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Publicado em: 05/02/2015

Rio de Memórias: os escritores e a cidade

Vilma Homero

 

O ano é 1881. Morando há pouco tempo no Brasil, mais precisamente na cidade do Rio de Janeiro, a alemã Ina Von Binzer se vê tomada por uma insistente dor de dente. Resolve sair às ruas, rumo ao consultório de um dentista próximo. Mas ao virar uma esquina, ela se depara com multidões dançando e cantando, vindo ao seu encontro. Mais espantada fica ao perceber que terá que passar por aquelas pessoas, se quiser chegar ao dentista. Espremida contra a parede das casas, ela procura passar pelo bloco. E foi assim, molhada pela água das laranjinhas e limões de cheiro, desnorteada e quase entorpecida pelo batuque, que ela conseguiu chegar a seu destino. A história é uma das sete que compõem o livro do professor  Antonio Carlos da Silva, da Faculdade de Educação Tecnológica (Faetec), Um Rio de Memórias: a cidade e os escritores.

O livro é resultado de projeto homônimo, contemplado no edital Rio 450 Anos, da FAPERJ, em que Silva procura aproximar do leitor destacados escritores brasileiros e estrangeiros que em algum momento passaram pela cidade. “A ideia é formar uma relação de interesse do leitor pela obra de autores, como Ina Von Binzer, Virginia Woolf, Cecília Meireles, Paulo Mendes Campos, Machado de Assis, Clarice Lispector e Vinicius de Moraes, que deram tão grande contribuição à literatura. A alemã Ina, por exemplo, viveu no Brasil do século XVIII, onde veio lecionar para filhos de famílias abastadas da época. Ela descreve sua vida no país e o estranhamento que lhe causam os hábitos e a cultura brasileira”, explica Silva. Autor de vários livros de literatura infanto-juvenil, de crônicas e textos acadêmicos, Silva é pedagogo, com doutorado em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). 

Em seus minicontos, crônicas e recontos, ele procura recriar a atmosfera de cada um dos autores, em cenários que passeiam pelos diversos pontos da cidade do Rio de Janeiro, que quase é um personagem por si só. Os escritores, por outro lado, também se tornam personagens dessas histórias, em que a ficção criada pela imaginação de Silva toma como ponto de partida algo escrito por cada um deles.

“Procuro sempre partir de um conto ou poema de um deles, me inspirar para desenvolver algo inteiramente ficcional”, afirma Silva. No caso de Ina, a inspiração é o registro de uma carta real, escrita em 1881 para uma amiga da escritora na Alemanha. “Ela vê o Carnaval e não compreende direito o que está acontecendo”, explica o pesquisador. Com Cecília Meireles, tudo começa a partir de uma poesia. Desse princípio, o leitor caminha, junto com a autora pela feira de antiguidades da Praça XV, observando os objetos e as memórias a que remetem.

Outra poesia, desta vez de Carlos Drummond de Andrade sobre a morte de um leiteiro, leva Silva a conjecturar sobre como seria ver o mineiro de Itabira percorrendo confeitarias e bares do Rio, atrás de uma mera xícara de café com leite, mas ouvindo como resposta que só há café. E o espanto de Drummond ao ser informado de que a falta de leite na cidade se deve à morte do leiteiro.

Mais um poema, “O Pombo Enigmático”, do mineiro Paulo Mendes Campos, descreve como a ave, que marcou casamento para o mais alto degrau da igreja da Candelária, chega atrasada ao próprio enlace por ter se encantado com a beleza do dia, emoldurado pelo sol. “Também procuro colocar em cada um dos contos traços do que se conhece da personalidade dos autores.”  A introspectiva Clarice Lispector, por exemplo, passa pelo Aterro do Flamengo admirando a paisagem do Rio, chega a confeitaria Colombo, onde, sentada a uma das mesas, traça um roteiro de pontos turísticos da cidade que pretende visitar. Já o poeta Vinicius de Moraes, rodeado de amigos em um bar da Gávea, faz confidências sobre um de seus muitos amores, que acontece num dia de Carnaval, depois de um almoço no restaurante Lamas. “Nessas histórias, sempre há traços da paisagem da cidade como pontos emblemáticos.”  

A única desses escritores que nunca esteve no Rio de Janeiro, a inglesa Virginia Woolf, aparece, no conto de Silva, trocando correspondência com um leitor. Por carta, eles resolvem marcar um encontro na estação da Central do Brasil. Nesse encontro, levando todas as cartas trocadas, autora e leitor resolvem seguir até a Quinta da Boa Vista. Na estação de São Cristóvão, eles descem do trem, deixando num dos bancos a volumosa correspondência. Supõe-se que os passageiros que entram e seguem viagem rumo aos subúrbios cariocas encontraram as cartas e as leram, enquanto descortinam pelas janelas do trem a vista da cidade.

O livro, que já está concluído, terá mil exemplares e será publicado pela editora Intertexto. “Acredito que ao ler o livro, o público ficará curioso em saber mais sobre cada um desses escritores. Espero que ele seja lançado ainda nesse primeiro semestre para que possa circular durante as várias comemorações do aniversário do Rio de Janeiro.”

    

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