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Publicado em: 09/10/2008

Atual e moderno: Machado de Assis ganha novas versões em hipertexto


Vilma Homero

                                                                                         ABL      

    
    Machado de Assis, em tela do pintor Henrique Bernardelli
   


Apesar de declaradamente um homem cético, o autor de Brás Cubas faz em sua obra numerosas citações à Bíblia, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. São de longe as alusões mais freqüentes em seus livros. É mais um dos aspectos curiosos sobre o escritor carioca que a pesquisadora Marta de Senna, da Casa de Rui Barbosa, abordará em congresso na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Mas não será apenas em Yale que os cem anos da morte do Bruxo do Cosme Velho serão lembrados. Machadianos de diversos países se reunirão em seminários e congressos em diversas universidades nacionais e estrangeiras, mostrando que o escritor, que pouco saiu do Rio de Janeiro, é também bastante reverenciado no exterior.

Professora de Teoria Literária e Literatura Comparada, Marta de Senna estará presente em algumas dessas comemorações. Com apoio da Faperj, ela embarcou semana passada para os Estados Unidos, onde estará entre os vários especialistas estrangeiros – um deles falará, inclusive, sobre a recepção dos livros do autor brasileiro nos Estados Unidos – que apresentarão palestras sobre os diferentes aspectos da obra machadiana na American Portuguese Studies Association, na Universidade de Yale. "Tudo isso mostra como Machado se tornou conhecido no mundo inteiro e o quanto sua obra também é respeitada fora do Brasil", comenta Marta. O que não lhe causa surpresa. "Machado convive, em patamar de igualdade, com o melhor da literatura mundial, até a sua época. O que equivale compará-lo a Camões, Homero, Dante", fala.

Opinião compartilhada pelo crítico lusitano Abel Barros Batista, que afirma a alto e bom som que o brasileiro Joaquim Maria Machado de Assis é o maior romancista da língua portuguesa. Um polêmico elogio para quem nasceu na terra de Camões. Segundo Marta, outro a declarar sua admiração é o escritor americano John Barth, que chegou a afirmar que toda sua concepção literária mudou após a leitura de Machado de Assis. O centenário do fundador da Academia Brasileira de Letras tem mesmo despertado manifestações da comunidade acadêmica internacional. Tanto que universidades como a de Princeton, nos Estados Unidos, homenageiam este ano o mérito literário do Bruxo do Cosme Velho em grandes eventos. Como estudiosa de sua obra, Marta foi convidada a fazer duas palestras na Universidade de Princeton, uma no Programa de Estudos Latino-Americanos e outra para os alunos de pós-graduação em Literatura Brasileira. Ela estará ainda nas comemorações nas universidades de Chicago no início do próximo ano.

Se vivo fosse, Machado talvez ficasse encabulado com tantas celebrações em torno de seu nome. Sempre discreto, pouco se sabe sobre sua vida pessoal. Depois de haver concluído a formação de uma base de dados, disponibilizada no site de busca da Internet (www.machadodeassis.net), a pesquisadora reuniu uma quantidade enorme de material. O site, iniciado em 2005 com recursos do CNPq, só foi ao ar oficialmente em 2008. Mas deu à pesquisadora a idéia de fazer o desdobramento do projeto, desenvolvendo, com apoio de um APQ1, da FAPERJ, a edição dos nove romances do autor de Dom Casmurro, e em seguida de seus contos, como hipertexto.

"Essa também está sendo uma forma de se utilizar todo o material que não pôde ser inicialmente aproveitado no site. Muitas informações que não cabia ser incluídas no banco de dados entrarão nos balões explicativos do hipertexto. Isso permitirá incontáveis desdobramentos", explica. O que está sendo feito com a ajuda de dois bolsistas, Marcelo Diego (de Letras) e Camila Abreu (de História), mais um técnico em informática e contará, em breve, com dois novos e modernos computadores.

O autor mais citado em seus romances é o inglês Shakespeare, com 131 citações, seguido por Homero, Camões e Dante, nesta ordem. "Vindo de um background humilde, filho de um liberto e de uma lavadeira (ou costureira, segundo alguns) portuguesa, percebe-se que sua capacidade de assimilar conhecimentos é excepcional", comenta a pesquisadora. Sua origem pobre e o fato de que Machado teve seus primeiros escritos publicados aos quinze anos sempre intrigaram os estudiosos, que muito especulam a respeito.

      Marc Ferrez
           
     A Rua do Ouvidor era um dos passeios
     preferidos do autor de
Dom Casmurro  
Pistas sobre sua vida ajudam a conhecer sua obra e vice-versa. Para Marta, com base no que se conhece sobre Machado, pode-se imaginar que seu domínio da literatura indica que, apesar da origem socioeconômica, sua família tinha acesso a livros.
"Só o fato de seus pais serem alfabetizados já os coloca numa certa elite, já que grande parte da população, fossem escravos, fossem brancos livres, não sabia ler", fala. Outra hipótese é sobre sua madrinha, proprietária da chácara do Livramento, onde os pais eram agregados. "Viúva de um senador do império, ela provavelmente identificou nele um talento precoce e é possível que lhe tenha permitido acesso a sua biblioteca", fala.

Talvez até sua ajuda tenha ido um pouco além. O domínio dos idiomas francês e inglês, que Machado demonstra desde cedo e que lhe possibilitou tornar-se um bom tradutor de obras de Dickens, Vitor Hugo e Poe, também indica que a madrinha pode ter lhe proporcionado aulas e livros.

A favor dessa hipótese, Marta cita a passagem que aparece em uma das novelas de Machado, Casa Velha, que seus biógrafos dizem ter sido inspirada na casa da madrinha. No livro, uma cena que acontece na biblioteca pode sinalizar para uma biblioteca com a qual Machado teria tido contato desde criança. "Talvez o temperamento reservado e orgulhoso de Machado o tenha impedido de revelar o quanto foi beneficiário da estrutura do "favor", que vigorava à sua época. Como agregados da chácara do Livramento, seus pais, e principalmente o jovem Machadinho, deviam ter certas regalias", acredita Marta.

A pesquisadora especula ainda que à medida que vai ganhando maturidade como escritor, seus livros também vão ganhando um sotaque cada vez mais lusitano. "Memorial de Aires é o romance em que esse sotaque português é mais forte. O fato de ter tido uma mãe portuguesa talvez contribuísse para essa pureza no idioma", admite. Todas essas hipóteses são formuladas a partir do cruzamento das informações que vêm sendo minuciosamente coletadas e analisadas pela pesquisadora para o banco de dados e incluídas no hipertexto. "Esse é um trabalho que não termina nunca", resume Marta.

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