gases Responsáveis pelo Efeito Estufa é o título da tese do pesquisador, que enumera as inúmeras vantagens do aproveitamento de resíduos. “Além de gerar energia, a utilização de resíduos contribui para sua conservação, através do processo de reciclagem de papéis, plásticos, vidros e metais”, explica Luciano. Para o pesquisador, usar o lixo para gerar energia não é apenas uma solução econômica.

“Trata-se de uma proposta que traz benefícios sociais e ambientais. Pode gerar empregos e contribuir para minimizar problemas de saneamento e saúde pública”, afirma.

Lixo pode render milhões de dólares

Se os países ricos resolverem ratificar algumas propostas que vêm sendo discutidas nas reuniões internacionais sobre mudanças climáticas, o aproveitamento de resíduos pode virar um “negócio da China”. E também do Brasil. Considerada uma alternativa viável para substituir combustíveis fósseis ( petróleo, carvão e gás), o aproveitamento de resíduos pode se transformar numa opção viável de redução da emissão de gases poluentes que provocam efeito estufa.

Embora pareça inacreditável, pesquisadores do IVIG e de outras instituições de pesquisa afirmam que o Brasil é um dos países que pode vir a arrecadar cerca de U$100 milhões por ano com essa alternativa. Isso, caso os países ricos se comprometam oficialmente a investir em projetos de energia limpa implantados em países em desenvolvimento como uma forma de minimizar as emissões que vêm fazendo nos últimos 150 anos. Dessa forma, trocar petróleo por lixo pode ser um grande negócio. Pesquisadores otimistas estimam que o valor dos resíduos sólidos pode chegar a U$ 10,00 a tonelada.

Para explicar de que forma lixo pode se transformar em ouro, de um dia para o outro, Luciano recorre a informações técnicas. “A cana-de-açúcar, por exemplo, quando transformada em álcool e consumida como combustível, emite dióxido de carbono. A diferença em relação aos combustíveis fósseis é que a própria planta da cana- de-açúcar, quando cresce absorve o CO2 da atmosfera, transformando-se assim num ciclo contínuo e de emissão nula. O mesmo ocorre com a fração orgânica do lixo, quando usado para geração de energia. Além disso, o aproveitamento de resíduos como combustível reduz o material depositado em aterros sanitários, cuja decomposição produz metano, um gás 21 vezes mais prejudicial à atmosfera que o próprio dióxido de carbono (CO2), considerado o vilão do efeito estufa” , conclui.

Alquimia: do lixo à energia

Transformar lixo em energia requer tecnologia. Segundo Luciano Basto, já existem muitas técnicas disponíveis. A mais simples consiste no aproveitamento do gás produzido em depósitos de lixo. “A produção de metano é uma função das características sanitárias do local de disposição. Estando o lixo coberto por uma camada de terra, haverá mais condições anaeróbias para a fermentação e produção desse gás”, acrescenta. Outras formas de produção são a incineração - sobre a qual ainda incidem alguns compli-cadores relacionados à queima, pois normalmente esses materiais se apresentam misturados - e a gaseificação. Diante de tais opções, os pesquisadores do Instituto Virtual vêm aprofundando seus estudos em dois tipos de processos que reduzem a quantidade de resíduos a serem encaminhados aos aterros: um deles consorcia a recuperação do metano à compostagem, que é a produção de adubo orgânico, e o outro produz celulignina, um combustível sólido proveniente do aproveitamento de restos alimentares.

“Implantar um sistema, que vai desde a coleta seletiva até transformar o lixo em energia, requer competência e cooperação. A população tem um importante papel a desempenhar nesse processo, pois são as pessoas que fazem a seleção e separação do lixo nos diferentes recipientes: um para papéis, plásticos, vidros e metais, de preferência secos, e outro para restos de comida. A própria mídia, em especial a TV, pode ajudar através de campanhas educativas. Há mais de 12 anos, 95% da população de Porto Alegre está engajada no sistema de coleta seletiva de lixo”, afirma o pesquisador. Mas isso é apenas o início. Segundo Luciano, para funcionar, cada município, ou grupo de municípios, teria que apresentar uma planta energética (usina de lixo) que seria responsável pelo recebimento e processamento do material. Além da diminuição dos aterros sanitários, o Brasil pode vir a ter, com a implantação desse sistema, uma receita da ordem de R$9 bilhões por ano. O montante viria da conservação de energia, da venda de recicláveis e da comercialização das emissões de gases evitados, como o carbono e metano. Como se não fosse vantagem suficiente, o pesquisador identificou que esta alternativa pode gerar uma expansão de energia elétrica da ordem de 15% em relação à atual oferta e aumentar o número de postos de trabalho para pessoas de baixa qualificação profissional em cerca de 1 milhão de vagas.

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