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Publicado em: 14/08/2002

FAPERJ apóia preservação da cultura indígena

FAPERJ apóia preservação da cultura indígena

Há 500 anos, homens do hemisfério norte em busca de novas terras atravessaram o oceano e aportaram no Brasil. Na época, uma população de 6 milhões de índios vivia de norte a sul do país. Hoje, são apenas 300 mil. Nações inteiras foram dizimadas. Poucas resistem até hoje. Dentre elas, a dos Guarani, cuja população total é de 5 mil índios distribuídos em aldeias localizadas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

No intuito de preservar a cultura indígena, a FAPERJ tem realizado um trabalho pioneiro com integrantes das três nações Guarani existentes no Estado do Rio: Bracuí, Araponga e Parati-Mirim - todas situadas na estrada Rio - Santos, em áreas remanescentes de Mata Atlântica. Sete índios recebem, mensalmente, uma bolsa da fundação para pesquisar e divulgar a tradição de seus povos. Eles exercem a função de arte-educadores, dão aulas e coordenam atividades tanto na cidade, para os homens brancos, como em suas aldeias, para crianças, jovens e adultos. Quatro deles ficam nos grandes centros e realizam um trabalho de intercâmbio entre o universo indígena e o urbano. Eles apresentam palestras em escolas públicas e particulares, além de orientar visitas guiadas a museus. Os outros trabalham com a própria comunidade e têm a responsabilidade de ensinar aos seus descendentes sua história e cultura.

Sobrevivência:
um exercício diário de persistência e determinação

Atualmente, em Parati-Mirim, em 79 hectares da região da Costa Verde, a aldeia Guarani conta com 95 habitantes. Chegaram ali há 60 anos, vindos do Rio Grande do Sul em busca da "terra sem males". Lá, tentam preservar sua cultura, apesar do contato cons-tante com o mundo dos brancos. Até hoje, eles mantêm estreita ligação com a terra, de onde tiram alimentos, matéria-prima para construção, seus adornos e material para fazer os objetos que vendem a turistas. Esse pequeno comércio é o único meio pelo qual conseguem algum dinheiro para comprar o que não pode ser tirado do chão.

A energia elétrica só chegou à aldeia de Parati-Mirim no dia 14 de janeiro de 2002. Os Guarani vivem do artesanato, da caça, das plantações de banana, cana-de-açúcar, milho e feijão. Com palhas e penas, fazem cestos, leques, zarabatanas e outros objetos para vender aos turistas nas estradas próximas a Parati. Para se adaptarem ao mercado, há cerca de dez anos, trocaram o tom natural da palha e o preto pelas cores. Hoje, abusam do rosa, do roxo, do verde e do vermelho em suas criações.

Para os Guarani, tudo o que produzem tem um significado. Os cestos, por exemplo, dão proteção e unem a família, pois são usados para guardar o pão sagrado nas cerimônias de iniciação. Os alimentos representam os quatro elementos, assim como todos os seus rituais. A banana é a água; o aipim, a terra; a batata-doce, o ar; e o milho, o sol. Quando querem se purificar, ficam dias comendo apenas esses alimentos que consideram sagrados.

Bolsistas transmitem legado ético e cultural de uma filosofia secular

A preservação cultural começa com o batismo, quando todos recebem nomes ligados à natureza. Tobi, por exemplo, que é o nome do pajé tupi-guarani de uma das aldeias, significa "besouro da pedra preta". Forte também é a tradição das orações diárias, realizadas na Casa da Reza. A cura e o tratamento de doenças são resolvidos com as ervas colhidas ao redor da aldeia.

Na escola bilíngüe Tava Miri, construída há pouco mais de dois anos, todo o legado ético e cultural é passado para as crianças por Sérgio da Silva, 30 anos, um dos bolsistas da FAPERJ, e por outros índios adultos. Sérgio dá aulas tentando textualizar tudo o que aprendeu com seus ancestrais. Uma tarefa nada fácil para quem durante toda a vida conviveu apenas com a transmissão oral para a preservação da memória de seu povo. Sérgio utiliza recursos da natureza para explicar o sentido de temas mais complexos. "Temos de ensinar às crianças para que a nossa cultura não se perca. O ensi-namento mais importante é o respeito para com as famílias", explica.

Ao todo, cerca de 40 crianças freqüentam a escola de Parati-Mirim. No turno da manhã, vão as mais velhas, com idades que variam entre 8 a 11 anos, e, à tarde, as mais novas, de 5 a 7 anos. Por conta da bolsa que recebe men-salmente, a responsabilidade de o sustento vir da roça diminuiu. Desde então, Sérgio pôde se dedicar quase que exclusiva-mente ao projeto de educação de sua aldeia: "Fico feliz em poder realizar esse trabalho", afirma.

