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Publicado em: 16/02/2012

Abram alas para a Lapa

Elena Mandarim

 

 Divulgação / UFRJ

          
      Micael Herschmann acredita que a revitalização da Lapa
    pode ser um modelo de como ampliar o mercado da música
 
“O chefe da folia pelo telefone manda me avisar que com alegria não se questione para se brincar.” O trecho do primeiro samba gravado, Pelo telefone, de autoria de Donga, ilustra bem o espírito do carnaval carioca, classificado pelo Guinness Book como o maior do mundo. Nos quatro dias de folia, o samba vira o principal destaque e embala multidões, não só na Marquês de Sapucaí mas também nas centenas de blocos de rua. De raízes africanas, o gênero musical, que teve origem no Recôncavo Baiano, chegou ao Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, se expandiu e ganhou fama mundial. De acordo com Micael Maiolino Herschmann, da Escola de Comunicação, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), o samba, juntamente com o choro, foi também um dos fatores que contribuiu para a revitalização da Lapa, no final do século XX. 

Cientista do Nosso Estado da FAPERJ e com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Herschmann desenvolveu um projeto para entender como a oferta de shows ao vivo mais o cultivo do sentimento de raiz podem ser uma alternativa para a indústria da música. No caso, ele se dedicou a observar o circuito do samba e choro na Lapa. “O mercado fonográfico está em crise tanto por causa da pirataria quanto porque as pessoas se recusam a pagar muito por um conteúdo que podem ter de graça na rede. Entendemos que o caminho para o sucesso passa pela busca de cumplicidade com o consumidor, o que é alcançado, principalmente, por meio das apresentações ao vivo”, opina o pesquisador.

O mais relevante, segundo Herschmann, foi observar que a revitalização da Lapa se deu a partir da articulação espontânea de empresários locais com produtores musicais e com os próprios artistas, principalmente, os independentes – que não estão associados a uma gravadora. “As disposições físicas – restaurantes, casarões antigos, antiquários, entre outros – sempre estiveram lá, o que faltava eram novas propostas para usá-las. Em vez do poder público ser o protagonista do processo, como ocorreu na Cidade do Samba, os próprios atores da Lapa investiram em iniciativas para promover atrações culturais variadas, como os shows e as rodas de samba”, exemplifica.

Herschmann ressalta que, no contexto de globalização, é interessante constatar que, cada vez mais, há uma busca pelo que ele chama de “experiência de brasilidade”, neste caso, oferecida pelo dueto samba mais Lapa. Para ele, apostou-se no samba e no choro para atrair o público, porque esses ritmos sempre foram identificados como ‘música de raiz’. O que somado ao fato de se estar no coração do Rio antigo, carregado de símbolos da identidade nacional, cria no imaginário popular a ideia de que desfrutar dos atrativos culturais da Lapa seria uma experiência autêntica de ser brasileiro. “Esse simbolismo ultrapassa os limites do Rio de Janeiro, tanto que observamos turistas de outras cidades do Brasil e do mundo em busca dessa experiência de brasilidade.”

À medida que aprofundava a sua pesquisa, Herschmann também analisou as relações sociais que se constroem nesse universo cultural. A mais relevante foi o fenômeno do apadrinhamento que, entre os sambistas, não tem conotação negativa. “O samba e o choro estão associados à ideia de uma produção cultural de raiz. Portanto, o apadrinhamento é uma maneira de um músico marcar sua linhagem, consolidando suas tradições. Quando o Zeca Pagodinho, por exemplo, cita a Beth Carvalho como madrinha, está na verdade querendo marcar certa linhagem e, consequentemente, um lugar no mercado. O padrinho, por sua vez, também se beneficia da relação, pois, ao servir de referência, tem sua obra perpetuada e entra para a história.” Todas as reflexões foram reunidas no seu livro Lapa, cidade da música, publicado em 2007 pela Editora Mauad X.

 Renata Vidal / Stock Photo
  

Numa das áreas mais antigas da cidade, com um passado de boêmia, a
Lapa permanece no
imaginário popular como experiência de brasilidade  

Localizada no centro do Rio, em torno de uma das regiões históricas mais importantes da cidade, o bairro que rodeia os Arcos da Lapa estava, desde os anos 1980, em processo de estagnação, apesar de todo seu passado glorioso relacionado à boêmia e a algumas propostas esparsas de investimentos por parte das autoridades. Herschmann conta que foi a partir de 1995 que a região começou a se transformar nesta grande vitrine da música brasileira, em especial, do samba e do choro. “Já em 2004, havia ali mais de 116 estabelecimentos de música, teatro, gastronomia, antiguidades e turismo, atraindo, em média, 110 mil pessoas por semana e gerando uma economia de aproximadamente R$ 14,5 milhões por mês”, relata o pesquisador, ressaltando que esse cenário atraiu principalmente os jovens de classe média, com alto nível de escolarização e de informação, para aquela área.

Para o pesquisador, não é apenas coincidência o fato da explosão do fenômeno de blocos carnavalescos ter ocorrido logo após a revitalização da Lapa. “As iniciativas, por exemplo, para a criação do Simpatia é Quase Amor e Suvaco do Cristo, com objetivo de se retornar o carnaval de rua no Rio de Janeiro, datam da década de 1980. Contudo, somente no início dos anos 2000 é que se observa um significativo aumento tanto do público nos blocos já existentes quanto do número de novos blocos, que, este ano, já passa dos 450. Acreditamos que isso tenha relação com o fato de que o grupo jovem que passou a frequentar a Lapa se habituou ao samba e passou não só a consumir o ritmo como também a reproduzi-lo”, explica o pesquisador.


Ele acredita que o sucesso do tradicional reduto da boêmia carioca é um exemplo a ser seguido, a fim de que se ampliem os horizontes da indústria cultural local. “O Rio tem condições de aproveitar seu enorme potencial de fomentador da produção audiovisual, do cinema, da música, da televisão e das artes em geral”, aposta Herschmann e conclui: “É preciso pensar a cultura como estratégia de crescimento, uma vez que ela abre caminho para a geração de empregos, ampliação de renda e cidadania.”

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