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Publicado em: 24/09/2009

Novo estudo pode levar a reorientar política de tratamento de Aids no Brasil

Vinicius Zepeda

 Divulgação

        
    Etapas de replicação do HIV nas células onde o coquetel atua
Pesquisadores brasileiros acabam de concluir o mais completo levantamento desenvolvido no País acerca da resistência primária ao tratamento com medicamentos antiretrovirais. Ou seja, aquela que ocorre quando os medicamentos não fazem efeito em pacientes que iniciaram o tratamento com as drogas. Ao todo, o estudo contou com a colaboração de pesquisadores de 20 diferentes centros de pesquisa e atendimento a portadores de HIV/Aids, abrangendo 400 pacientes de 13 diferentes cidades brasileiras, representando oito estados e quatro das cinco macrorregiões brasileiras. De acordo com o estudo, coordenado pelo pesquisador e Cientista do Nosso Estado da FAPERJ Marcelo Soares, a resistência primária encontrada foi em torno de 7%. Para Soares, este dado poderá levar o Sistema Único de Saúde (SUS) a modificar a política pública de tratamento de Aids (síndrome de deficiência imunoadquirida) no Brasil, além de auxiliar no combate à doença pelo mundo.

 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que seja feito o teste de genotipagem – que identifica a quais drogas presentes no coquetel de medicamentos de combate à Aids, o HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) oferece resistência – quando a população infectada tem mais de 5% de resistência primária. Nos países desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos, onde os índices de resistência primária são bem maiores – em torno de 9% a 16% – o teste é feito logo que a pessoa é diagnosticada com HIV/Aids – independente de apresentar sintomas ou não. No Brasil, que há 12 anos mantém uma política, que é referência em todo o mundo, de acesso universal e gratuito ao coquetel, o portador do vírus só faz o teste de genotipagem quando, já em tratamento, apresentar resistência aos medicamentos. “Com os resultados que obtivemos e seguindo a recomendação da OMS, poderemos orientar o SUS a realizar o teste antes do início do tratamento”, explica Soares.

 

Os vinte centros de pesquisa e atendimento a portadores de HIV/Aids que tiveram pacientes envolvidos no levantamento foram distribuídos nas seguintes cidades: Ribeirão Preto, Santo André, Santos, Campinas (2), São Paulo (6), Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre (2), Salvador e Brasília. O resultado do estudo gerou um artigo, publicado no volume 25, n 9 da revista científica americana de renome internacional Aids Research and Human Retroviruses, destinada exclusivamente à publicação de artigos científicos sobre pesquisas relacionadas à doença e retrovirus. Marcelo Soares destaca ainda outras conclusões do estudo, como a identificação dos mecanismos de resistência primária encontradas nas formas genéticas do HIV (que vão das letras A a K em todo o mundo) encontradas no levantamento: os subtipos B e C. “As principais mutações observadas foram de inibidores de protease (1%), para os inibidores não-nucleosídicos da transcriptase reversa (4,4%) e para os inibidores nucleosídicos de transcriptase reversa (1,3%)”, explica Soares.

 

Ele acrescenta que o subtipo B é o prevalente no Brasil, na Europa, Estados Unidos, Japão e Austrália e, por afetar principalmente populações de áreas ricas, é o tipo mais estudado. Mas o total de infectados por esta variante é de apenas 14% do total do mundo. "Este subtipo foi o que apresentou a maioria de pacientes com resistência primária: 91% das cepas resistentes. Ele foi encontrado principalmente na região Sudeste e a cidade de São Paulo foi a que registrou o maior número de pacientes com resistência primária”, afirmou Soares. “Este dado já era esperado, pois São Paulo foi a primeira cidade do País a ter acesso ao tratamento com antiretrovirais e conta com o maior número de pacientes já em tratamento e há mais tempo em todo o Brasil. Desta forma, era de se esperar que eles estivessem mais propensos a desenvolver resistência a algum dos medicamentos do coquetel antiAids”, complementa.

 

Vinicius Zepeda 
   
Para Marcelo Soares, resultados do estudo
poderão reorientar política anti Aids no País

Já na região Sul, foi identificada prevalência do subtipo C, que apresenta resistência primária em números bem menores. Para Marcelo Soares, o estudo dos mecanismos de resistência dos subtipos do HIV, principalmente do C, será útil não somente para o Brasil, mas também para outros países. Segundo ele, o Sul do País é possivelmente o único lugar do mundo onde o tipo C já foi exposto aos medicamentos do coquetel por longos períodos. O subtipo é o mais comum no mundo, sendo responsável por metade de todas as infecções por HIV, cerca de 20 milhões. “É típico de países africanos ao sul do deserto do Saara, que abriga 2/3 das infecções do planeta. Além disso, é o tipo encontrado na Índia, país com número crescente de infecções pelo HIV. É muito importante entendermos as características desta variante do vírus, pois quando é introduzido em uma população em que não ocorria antes, ele passa a prevalecer na epidemia da região”, explica Soares. “Apesar do tipo C ser o mais frequente no mundo, pouco ainda se sabe acerca de suas características biológicas, principalmente acerca da eficácia da resposta terapêutica do coquetel nos pacientes infectados”, destaca.

 

Por último, Soares explica que a resistência primária foi quase três vezes maior naqueles pacientes contaminados por parceiros infectados já em tratamento antiretrovirais. Embora isso também seja previsível, os dados apontam uma necessidade de se intensificarem os programas de prevenção, principalmente o uso de preservativos, entre parceiros sorodiscordantes.

 

O artigo publicado na Aids Research and Human retroviruses ganhou o título de Primary Antiretroviral Drug Resistence among HIV Type 1-Infected Individuals in Brazil. Além de Marcelo Soares, o artigo foi assinado pelos pesquisadores Eduartdo Sprinz, Eduardo M. Netto, Maria Patelli J. S. Lima, Juvêncio J. D. Furtado, Margaret da Eira, Roberto Zajdenverg, José V. Madruga, David S. Lewi e Rogério J. Pedro.

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