Luta contra o alcoolismo

O contato com o homem branco não trouxe muitos benefícios. Nas lixeiras espalhadas pela aldeia, está uma das marcas da sociedade moderna: o álcool. Cacique Miguel, o mais velho da tribo, 89 anos, passou a usar a Casa da Reza, espaço extremamente sagrado para eles, onde são realizados os rituais, para promover uma luta contra o alcoolismo. "Estamos fazendo um trabalho de conscientização. Já melhorou muito. A bebida é um problema no nosso povo. Estraga tudo", diz.

Com seus segredos e mistérios, os Guarani mantêm a pureza da ancestralidade brasileira. São alegres, receptivos e hospitaleiros, guardiões de uma filosofia secular, que até hoje adotam. O uso das ervas medicinais, por exemplo, é fruto de um conhecimento que vem atravessando gerações. Tobi Itaúna,outro índio que conta com auxílio da FAPERJ, pesquisa ervas medicinais e já tem 680 delas catalogadas. Nascido na amazônia, Tobi é pajé tupi-guarani da aldeia Peroíbe, em São Paulo.

Há dois anos, Tobi possui uma pequena loja em Rio das Pedras, onde comercializa os produtos que vêm das mais diversas aldeias indígenas do Brasil. Há uma associação, com cerca de 200 índios, que se encarrega desse intercâmbio. As ervas chegam da Amazônia, do litoral paulista, da Bahia, de Minas Gerais e do Espírito Santo. Tobi garante que ajudam na cura de aproximadamente 680 males, entre eles mau-hálito, azia, úlcera, gastrite, varizes, cansaço físico e mental, fraqueza sexual, memória fraca e reumatismo, além de algumas serem boas para o fígado e para os rins. As mais procuradas são a porangaba e o sene, indicadas para a perda de peso. A cada 15 dias, são vendidos cerca de 60 quilos delas.

Tobi nasceu em Manaus e veio para o Rio de Janeiro aos 8 anos. Seus pais o entregaram a um casal em Copacabana para adoção. Aos 10, não suportou a rotina de cuidar de um antiquário e fugiu. Viveu pelas ruas, fazendo biscates, foi padeiro, até, coincidentemente, encontrar uns primos, numa praça do Centro da cidade, e voltar para sua aldeia. Aos 16 anos, voltou para a casa dos pais."Foi uma grande emoção", diz. Desde então, como ele mesmo explica, faz o intercâmbio entre o branco e o índio. Duas vezes por mês, vai a escolas públicas e privadas dar palestras. No Rio, mora com Uíra, sua mulher. Na aldeia, para onde volta a cada dois meses, ficam seus dez filhos e seis netos.

Bolsistas estão traçando o mapa das culturas guarani

Carlos Tukano, 41 anos, tem uma história bem diferente de Tobi, mas exerce uma função parecida. Também é difusor da cultura indígena no Rio de Janeiro. Tukano nasceu na aldeia Pari Cachoeira, na Amazônia. Saiu de lá aos 37 anos para conhecer outras tribos e tradições de seu povo e acabou fixando residência na cidade. Conta que custou para adaptar-se à vida urbana. "Foi uma luta difícil para eu conseguir entender os hábitos e os conhecimentos do homem branco", afirma. Mas essa fase passou. Hoje, está totalmente integrado. Há cinco anos, trabalha no Museu do Índio, em Botafogo, onde, nos fins de semana, orienta as visitas de grupos e estudantes. Também trabalha com as crianças carentes da ONG Aldeia Infantil SOS Brasil Pedra Bonita, na Zona Oeste. Ali, construiu uma oca, onde exerce a função de arte-educador. Na tradicional moradia indígena, ele ensina música, técnicas de cerâmica, pintura e dança. Há um ano e três meses, Tukano integra o time de bolsista da FAPERJ e diz que esse apoio da instituição é fundamental para o seu trabalho. "Desde então, tenho tido a oportunidade de promover essas atividades que ajudam a aproximar duas culturas tão distantes", resume.

Tukano, Tobi e Sérgio, assim como os outros quatro bolsistas da FAPERJ, estão escrevendo o Mapa das Culturas Guarani. A publicação deve ficar pronta no segundo semestre de 2002. Coordenados pela antropóloga Dinah Guimaraens, os índios serão, pela primeira vez, os verdadeiros autores de suas histórias. "Eles escrevem, e eu apenas leio e faço as correções para o português. Com uma visão antropológica, o objetivo é que se expressem livremente. Ficará um belo trabalho", garante Dinah.

 
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