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Publicado em: 21/02/2019

Estudo analisa revistas que ajudaram a construir a identidade nacional no século XIX

Débora Motta

Vitrines da sociedade letrada no Império: reproduções de um exemplar da Revista
do IHGB, de 1856, e da Revista Nitheroy, que teve apenas dois números, em 1836

A primeira metade do século XIX foi um período marcado por intensas transformações políticas no Brasil, decorrentes de fatos históricos como a transferência da Família Real de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808, e a Proclamação da Independência, em 1822, por Pedro I. O recém-criado Estado Imperial, que representou o fim do domínio da Coroa portuguesa sobre o território colonial brasileiro, trazia consigo o desafio incontornável da definição de uma identidade nacional própria. Nesse contexto, qual foi o papel da intelectualidade brasileira para a manutenção do projeto político do Império? Para investigar essa questão, a historiadora Ana Beatriz Demarchi Barel estudou, em sua pesquisa de pós-doutorado, desenvolvida na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), a contribuição da Revista do IHGB – o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – e da Revista Nitheroy.

“A Revista do IHGB e a Revista Nitheroy foram importantes veículos de difusão do pensamento da elite imperial. Elas estruturaram um projeto cultural para a fundação de um Brasil autônomo em relação a Portugal”, explicou Ana Beatriz, que foi contemplada com uma bolsa de pós-doutorado sênior da FAPERJ para a realização desse estudo, de 2013 a 2014, sob orientação do professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Manolo Garcia Florentino, então presidente da FCRB. “Enquanto a Revista Nitheroy ajudou a lançar os alicerces da identidade nacional do Estado Imperial na política externa, a Revista do IHGB foi porta-voz da política interna de Pedro II, tendo sido um braço das elites que conduziam estratégias para a consolidação do Estado no cenário nacional”, completou.

Iniciativa de um grupo de jovens intelectuais e diplomatas brasileiros – Domingos José Gonçalves de Magalhães, Francisco de Sales Torres Homem e Manuel de Araújo Porto-Alegre –, a Nitheroy, Revista Brasiliense é considerada pelos historiadores da Literatura brasileira como um dos marcos da instauração do Romantismo no País. Com o lema “tudo pelo Brasil e para o Brasil”, ela teve apenas dois números, publicados em 1836, em Paris, na ocasião em que os jovens foram adidos da representação diplomática brasileira na França. Os três fundadores da revista assinaram artigos, além de estudiosos de diferentes áreas do conhecimento, revelando que a publicação tinha a intenção de se afirmar como porta-voz de um país promissor, independente e em dia com as teorias em curso na Europa. "O artigo de maior destaque da Nitheroy é um texto-manifesto que inaugurou o Romantismo como escola literária no Brasil. Esse movimento tinha como características o nacionalismo e a exaltação da identidade brasileira e a Nitheroy se define como um documento diplomático, uma declaração de intenções na qual o Brasil se expunha como uma grande nação em devir, e seguidora dos ideais da liberdade e da grande mestra que é, nesse momento histórico, a França. Assinado por Gonçalves de Magalhães, o Ensaio sobre a história da literatura no Brasil foi publicado no primeiro número da revista, que tinha mais de 400 páginas”, contextualizou a historiadora, que atualmente é professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Mas o leque de temas abordados na publicação ultrapassou o domínio da literatura, incluindo também assuntos ecléticos, como Astronomia (ensaio sobre cometas), crédito público, relações comerciais entre o Brasil e a França, reflexões pelo fim da escravatura, sobre o cultivo do açúcar e a literatura hebraica. “A Nitheroy é uma coletânea de artigos escritos sobre temas diversos, como filosofia da religião, música e artes, além da literatura. Era um esforço de homens letrados para inserir a nação recém-independente em um projeto civilizatório”, completou Ana. A pesquisadora organizou uma edição fac-similar da Revista Nitheroy, acompanhada de textos críticos e CD-ROM, lançada em 2006 pela editora portuguesa MinervaCoimbra.

Ana Barel: para pesquisadora, revistas
ajudaram a forjar a identidade nacional
no século XIX 
(Foto: Divulgação)

Já a Revista do IHGB, fundada em 1839, ainda está em circulação, sendo uma das mais longevas publicações especializadas do mundo ocidental. “A Revista do IHGB foi uma vitrine do Império. Reunia artigos publicados por magistrados, políticos do primeiro escalão e grandes nomes da literatura produzida pelo Romantismo brasileiro, como os escritores Gonçalves Dias, José de Alencar e Gonçalves de Magalhães. Era um braço ideológico do Estado imperial, tanto na cultura, como na política e na religião”, elencou a pesquisadora. “O grupo ligado ao IHGB tinha a ideia de começar a preservar a história do Império, para documentar a fundação da nação. Daí os textos da revista, voltados para a condução da administração pública e da cultura brasileiras”, completou Ana, que cursou seu doutorado em Letras (Literatura Brasileira) pela Université Sorbonne Nouvelle – Paris III, na França.

O projeto de pós-doutorado de Ana teve como desdobramento a realização do seminário “Estado, Cultura, Elites (1822-1930)”, na FCRB, em 2014, que reuniu diversos pesquisadores palestrantes, entre eles, o historiador francês Roger Chartier, professor emérito no Collège de France, com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC). A partir dos temas abordados nas palestras, foram elaborados artigos, reunidos no livro Cultura e Poder entre o Império e a República: Estudos sobre os imaginários brasileiros (1822 – 1930). Lançada em 18 de dezembro de 2018 pela editora Alameda, a obra foi organizada por Ana Beatriz e por Wilma Peres Costa, sua colega, professora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Na publicação, Ana assina o artigo “A revista do IHGB e a construção do cânone literário do Império do Brasil”.

O lançamento do livro, no Rio, será realizado no dia 10 de abril de 2019, na sede do IHGB (Av. Augusto Severo, nº 8,12º andar, na Glória, Zona Sul do Rio), às 15h. Na capital paulista, a coletânea teve lançamentos recentes, no final de 2018, na Casa das Rosas e na Editora Alameda. Também houve lançamento no Museu do Café, em Campinas (SP), cidade que foi um importante centro republicano no século XIX e grande região produtora de café, que era conhecido como o Ouro Verde do País.

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