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Publicado em: 26/08/2002

Bossa Nova e Tropicália: O Brasil redescoberto pela ótica da canção popular

Bossa Nova e Tropicália: O Brasil redescoberto pela ótica da canção popular

O mar, o amor e a flor foram fonte de inspira ção da bossa nova, estilo musical criado no Rio de Janeiro por um grupo de jovens da Zona Sul, com jeito intimista de tocar e cantar. O ano de 1958 marca o início dessa história, que é sobretudo a história de uma batida de violão diferente, inventada por um baiano chamado João Gilberto que, na época, tocava numa boate em Copacabana.

Para alguns, a bossa nova foi um movimento; para outros, um novo estilo musical. Há aqueles que dizem que a bossa nova é um jeito de tocar. Mas tenha lá o rótulo que tiver, a verdade é que a bossa nova, nascida no Rio, ganhou o Brasil e conquistou o mundo. Com ela tem início uma nova fase da música brasileira, retrato de uma época que se estende dos chamados “anos dourados” aos “anos de chumbo”. No intuito de avaliar este período da história sob a ótica da bossa nova e da canção brasileira dos anos 60, o Núcleo de Estudos Musicais, vinculado ao Centro de Estudos Sociais Aplicados (CESAP) da Universidade Candido Mendes, estará promovendo, nos dia 9, 10 e 11 de maio, o Seminário Da bossa nova à tropicália, no Teatro João Theotônio da Universidade Candido Mendes, no centro. No evento, que conta com apoio da FAPERJ, será discutido o componente crítico na canção popular brasileira dos anos 60. A tarefa está a cargo de cientistas sociais, historiadores, filósofos, musicólogos, jornalistas, críticos musicais e artistas de várias partes do país, que vão falar para jovens de diversas universidades do Rio de Janeiro. Os interesados podem obter mais informações sobre o evento na Internet, através do endereço www.candidomendes.br, ou pelos telefones 531-2000 ramal 254 ou 531-1773 / 531-2082.

Para a professora Santuza Cambraia Naves, coordenadora do evento, a tônica do seminário é mostrar como a música dos anos 60 é uma espécie de janela para se entender a história do país nesse período. “De 1958 a 1968, o Brasil é redescoberto pela canção popular”, diz a antropóloga, que lembra que tudo começou com a bossa nova. “A bossa nova rompe com a tradição anterior de sambas-canções, embora o samba-canção já prenuncie, de certa forma, a bossa nova. Os bossa-novistas rejeitam, entretanto, no samba-canção, a interpretação operística, ao estilo Dalva de Oliveira, e os arranjos espalhafatosos de violinos”, ressalta a professora Santuza.

Para alguns estudiosos, o cenário político da época, com o otimismo e o projeto desenvolvimentista de Juscelino Kubitchek, então presidente da República, que visava tirar o país do subdesenvolvimento, favoreceu o surgimento dessa música que cantava o lado bom da vida. A historiadora Ana Maria Cardoso, professora da UniverCidade, diz que não há como negar que o ‘novo’ transformou-se na expressão capaz de definir o Brasil governado por Juscelino Kubitchek. E ela frisa: “para além das fronteiras econômicas e políticas, o ‘novo’ atingiu e renovou o pensamento, a cultura e as artes nacionais, através de movimentos históricos consagrados, como o cinema novo, a bossa nova e a ousada arquitetura de Oscar Niemeyer”.

A professora Santuza lembra que nesse contexto a música começa a dialogar com o cinema, o teatro, a literatura e as artes plásticas. “Esse diálogo” - lembra a coordenadora do seminário - “tem início com a bossa nova e se estende às tendências que dela se originam, como a canção de protesto - nascida do CPC (Centro Popular de Cultura) e a tropicália. Essa música se torna menos intimista e mais engajada, sem romper, no entanto, com a batida inicial e a harmonia da bossa nova”. Santuza explica ainda que, enquanto a bossa nova está mais voltada para o Rio de Janeiro, a geração de 62, mais politizada, se preocupa em falar do Brasil, sobretudo do Nordeste. E ela dá como exemplo Sérgio Ricardo, autor da trilha de O Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme de Glauber Rocha, com sabor mais nordestino, mais rascante. A antropóloga lembra também do documentário Cinco vezes favela, em que a trilha de um dos episódios - Couro de gato - é de autoria de Carlos Lyra.

Tropicália: do baião nordestino à música pop americana

Da Bahia veio a tropicália, com Caetano, Gil e Gal. O grupo dos baianos, ao contrário dos bossa-novistas, mais voltados para temas cariocas, conciliava o conhecimento da bossa nova com o interesse pelo baião nordestino, pela música pop americana e outros fenômenos musicais universais. “Eles gostavam disso tudo”, diz Roberto Menescal, “e foi ótimo, pois aquele grupo abriu novamente as portas, dizendo que valia tudo. A própria bossa nova passou a ser mais aberta depois disso”. Mas também para os tropicalistas, João Gilberto foi o grande inspirador. A professora Santuza lembra que em Tropicália, primeiro disco do movimento, Caetano Veloso faz uma homenagem a João Gilberto na composição “Saudosismo”. Caetano cita João em toda a música, como no trecho: “eu, você João, girando na vitrola sem parar / e o mundo dissonante que nós dois tentamos inventar”. A antropóloga diz ainda que ao mesmo tempo em que a tropicália retoma a bossa nova, recupera o repertório por ela desprezado, o repertório do “brega”, do excesso. É como se os tropicalistas dissessem: “nós somos João Gilberto, mas também somos Vicente Celestino, somos Chacrinha’. Para a professora Santuza, a grande novidade da tropicália é que, enquanto as gerações anteriores, ancoradas na perspectiva modernista, tentam achar a riqueza no folclore, no que seria “autêntico” e não contaminado pela civilização, a tropicália incorpora o chamado “lixo cultural”, no que é veiculado pela mídia, mostrando isso como parte da nossa riqueza cultural. O movimento tropicalista chega ao fim depois da experiência do exílio de Caetano e Gil. “Eles voltam numa a atitude mais individualista”, analisa a professora, sem dar à expressão um sentido pejorativo. “A atitude tropicalista de incorporar o nacional e o estrangeiro, o erudito e o popular, e de tentar conciliar tradições diferentes, é mantida pelos compositores baianos que fizeram a tropicália, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé”, conclui a antropóloga Santuza Cambraia Naves, para quem a música dos anos 60 é uma espécie de janela para se entender a história do Brasil naquele momento.


Entrevista: Remo Ruffini
Entrevista: Roberto Menescal
Entrevista: Sérgio Ricardo

 

 

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