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Publicado em: 12/02/2015

Decoração de carnaval: uma história contada em luzes e cores

Danielle Kiffer

 
"Ó Abre Alas" enfeitou a Presidente
 Vargas no carnaval de 1970.
(Foto: Revista O Cruzeiro

Com os festejos do carnaval antecedendo em poucos dias o aniversário de 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, a decoração das ruas não podia ser diferente: os estandartes remetem à data e ao símbolo comemorativo. Não é de hoje que isso acontece: afinal, a ornamentação carnavalesca sempre refletiu a história carioca, acompanhando o crescimento dos festejos e suas influências. Durante os anos 1930, por exemplo, essa decoração procurava consolidar o turismo na então capital da República durante os festejos de Momo. Essas e outras histórias foram reunidas no livro Batalha das Ornamentações: a Escola de Belas Artes e o Carnaval Carioca, de Helenise Monteiro Guimarães, pesquisadora da Escola de Belas Artes (EBA), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que será lançado em março, mês do aniversário da cidade, pela Editora Rio Books, com subsídios do programa de Auxílio à Editoração(APQ 3), da FAPERJ.

“Olhar o passado e a ornamentação carnavalesca é ver a cidade com sua fantasia de gala. Essa decoração anunciava o carnaval, representava a memória afetiva do Rio de Janeiro”, explica a pesquisadora. A tradição teve início no século XIX, por iniciativa dos comerciantes do Centro do Rio, principalmente os da rua do Ouvidor e imediações. “O objetivo era atrair a atenção do público que ia ver a passagem das grandes sociedades e suas fantasias de luxo”, diz Helenise. Ela conta que, a princípio, a ornamentação era bem simples: bandeiras traziam as cores e símbolos das principais agremiações.

Um pouco mais tarde, em meados de 1928, a prefeitura da cidade resolveu tomar a iniciativa da decoração de carnaval do Centro, contratando o cenógrafo Luiz Peixoto para a tarefa. Ele enfeitou as ruas com personagens da commedia dell’arte, como arlequim, pierrô e colombina, o que, à ocasião, não fez muito sucesso. “Como, na época, esses símbolos europeus não eram conhecidos pela população, o que chamava a atenção era a decoração baseada nas manifestações populares locais. Contudo, mesmo não sendo bem-sucedida num primeiro momento, a participação de Peixoto marcou o início da pretensão dos governantes em ornamentar a cidade”, explica a pesquisadora.

O Mickey enfeita as ruas do Centro no
 Rio no carnaval de 1941:
reflexo do momento histórico

pelo qual o Brasil passava.
(Foto: Gazeta de Notícias

Após a intensa reforma por que passou a cidade na gestão do prefeito Pereira Passos, o carnaval sofreria uma certa divisão social: enquanto a elite e a classe média frequentavam a Avenida Central, os menos abastados se divertiam na Praça Onze. “Isso porque a Avenida Central consolidava a atmosfera cosmopolita que a sociedade republicana almejava. Junto à Rua do Ouvidor, essa avenida se apresentava como um suntuoso cenário de arquitetura eclética, onde o desfile de novos modos e costumes determinaria também a transição de uma cultura voltada para a modernidade." No começo do século, o antigo entrudo, com suas laranjinhas e limões de cheiro, seria considerado uma prática a ser combatida e eliminada. Foi sendo substituído pelas batalhas de flores e de confete, enquanto os corsos bem-comportados cruzavam as artérias centrais. A concentração carnavalesca passaria a ser vista como uma das atrações turísticas da cidade”, diz a pesquisadora.

Na década de 1930, estímulos governamentais para que o turismo crescesse e integrasse a então capital federal ao circuito internacional são fruto de uma construção histórica e cultural planejada por seus governantes, com a intenção de mostrar uma cidade glamorosa, exótica e atraente. É nessa época que se inaugura a estátua do Cristo Redentor, o Teatro Municipal se torna palco do baile de gala da cidade e as escolas de samba fazem seu primeiro desfile oficial. “É uma estratégia nacional, já que, na época, o Rio competia com Buenos Aires para ser considerado a cidade das maravilhas. O carnaval se torna a grande vitrine carioca: batalhas de confete, banhos de mar à fantasia e as lindas paisagens naturais tornam o Rio a Cidade Maravilhosa”, fala Helenise.

