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Publicado em: 26/08/2002

Pesquisa denuncia a situação dos idosos nos asilos públicos do Rio de Janeiro

Pesquisa denuncia a situação dos idosos nos asilos públicos do Rio de Janeiro

Pesquisa denuncia a situação dos asilos públicos do Rio


Como diz a escritora Marina Colasanti em sua crônica “Eu sei, mas não devia”, as pessoas se acostumam a uma série de coisas ruins achando que essa é a única forma de sobreviver. Os resultados de uma pesquisa sobre a vida de idosos que moram em abrigos públicos do município do Rio de Janeiro confirmam a afirmativa. Coordenada pela professora Maria Auxiliadora Santa Cruz Coelho, do Instituto de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisa constatou a precariedade do atendimento nessas instituições. “A vida das pessoas que vivem nesses asilos se resume ao exercício da espera. Elas passam o dia esperando a hora do café, do almoço e do jantar. É como aguardar de forma passiva a morte chegar”, afirma Maria a Auxiliadora.

Para desenvolver a pesquisa, a professora da UFRJ visitou 13 abrigos conveniados com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, localizados no subúrbio e Zona Oeste do Rio, e entrevistou 475 idosos. A conformação e a falta de esperança por uma vida melhor foram fatores que mais a impressionaram. “Eles acreditam que o abrigo é um mal necessário e que a vida é assim mesmo. Para se ter uma idéia, após relatarem situações de descaso, carências e problemas que enfrentam diariamente, 51% dos entrevistados falaram que estão satisfeitos com o local onde vivem”, constata.

Financiada pela FAPERJ e pela Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB), a pesquisa tinha como objetivo inicial traçar o perfil nutricional e de saúde desses idosos. Mas à medida que as entrevistas foram sendo realizadas, os pesquisadores resolveram ampliar o escopo do estudo. Para falar sobre as conclusões deste trabalho inédito, que revela um retrato lamentável do descaso em que vivem os idosos nos abrigos públicos do Rio, a professora da UFRJ, Maria Auxiliadora Santa Cruz, concedeu entrevista exclusiva ao FAPERJ 2000.

Idosos afirmam estar com tuberculose

Nas entrevistas, 4% dos idosos afirmaram estar com tuberculose. “Tal fato deveria ser investigado com mais precisão, por ser a tuberculose uma enfermidade grave, transmissível e de difícil cura se não for tratada adequadamente”, adverte a pesquisadora. De acordo com a pesquisa, 65% dos idosos têm comprometimento visual, 48% sofrem de depressão, 43% de insônia, 40% se queixam de falha de memória e há mais de três anos, 71% não freqüentam o dentista, revela Maria Auxiliadora. Embora apenas 36% tenham admitido sofrer de hipertensão, ao verificar a pressão arterial a pesquisadora constatou que 78% apresentavam sintomas da doença.

Baixo nível de renda e de escolaridade. Esse foi o quadro encontrado pela pesquisadora nos abrigos que visitou. A maioria recebe uma pensão de um salário mínimo e outros não têm nenhuma renda. Com os poucos recursos que recebem os idosos pagam o abrigo. A profissão mais encontrada pela nutricionista foi a de prestadores de serviço, como porteiros, cozinheiros, costureiros, cabeleireiros e domésticas. Cerca de 76% dos idosos residentes nos abrigos do município do Rio de Janeiro têm, no máximo, o primário completo. Destes, 17% são analfabetos e apenas 25% aprenderam a ler e a escrever sem ter freqüentado a escola formal.

No que se refere ao aspecto nutricional, 15,38% dos entrevistados foram classificados na pesquisa como magros, 39,93% como normais e 44,69% como obesos. “O sobrepeso é tão grave quanto a magreza, pois ambos sugerem que a dieta alimentar não está sendo bem feita. A magreza muitas vezes ocorre porque alguns não conseguem comer sozinhos e acabam não fazendo as refeições.” Outro aspecto que merece destaque é a associação da magreza com elevadas taxas de mortalidade. Tal aspecto foi observado nos abrigos estudados. Maria Auxiliadora calculou que 67% dos internos gostam da comida baseada em feijão, arroz e carne. No entanto, a oferta de frutas e verduras é ocasional, não atendendo às necessidades de vitaminas e minerais, importantes para a saúde.

