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Publicado em: 29/03/2007

Pesquisa da UFRJ estuda pequenos mamíferos da Mata Atlântica

Vilma Homero


 Maja Kajin

 
 Equipe recolhe animais em armadilhas na
 mata do Garrafão, na Serra dos “rgãos

As estratégias de sobrevivência de determinados animais às vezes surpreendem leigos e pesquisadores. Certos tipos de roedores e algumas espécies de marsupiais, por exemplo, conseguem viver mesmo nos ambientes devastados depois da derrubada de uma floresta. Alguns, como o gambá, podem até sair beneficiados, uma vez que a situação leva seus predadores a se afastarem. Essa foi uma das conclusões da pesquisa Biologia de Populações de Mamíferos da Mata Atlântica do Rio de Janeiro, em que o professor Rui Cerqueira Silva, apoiado pelo programa Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, vem coletando, observando e analisando pequenos exemplares da fauna silvestre da região do Garrafão, área que integra  o Parque Nacional da Serra dos “rgãos, interior fluminense. O estudo científico, que compreende vários trabalhos paralelos e vem sendo desenvolvido há 11 anos, segundo o pesquisador, é um dos mais longos da América Latina e o de maior duração no Brasil.

Essa longevidade é importante, embora não se compare a estudos que vêm sendo realizados há 40, 50 anos em países como Alemanha ou Inglaterra. Trabalhos de tamanha duração permitem que os especialistas acompanhem com maior exatidão mudanças demográficas em espécies animais de determinada localidade. É o que está fazendo Rui Cerqueira, PhD, professor titular do Departamento de Ecologia, do Instituto de Biologia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ali funciona o maior laboratório de mamíferos da América Latina. O foco do professor são marsupiais, roedores e outros pequenos mamíferos originários da Mata Atlântica fluminense. "Nossos estudos têm abordagem populacional. É uma forma de se fazer biologia das populações, com vários trabalhos interligados", explica.

A pesquisa tem dois momentos. Um deles de observação do comportamento reprodutivo, do desenvolvimento e estratégias de vida dos animais em laboratório. Outro, de coleta e estudos de campo. "As armadilhas alinhadas em determinados pontos do parque nos servem não apenas para a coleta dos animais que serão trazidos para o laboratório, mas também para a captura daqueles que, já marcados com brinco, serão apenas pesados, medidos, terão colhidas amostras de sangue para estudos genéticos, como forma de continuidade ao nosso acompanhamento. No caso dos marsupiais, verificamos ainda as bolsas para descobrir a presença, ou não, de filhotes. Os que não têm bolsa costumam deixar os filhotes em ninhos", explica.

Maja Kajin

 
Os animais capturados são pesados, medidos e têm colhidas amostras de sangue.
Com esse acompanhamento, observam-se hábitos e deslocamentos dos grupos 

Esse acompanhamento com coleta mensal de dados em campo permite saber por onde os bichos andam, constatar as alterações nos grupos, estimar quanto tempo vivem. Dados de observação dos animais em seu habitat que são rotineiramente comparados com as informações colhidas na vivência dos animais em laboratório, para se verificar possíveis diferenças. Para os marsupiais, os hábitos alimentares se mantêm basicamente os mesmos, especialmente em relação a nutrientes, como proteínas.

"Estudos instantâneos, que procedem à captação de dados num certo momento  como o da captura de animais , quando feitos simultaneamente em diversos locais podem dar aos especialistas uma idéia de como cada uma das espécies se comporta no estado todo, por exemplo", explica o pesquisador.

Os pesquisadores já conseguem estimar o número de animais por área

Outra descoberta interessante do trabalho foi que, a partir de informações como o estágio da dentição, os pesquisadores viram que é possível estabelecer com bastante exatidão a idade dos animais. "Em campo, isso nos ajuda a estabelecer uma demografia - estimar o número de animais por área - para aquelas populações. Saber, por exemplo, que em dado grupo há tantos indivíduos adultos, nos permite estabelecer, a partir de modelos matemáticos das estruturas etárias, o número de animais de determinada espécie no local", fala Rui.

Para os especialistas, é importante entender como as populações de dada espécie aumentam ou diminuem e são substituídas pela próxima geração. Ou como a estrutura de determinado grupo é afetada quando há, por exemplo, liberação da caça ou outros agentes externos. Não é uma tarefa simples. "As populações não permanecem indefinidamente no mesmo lugar e isso acontece por fatores que nem sempre são fáceis de determinar. Dependendo do número de indivíduos de um mesmo grupo, da presença de predadores ou da oferta de alimentos, eles ficam ou migram para outros locais. Além disso, o ambiente natural muda sem parar e é difícil saber que alterações determinaram a migração de um certo grupo", diz. Segundo o pesquisador, estas constantes mudanças de um lado para o outro dentro da mesma região são condição de sobrevivência.

"Parecidos com camundongos, os arganaiz são roedores de aproximadamente 5cm e 40g, abundantes na região da Mata Atlântica, que gostam de lugares de mato fechado e ambientes perturbados. No primeiro ano de nossa pesquisa, eles apareceram numerosos. Mas não voltamos a vê-los nos anos posteriores, o que não quer dizer necessariamente nada de grave. São mudanças que estão dentro do esperado", fala.

 Arquivo pessoal

 
A pesquisa do professor Rui
Cerqueira é feita há 11 anos
Já os gambás são outro caso de interesse, uma vez que estudo feito nos últimos sete anos mostra que suas populações mantêm biomassa mais ou menos constante. Isso quer dizer que embora o número de animais do grupo varie, seu peso permanece aproximadamente o mesmo. Quando a população cresce, cada um deles emagrece, o peso individual de cada bicho diminui. Quando o número de animais se reduz, cada um deles engorda.

A própria presença de gambás é um indicador de que há poucos predadores de maior porte naquela área. Como eles também se alimentam de lixo, a vizinhança humana não os afeta. Pelo contrário, os favorece, até porque além de afastar outros predadores, serve como fonte de alimentos. Comedores de frutas e insetos, eles competem localmente com outros mamíferos pequenos. Se seu número cresce, eles acabam afastando pequenos marsupiais, como as cuícas, que ainda dependem de certas condições locais, como de matas mais fechadas.

"Numa floresta, há muitos ambientes diferentes, com muitos animais diferentes. Apesar da grande destruição da área de Mata Atlântica, temos visto que essa fauna vem sobrevivendo. Em compensação, no Rio, não temos registros da ocorrência de antas e outros animais maiores, como a onça pintada, há pelo menos 50 anos. O que não quer dizer que alguns raros exemplares ainda sobrevivam em terras mais afastadas, como o alto da serra. Claro que, nessas condições terão imensas dificuldades em se reproduzir, já que fêmea e macho dificilmente se encontrarão. Podem também ter se extinguido", fala. Tudo isso ainda são conclusões preliminares. Mas os estudos prosseguem, e com eles o professor Rui e sua equipe pretendem traçar um panorama cada vez mais acurado de toda aquela região.

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