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Publicado em: 29/12/2006

Estudo investiga solidariedade e cidadania nas favelas do Rio

Reportagem e fotos: Vinicius Zepeda

Tanto em favelas ocupadas por traficantes como por milícias, seus moradores vivem à margem da sociedadeFavelas ocupadas por traficantes vivem um cotidiano de instabilidade e de influência sobre crianças e adolescentes. Já no caso de favelas ocupadas por milícias - grupos armados formados por policiais, agentes de segurança e bombeiros, na ativa ou aposentados, que impedem o tráfico e cobram por proteção -, apesar da tranqüilidade, a passividade das pessoas é maior. Um exemplo é Rio das Pedras, situada em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro. As observações são do sociólogo Marcelo Burgos, da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica), contemplado pelo edital Direitos Humanos e Cidadania, da FAPERJ.

A pesquisa Análise da Construção da Cidadania e Solidariedade nas Favelas do Rio de Janeiro investigou durante dois anos o trabalho exercido por Organizações Não-Governamentais (ONGs) e escolas públicas em três favelas do município: Santa Marta, em Botafogo, Zona Sul da cidade; Nova Holanda, no bairro Maré, área suburbana, e Rio das Pedras, em Jacarepaguá, Zona Oeste. "No caso de Rio das Pedras, essa maior passividade ocorre porque o modelo das milícias é de controle sobre todas as estruturas de poder da comunidade como as escolas, associações de moradores e demais instâncias, tendo como benefício maior estabilidade e pacificação", explica. O sociólogo adverte, entretanto, que ambos os sistemas de poder - tráfico ou milícia - reiteram a favela como um local ainda à margem da sociedade.

A Nova Holanda foi uma das três favelas estudadas na pesquisa de Marcelo BurgosDe acordo com Burgos, os moradores das favelas estão submetidos a outras autoridades que não o poder público - como as milícias, em Rio das Pedras, e o tráfico de drogas, no morro Santa Marta e na Nova Holanda. "Neste ponto, as ONGs desempenham um papel muito importante: o de mediadoras da integração entre o espaço da favela e o asfalto", explica. Porém, segundo o pesquisador, há uma enorme falta de articulação entre os projetos que estas organizações desempenham nas comunidades. "É como se cada uma atirasse para um lado e, muitas vezes, repetisse um trabalho já desenvolvido por outra", acrescenta.


A falta de articulação entre os projetos destas organizações e o trabalho desenvolvido pelas escolas públicas também foi outro aspecto que chamou a atenção do pesquisador. O mais surpreendente para Marcelo Burgos, no entanto, foi descobrir a alta resistência encontrada pelas ONGs em desenvolver seus projetos. "De acordo com a percepção dos profissionais que entrevistamos, os moradores são bastante desconfiados e tendem a achar que as ONGs estão tirando proveito da comunidade".

Nos anos 90, houve uma crescente presença dessas organizações, formadas por pessoas vindas de fora das favelas em que passaram a atuar. Antes, estes projetos eram desenvolvidos mais por igrejas e entidades filantrópicas. "Para facilitar o trabalho, as ONGs passaram a recrutar para seus projetos, lideranças de dentro da própria favela", explica Burgos. "Por outro lado, também se verificaram projetos e ONGs criadas por moradores das próprias favelas como o Ceasm (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré), na Nova Holanda e a Sociedade de Educação e Promoção Social Grupo ECO, no Santa Marta" acrescenta.


A pesquisa

Em 2007, o sociólogo espera publicar um livro sobre a pesquisaAnálise da Construção da Solidariedade e da Cidadania nas Favelas do Rio de Janeiro é coordenada por mais dois sociólogos da universidade, as professoras Ângela Paiva e Sarah da SilvaTelles. "Nós orientamos o trabalho de campo de 13 alunos bolsistas do curso, divididos em três grupos, cada um responsável por realizar entrevistas com professores de escolas públicas e lideranças de ONGs de uma comunidade diferente", explica Burgos. Atualmente, a pesquisa está em sua etapa final. "Em 2007, haverá um seminário que contará com a presença de professores e lideranças locais entrevistadas pela pesquisa. No segundo semestre, esperamos publicar um livro com o resultado destes debates e de nossa pesquisa".

Marcelo Burgos espera que seu trabalho ajude a produzir conhecimento sobre a cidadania e o papel que as escolas e ONGs vêm desempenhando nas favelas, além de formar novos pesquisadores sobre o tema. Ele lembra que sem o apoio da FAPERJ, provavelmente a pesquisa não teria fôlego para terminar. "Sem financiamento provavelmente nosso trabalho teria ficado incompleto e se perdido pelo meio do caminho".

Para o sociólogo, a Fundação deveria realizar, em 2007, um seminário para apresentação dos resultados dos projetos contemplados pelo edital Direitos Humanos e Cidadania. "Os temas contemplados neste edital são complementares. Não podemos deixar que este conhecimento se perca, ficando restrito àquela ou esta universidade. Precisamos integrar estas pesquisas. Esta é uma maneira de evitar o prejuízo causado pela falta de interlocução de projetos desenvolvidos nas universidades", opina.

O papel do educador

Monitores do Ceasm contam histórias para crianças na biblioteca da favela Nova Holanda, no bairro MaréAs conclusões da pesquisa mostram que, embora a questão da cidadania e da solidariedade nas favelas não seja objeto de maior atenção por parte do poder público, ela está absolutamente presente no cotidiano da escola, sobretudo quando existe tráfico de drogas na comunidade. "Nestas áreas o professor precisa diariamente pactuar regras de convívio com sua turma para poder dar aulas. Não há uma ação pró-ativa da prefeitura, malgrado os professores muitas vezes assumirem uma postura quase heróica", observa Burgos.

Apesar da falta de visibilidade pública da questão, o cotidiano da favela se impõe na escola. "O professor convive com uma realidade diferente daquela de sua classe. Isso o obriga a diariamente fazer uma ponte entre o mundo em que vive e o que vive sua turma", afirma o pesquisador. "A escola não vive o dia-a-dia do aluno, embora a força da sociabilidade local empurre para isso. Há uma presença perturbadora da vida das favelas na escola", acrescenta.

Para Burgos, de acordo com os professores entrevistados, as crianças moradoras de favelas vivem quase que somente no seu espaço de moradia. "Este fato exigiria da escola uma ação mais vigorosa no sentido de trazer os valores cívicos da cidade para o cotidiano de seus alunos. Desta maneira, contribuiria para reduzir o efeito que o localismo produz na socialização primária das crianças e adolescentes das favelas", conclui.

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