O percentual observado de mulheres idosas obesas nos asilos investigados foi superior ao dos homens - 57,05% e 30% respectivamente. “Mas esse quadro não deve ser visto como algo que se traduza em qualidade do estado nutricional. Normalmente, a obesidade é conse-qüência de inadequa-ção alimentar dos nutrientes energéticos”, explica a nutricionista. A ausência de atividades corporais aeróbicas também contribui para o aumento do número de idosos obesos: 64% dos entrevistados não praticam nenhuma atividade e 36% se exercitam por conta própria, sem nenhuma orientação profissional. “O que não é recomendado para nenhum indivíduo, principalmente para os idosos”, afirma Maria Auxiliadora.

Solidão e abandono

“Sempre que eu perguntava se sentiam solidão eles choravam. Os motivos são vários: 64% não têm amigos confidentes, 85% não namoram, 65% nunca receberam uma chamada telefônica e 41% não recebem visitas”, relata Auxiliadora. Nas entrevistas eles destacam o abandono da família como o principal motivo para estarem vivendo em um asilo. Em seguida vem a viuvez e o fato de terem ficado doentes sem ter quem cuide deles. “Muitos contam que foram parar no abrigo enganados e não param de repetir como isso aconteceu.

Em geral, são muito apegados ao passado, a fotos que guardaram consigo e que fazem questão de mostrar para quem quiser ver.

Rádio: companheiro inseparável

São poucas as opções de lazer. A maioria prefere ouvir rádio do que assistir televisão : 74% se divertem escutando rádio e apenas 40% assistem televisão. Há somente uma TV para vários idosos e muitas vezes eles não encontram lugar para sentar na sala onde fica o aparelho. 55% não lêem. “Os abrigos não se preocupam em oferecer atividades artísticas, exercícios físicos, entre outras formas para distrair os idosos”, diz a pesquisadora, atribuindo tal circunstância à falta de vontade política para se investir em pessoal. “Na minha opinião, uma saída seria propor parcerias com diferentes entidades universitárias, possibilitando a academia ampliar seu raio de ação nas questões assistenciais, direcionando-o aos idosos, um grupo em franco crescimento em nosso país”, conclui a pesquisadora.

À espera da vida passar

Uma cama ao lado da outra no pavilhão. Junto aos idosos que dormem no local, gatos, cachorros e muitos pombos sujam seus objetos, lençóis e roupas. Assim, a pesquisadora Maria Auxiliadora descreve o ambiente em que vivem as pessoas na casa de abrigo Cristo Redentor, em Bonsucesso. Segundo ela, foram muitas as irregularidades encontradas neste asilo. “Em um único dia, identifiquei quatro idosos com pressão arterial acima de 20. Não existem médicos no local para assistir esses pacientes. Encontrei uma pessoa com uma enorme hérnia que saltava da barriga. Outro idoso, que tinha diarréia crônica e vivia sujo, era constante alvo de chacotas. Não havia fralda geriátrica”, denuncia.

“O Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá, é outro lugar que está precisando sofrer transformações. Durante o levantamento, constatei a dificuldade que os idosos enfrentam para se alimentar. Tinha caído o teto do refeitório onde costumavam comer e cheguei a presenciar um idoso pagando a o outro para ir buscar sua refeição. Alguns não tinham condições de subir a ladeira e chegar até o local onde serviam a comida”, relata Maria Auxiliadora.

“A Casa Geriátrica São Mateus, em Guadalupe, era um depósito de pessoas. Não tinha janelas e nem portas no banheiro. Presenciei idosos gritando com um copo na mão pedindo água e comendo sentados no chão, em pratos de plástico”, afirmou indignada a nutricionista. A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social do município encerrou o convênio com o abrigo em outubro de 2000. Segundo Maria Auxiliadora, dos abrigos que visitou este era o que estava em pior condição.

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias de água potável. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

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