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Publicado em: 26/06/2014

Cinema e esportes: uma relação pouco estudada

Vinicius Zepeda

Reprodução 
    

O filme Fábio Fabuloso apresenta de uma forma criativa um dos   
primeiros grandes surfistas do país, o nordestino Fábio Gouveia
      

Turistas de diferentes países estão no Brasil para acompanhar os jogos da Copa do Mundo de Futebol da FIFA 2014. Até o momento, o evento tem sido um sucesso de público e crítica, com jogos empolgantes e zebras como a eliminação de três seleções campeãs mundiais, como foi o caso de Espanha, Itália e Inglaterra ainda na fase de classificação. Enfatizando ainda mais a importância que o esporte vem ganhando – e não apenas o futebol – em 2016, o Rio de Janeiro será a cidade-sede dos Jogos Olímpicos. O tema também chama a atenção de pesquisadores. Entre eles, Rafael Fortes, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) e Victor Andrade de Melo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que organizaram o livro Comunicação e Esporte: reflexões a partir do cinema, editado com apoio do programa Auxílio à Editoração (APQ 3), da FAPERJ, focando num aspecto ainda pouco abordado: a associação entre esportes e cinema.


"Poucos estudos têm essa relação como tema", fala Fortes. Lançado no começo de junho, o livro analisa a presença do esporte no cinema não apenas no Brasil, mas também em vários países, em artigos escritos por diferentes pesquisadores. O livro se divide em duas partes. A primeira apresenta, em quatro artigos, as relações entre esporte e cultura juvenil, numa análise de filmes sobre surfe e skate. Nos três primeiros, os organizadores explicam como o surfe mostra as transformações que a juventude brasileira passou entre as décadas de 1960 e 1990. Já o quarto artigo fala sobre como o skate revela uma série de códigos sociais da juventude americana, cada vez mais exportada para o mundo todo.

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    Em Belarmino, decadência de pugilista serve de metáfora
    para falar sobre a ditadura nos anos de 1960 em Portugal 

Escrito pelos dois organizadores, um dos primeiros artigos apresenta o surfe na década de 1990 no Brasil, em filmes como Fábio Fabuloso, Surf Adventures e Manobra Radical. "Vale destacar que, na época, já havia a profissionalização do surfe no país, com atletas ganhando destaque em competições internacionais e competindo, com diversos patrocínios. Foi o auge da revista Fluir, que abordava o tema, e quando importantes emissoras de rádio, como a Cidade e a extinta Fluminense FM, patrocinavam eventos pelo País e divulgavam os estilos musicais mais ouvidos pelos surfistas, como rock, surf music e reggae", lembra Fortes. "Enquanto Surf Adventures e Manobra Radical mostravam a cultura e o sonho dos jovens de se tornarem surfistas profissionais, Fábio Fabuloso exibia de maneira criativa um dos primeiros grandes surfistas brasileiros, o nordestino Fábio Gouveia. O filme ainda mostra a cultura daquela região do País, usando a linguagem de cordel para narrar essa história", complementa.

Outro artigo, escrito em conjunto com o Victor e com o historiador Cleber Dias, fala sobre o filme Garota de Ipanema (1967), de Léon Hirzman. Segundo o texto do artigo, "o filme foi o primeiro longa-metragem do Cinema Novo em cores e com características de musical". Também enfocava o mundo da classe média de Ipanema, afastando-se do universo popular e suburbano que era comum ao movimento. Essa mistura de linguagens de vanguarda e comercial não alcançou o resultado esperado, sendo considerada uma obra menor na trajetória do cineasta. Influenciado pelo neorrealismo italiano e sob o slogan "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça", o Cinema Novo foi um movimento que rompia com a grande indústria cinematográfica e apresentava um cinema mais crítico, voltado a discutir a realidade do país.

Reprodução 
   
Heleno: cinebiografia mostra ídolo do futebol já aposentado    
  e decadente, com o sucesso nos gramados no passado 


A segunda parte do livro, que também traz quatro artigos, debate as relações entre esporte, política e
memória na sociedade. Enquanto Victor Melo escreve sobre como um filme sobre boxe em Portugal pode servir de metáfora para falar de uma nação, Cleber Dias fala sobre o pingue-pongue na Mongólia. "Belarmino (1964), dirigido pelo cineasta português Fernando Lopes, ligado ao Cinema Novo português – movimento que surgiu na mesma época que o Cinema Novo brasileiro, como o qual guardava semelhanças –, acompanha a decadência de um promissor pugilista português e serve como metáfora para falar da decadência de Lisboa, numa época em que Portugal vivia sob a ditadura militar de Salazar", explica Victor Melo.  Em Pingue-pongue da Mongólia, as aventuras do personagem principal da história, Bilike, deflagradas pela descoberta de uma bola de pingue-pongue, servem de pretexto para exibir o drama entre tradição e modernidade vividos atualmente naquele país. "Nos dois casos, destacamos como o cinema, por meio do esporte, nos permite conhecer e analisar a realidade de culturas  diferentes", afirma Fortes. Ele ainda traça alguns paralelos com o filme Garrincha, a alegria do povo (1963), de Joaquim Pedro de Andrade, outro cineasta do Cinema Novo brasileiro e o já citado Belarmino. "Enquanto o filme brasileiro fala sobre o auge e o declínio do grande jogador brasileiro, a película portuguesa faz uma metáfora da decadência em que vivia Portugal. A película brasileira também procura mostrar as tensões de um país que vivia um regime democrático em crise e que, um ano depois, em 1964, veria o início de uma ditadura", complementa.


E justo no país do futebol, são os dois últimos artigos, escritos por Luis Carlos R. de Sant’Ana e Ana Maria Acker, respectivamente, que falam sobre o tema. A paixão pelos times, segundo a ótica de O corintiano, dirigido por Mazzaropi, é tema de Luis Carlos Sant' Ana. Nele, merece atenção o fato de que mesmo um astro de comédia dos anos de 1960, considerado alienado num país que vivia em plena ditadura, consegue abordar de maneira cômica, sutil e comercial o ambiente político da época, pela ótica de um torcedor fanático", explica Rafael Fortes. "Já Ana Maria Acker fala sobre Garrincha, Estrela Solitária e Heleno. Os dois filmes têm em comum o fato de ser sobre grandes ídolos do Botafogo, feitos a partir de biografias e por isso é importante analisarmos como eles são apresentados ao espectador", explica. Segundo o artigo "Craques nas telas: reflexões sobre os filmes Garrinha, Estrela Solitária e Heleno", ao contrário das biografias escritas, as cinebiografias raramente tentam cobrir toda uma vida. Nos dois filmes, não há referências, por exemplo, à infância dos atletas. Os dribles, gols e o espetáculo nos gramados ficam em segundo plano. Ambas partem da fase final da vida dos jogadores, já aposentados e doentes, para daí contarem sua história. A tendência maior é a da crítica, o que torna Heleno e Garrincha personagens tristes de épocas importantes do futebol brasileiro. Mas a história do que ambos fizeram em campo mostra que eles não foram apenas isso.

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