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Publicado em: 21/03/2013

Uma aula sobre produção de fármacos inovadores e política

Lécio Augusto Ramos 

           
      O evento lotou o auditório da Academia Brasileira de Ciências

O ano era 1989, meses depois de o Congresso Nacional ter promulgado a Constituição. Um debate sobre produção de medicamentos, reunindo pesquisadores, usuários do sistema de saúde e empresários do setor farmacêutico lotava o auditório da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. Foi então que Carlos Fernando Gross, do Laboratório Gross, iniciou sua apresentação, dizendo que estava ali para ganhar dinheiro. A afirmação foi rechaçada por vaias que o impediram de completar o raciocínio, dizendo que precisava de dinheiro para investir em infraestrutura, novos medicamentos, gerar empregos, entre outras coisas.

A cena, descrita pelo próprio Gross no auditório lotado da Academia Brasileira de Ciências (ABC), nesta terça-feira, 19 de março, durante o seminário "Como avançar na cadeia de fármacos inovadores?", desta vez levou o público a gargalhadas. E nos fez lembrar que, hoje, passados quase 25 anos, pesquisadores, dirigentes governamentais e empresários do setor estão reunidos num encontro para procurar entender os gargalos que impedem que o País desenvolva medicamentos inteiramente nacionais, as motivações de cada um dos envolvidos e, por meio do diálogo, buscar interesses comuns.

Lécio Augusto Ramos 
               
 A mesa de abertura do seminário: Rex Nazaré (E), Ruy Marques,
Gustavo Reis Ferreira, Jacob Pallis, Jerson Lima e Eliete Bouskela
Presente à abertura do seminário, o secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Gustavo Reis Ferreira, destacou que, com o seminário, a Fundação deixava apenas de disponibilizar recursos para também contribuir com o debate sobre um tema fundamental. "Espero que possamos sair daqui com algumas soluções no desenvolvimento de fármacos, que necessitam de investimentos altos e de risco", afirmou Ferreira. Já o presidente da FAPERJ, Ruy Garcia Marques, destacou o auditório cheio, com representantes de diversos setores, com destaque para o grande número de estudantes de pós-graduação, e concordou com as palavras do secretário. "O objetivo do evento foi reunir os diferentes atores da produção de fármacos para que possamos encontrar as soluções para resolver os gargalos do setor", lembrou Marques. "A ideia é que saia daqui um documento, que em breve será disponibilizado em nosso site para orientar pesquisadores e profissionais da área, apontando caminhos e soluções", complementou.

Como lembrou o presidente da ABC, Jacob Pallis, a organização de um evento para aproximar os pesquisadores do setor empresarial teve início há três anos, numa parceria da FAPERJ com a ABC, no Simpósio Academia-Empresa, durante a primeira Feira de Ciência, Tecnologia e Inovação promovida pela Fundação. "Certamente esse debate contribuirá para o surgimento de novos editais e programas orientados que contribuam para tornar o Rio de Janeiro líder do setor nacional de inovação", afirmou o diretor científico da Fundação, Jerson Lima Silva, que acrescentou ainda que a Fundação realizará outros seminários, previstos para acontecer ao longo do ano.

Num dia de intensos debates, um dos palestrantes, o diretor de Farmanguinhos Hayne Felipe resumiu uma solução de consenso para a questão dos fármacos: "A locomotiva para vencer os gargalos do setor é o investimento privado. Precisamos criar um mecanismo, seja de capital nacional ou internacional para aumentar os recursos na área", sintetizou o pesquisador.

Lécio Augusto Ramos 

           
      O moderador da manhã, Vitor Ferreira (C) e os debatedores:
       Antonow (E), Paes de Carvalho, Soalheiro e Jesus Barreiro


Presente à mesa de abertura do evento, o diretor de Tecnologia da FAPERJ, Rex Nazaré Alves, foi outro que procurou responder à pergunta-título do evento, lembrando-se do ano de 1979 – quando havia sido convidado para desenvolver projetos estratégicos para o País. "Na época, o então presidente João Figueiredo sinalizou que um país que não tivesse energia, comida e fármacos, não teria condições para se desenvolver" afirmou Nazaré Alves.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), assessor da diretoria científica da FAPERJ, organizador do seminário e moderador do debate na parte da manhã, Vitor Francisco Ferreira, a importância do evento foi apontar caminhos para os problemas do setor, para que, junto ao governo do estado, a Fundação possa atuar de forma mais efetiva. Presidente eleita do Conselho Superior da FAPERJ (tomará posse na próxima reunião do Conselho, programada para o próximo dia 22 de março) e secretária geral da Academia Nacional de Medicina (ANM), Eliete Bouskela destacou o debate como de extrema importância para o futuro do País.

Pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e representante da empresa Extracta Moléculas Naturais, Antonio Paes de Carvalho chamou a atenção para as enormes possibilidades de se explorar a rica biodiversidade no Brasil, considerada como a maior do mundo. "O mercado de medicamentos produzidos no país com moléculas extraídas de plantas – os fitomedicamentos – movimenta R$ 400 milhões e cresce a uma taxa de 15% ao ano, enquanto os remédios sintéticos crescem a 5%. Esse crescimento na área de fitomedicamentos poderia ser ainda maior se não houvesse tantas dificuldades para a exploração do potencial de recursos naturais da nossa flora", explicou Paes de Carvalho. Outra solução, apresentada pelo gerente geral da Redefac/Inca – programa do Ministério da Saúde de gestão em rede para pesquisas sobre câncer – Dyeison Antonow foi a transposição de práticas do setor privado para o público, mediante a criação de um Código Nacional de Inovação, em tramitação pelo Congresso. "Um conjunto de leis, que incluiria diversos temas, como a dispensa de processos licitatórios em caso de transferência automática de tecnologia a incubadoras e spin-offs ligados a instituições de ciência e tecnologia (ICTs). Isso, claro, após acordo de participação societária da ICT incubadora com o pesquisador", disse Antonow.

Lécio Augusto Ramos 
Moderador da tarde, Jerson Lima (C), e os palestrantes: Hayne
Felipe (E), Carlos Peregrino, Pedro Palmeira e Carlos Fernando Gross        
   

Professor de Farmácia da UFRJ e coordenador do Instituto Nacional de C&T em Fármacos
Inovadores (INCT- Inofar), Eliezer Lacerda de Jesus Barreiro destacou a importância das redes de pesquisa e dos cientistas, que sintetizam moléculas e conseguem passar da fase da pesquisa de bancada para os ensaios de toxicidade. "No INCT-Inofar tivemos uma experiência muito rica no desenvolvimento de projetos em rede, conseguindo cadastrar 1.874 moléculas em ensaios pré-clínicos já realizados", afirmou Barreiro. Apesar disso, ele lamentou a carência de profissionais capacitados a descobrir novas moléculas. "No estado do Rio, temos 20 INCTs e a maior parte deles é na área de saúde. Apesar disso, em toda a América Latina, somente na UFRJ há um programa de pós-graduação com o nome explícito de Química Medicinal e Farmacologia", complementou.

Para o vice-presidente da Nortec Química, Marcos Soalheiro, outro ponto importante é a articulação dos diferentes atores na produção de fármacos inovadores. Ele lembrou que, na década de 1990, mais de mil laboratórios de química fina foram fechados no país. "Poderíamos criar um programa que levasse as empresas a trabalharem com os acadêmicos e que depois os pesquisadores também atuassem nas empresas", destacou Soalheiro. O diretor do Departamento de Fármacos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Defarma/BNDES), Pedro Palmeira, falou sobre os investimentos feitos pelo banco no setor. "O BNDES tem atualmente uma carteira de investimentos em projetos que gira em torno de R$ 3 bilhões, dos quais 86% estão concentrados na indústria farmacêutica", apresentou Palmeira.

Representando o presidente do Instituo Vital Brazil (IVB), o professor de Farmácia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carlos Peregrino, falou sobre a experiência da implantação do Laboratório de Desenvolvimento de Novas Formulações (LDNF) da universidade no Parque Tecnológico da Vida, no campus do IVB. "Como não temos dinheiro nem infraestrutura para investir na produção de medicamentos em escala industrial, resolvemos nos focar em buscar soluções tecnológicas para empresas do setor." E em menos de dois anos, os resultados têm sido promissores: o LDNF está trabalhando com quatro empresas de complementos nutricionais e com outra de suplementos à base de cálcio. E ainda estão fechando convênio para a desenvolver um novo produto.

O seminário teve intensos e acalorados debates após as apresentações. Pesquisadora de Farmanguinhos/Fiocruz, Núbia Boechat resumiu bem o sucesso do evento. "Os gargalos no setor são vários. O ideal seria que pudéssemos estender as discussões sobre cada um deles, em dias diferentes, até encontrarmos os consensos", afirmou.

Numa avaliação do evento, o presidente da FAPERJ comentou: “Esta é uma atividade da Fundação que estamos inaugurando, mas que mostrou que estamos no caminho certo, haja vista o grande interesse que despertou, não somente da comunidade acadêmica, com seus pesquisadores e alunos, mas também do setor empresarial. Vamos, agora, compilar os dados apresentados, no intuito de fazer uma síntese que será disponibilizada a todos. A partir daí, poderemos refletir sobre ações que possam minimizar ou mesmo superar alguns dos gargalos discutidos”. E acrescentou: “Quero agradecer ao professor Vitor Ferreira, que foi muito hábil na preparação do seminário e, claro, agradecer a presença de todos, que tornaram de grande utilidade a atividade que idealizamos. No próximo mês de abril, teremos novo seminário, também no auditório da ABC, dessa vez discutindo a internacionalização da pesquisa e das atividades da FAPERJ.”

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