A proposta era de se intensificar a propaganda do Brasil no exterior, com o Rio como a vitrine dos espetáculos carnavalescos, que a essa altura não mais copiam festas ou símbolos estrangeiros. “É importante compreender que o turismo organizado se torna um campo atraente para captar divisas, convivendo com o carnaval popular e sua mais nova estrela em ascensão: as escolas de samba”, explica a pesquisadora.

 Mais uma vez a Avenida Presidente
Vargas, em 1968, 
preparada para
a folia carnavalesca.

(Foto: Revista Manchete)
 

De 1932 a 1940, a decoração das ruas varia bastante. Da valorização da iluminação, nos anos 1930, que revestia com lâmpadas o obelisco da Avenida Rio Branco até a Praça Mauá, possibilitando a realização de festas também no período noturno, a ornamentação passa a refletir, no início dos anos 1940, o momento cultural que o País vivenciava, que era a hibridação cultural entre Brasil e Estados Unidos. Grandes painéis representam Mickey, Popeye e Olívia Palito e outros heróis de quadrinhos, unindo a temática infantil nacional à norte-americana. “Nessa época, os bailes de gala de carnaval no Teatro Municipal ganharam notoriedade e a decoração urbana, maior espaço e atenção, elaborados por Luiz Peixoto e por Gilberto Trompowsky, dois nomes emblemáticos da Academia de Belas Artes”, diz a pesquisadora. Nesse período, a decoração toma tal proporção, que se torna um importante símbolo do carnaval. “A criação, escolha e produção da decoração assinalam a cada ano um carnaval diferente e mais luxuoso do que o anterior”, conta.

Figuras gigantescas, que podem ser vistas de longe, como a do Rei Momo, baianas e cangaceiros, se destacam no início dos anos 1950. À época, a ornamentação acentua as tendências de cada local, de acordo com seus frequentadores. A Praça Onze, onde o povo se aglomera, ganha uma decoração que descreve a vida no morro, temas circenses e folclóricos, enquanto a Cinelândia, em frente ao Teatro Municipal, mais frequentada pela elite carioca, recebe a temática de colombinas, pierrôs e candelabros. Essa divisão fazia surgir um mapa que indicava aos foliões o roteiro dos pontos decorados do centro do Rio: Praça Marechal Floriano, Avenida Rio Branco, Praça Paris, Praça Mauá, Avenida Presidente Vargas e Praça Onze. No final da década, entram em cena novos materiais e técnicas, como compensado e silk screen, além de iluminação interna.

O cenógrafo e carnavalesco Fernando Pamplona exerce um papel importante no carnaval da década seguinte, principalmente nos anos 1960. Além de atuar como mediador entre a academia, o teatro e o carnaval, ele traz temas diferentes dos usuais. Em 1954, ele inicia sua trajetória concorrendo para ser o decorador dos bailes de gala de carnaval do Teatro Municipal. Sua proposta de tema é o candomblé. Perdeu para Fernando Valentim, que trouxe o tema navegação, mas conseguiu enfeitar as ruas com sua temática africana. “Fosse na rua ou nos bailes de gala, Pamplona foi um dos artistas que mais defendeu nosso folclore, trazendo a África para o carnaval”, conta Helenise.

À medida que o desfile das escolas de samba passou a ganhar popularidade como um dos símbolos do carnaval, a decoração de rua, inversamente, perdeu importância. “Antigamente, a ornamentação das ruas anunciava o carnaval; hoje, o desfile das escolas de samba é o carro-chefe dos festejos”, fala. Ela avalia, contudo, que as mudanças continuam em curso. “O carnaval de rua está se revitalizando, com os blocos crescendo cada vez mais. A continuar assim, é possível que a decoração carnavalesca ganhe fôlego e ressurja aos poucos”, finaliza.

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