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Publicado em: 21/12/2006

Assédio Moral: portal debate violência no trabalho

reportagem e foto: Vinicius Zepeda

Luciene (à esq.) e Marisa coordenam o estudo que gerou o portal Assédio Moral./foto: Vinicius ZepedaEm matéria publicada no jornal Gazeta Mercantil, de 23 de agosto deste ano, a Justiça do Trabalho de Natal, RN, condenou uma grande empresa cervejeira a pagar indenização de um milhão de reais a alguns de seus funcionários. Pelos relatos, a empresa obrigava empregados que não atingiam suas metas de vendas a vestir camisas com apelidos pejorativos, a fazer flexões de braço, dançar e até assistir reuniões em pé. O parecer final do processo ainda acrescentava que a cervejaria aplicava as mesmas práticas em funcionários de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Brasília. Este tipo de violência no trabalho, objeto de estudo de uma equipe da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) é tema do portal da internet criado com o apoio da FAPERJ e intitulado Assédio Moral – nome dado a tais práticas. 

 

O material ali reunido conta com apoio de uma equipe de pesquisadores do Iesc/UFRJ (Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ) coordenada pela médica Marisa Palácios e a psicóloga Luciene Lacerda.”Assédio moral pode se direcionar para uma pessoa ou a um grupo de pessoas  e caracteriza-se pela humilhação permanente, cotidiana e repetida, afetando sempre a identidade do outro. Muitas vezes os maus tratos e humilhações que alguns trabalhadores são submetidos repetidamente no ambiente de trabalho chegam a causar danos à auto-estima, saúde física e psicológica, provocando sérios transtornos que podem levar algumas pessoas até a pensar em cometer suicídio”, explicam.

 

O novo espaço virtual mostra como lidar com o assédio moral, identificar e caracterizá-lo, quais providências tomar, mostra relatos de vítimas, dá respaldo jurídico, conta casos de ações ganhas na justiça por funcionários de grandes empresas, mostra notícias publicadas na imprensa sobre o assunto, entre outros. Assédio Moral é resultado de duas pesquisas desenvolvidas com apoio da Fundação; Violência no trabalho no setor de saúde, da médica Marisa Palácios – que se propõe a estudar as condições de trabalho e o grau de estresse a que são submetidos os funcionários das oito unidades de saúde pertencentes a UFRJ - e Violência no trabalho: Caracterização do assédio moral no ambiente universitário, da psicóloga Mônica Loureiro dos Santos – trabalho restrito aos funcionários do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, na UFRJ. 

 

O trabalho desenvolvido pela equipe do Iesc/UFRJ teve início em 2001, quando Marisa Palácios participou de um projeto em cooperação com a OIT/OMS (Organização Internacional do Trabalho/ Organização Mundial de Saúde), ISP (Internacional de Serviços Públicos) e CIE (Conselho Internacional de Enfermagem) sobre violência no trabalho no setor de saúde e assédio moral foi uma das questões discutidas.”Depois disto, elaboramos nossa pesquisa em parceria com o sindicato da UFRJ e a DVST (Divisão de Saúde do Trabalhador) e submetemos a idéia a FAPERJ. A construção do portal foi uma das vertentes do projeto”, explica Marisa.  

 

Marisa Palácios acrescenta ainda que o diagnóstico da violência no setor de saúde é anterior a idéia da construção do portal. “Assédio Moral foi conseqüência de nossas pesquisas. Através delas verificamos que no último ano, pelo menos 50% das pessoas do setor de saúde que foram objeto de estudo nosso, foram submetidas a humilhações. Parece até que quando o profissional escolhe trabalhar com a saúde vem junto no pacote que ele sofrerá assédio moral”, afirma.

 

Ela lembra que quando começaram a desenvolver o projeto perceberam a gravidade da situação do setor de saúde. “Logo no começo de nossa pesquisa, um auxiliar de enfermagem veio por livre e espontânea vontade procurar-nos e aos prantos contou humilhações que sofria e que ele não sabia ser vítima de assédio moral”, recorda. Ela chama a atenção ainda para a novidade do assunto na mídia brasileira. “O tema começou a ganhar repercussão na mídia brasileira em 2001, quando foi lançado no Brasil o livro Assédio moral e violência perversa no cotidiano, da psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen”, explica.

 

Já Luciene Lacerda, acrescenta ainda que segundo as pesquisas que a equipe do Iesc vem desenvolvendo, relações de racismo, gênero e classe social também orientam patrões que submetem seus empregados ao assédio moral. “Coisas como boa aparência em anúncios de empregos dizem respeito a serem brancos normalmente. Moradores de favelas são mais submetidos a abusos por parte de seus chefes. Muitas vezes um patrão justifica o fato de lhe passar um trabalho menos prestigiado para sua funcionária sua própria condição feminina”, explica.

 

A pesquisa divulgada em Assédio Moral concentra-se numa primeira etapa nos trabalhadores do setor público e de saúde não apenas por estar sendo desenvolvido no Instituto. ”Há muito poucos estudos sobre a saúde do próprio setor, que estuda mais o bem estar dos outros que o próprio, o que piora a qualidade do atendimento. E a população? Com poucas possibilidades de melhorar estes serviços, acaba partindo para a agressão aos profissionais da área”, explica a médica. Para ela, tal situação ocorre porque os trabalhadores da saúde estão entre a ineficiência do poder do estado e a população. Entretanto, Marisa lamenta que quando os mesmos assumem postos de chefia, submetem seus próprios colegas a práticas de assédio moral.

 

A médica espera que no futuro possa expandir sua pesquisa para outras áreas além da saúde e conscientizar a população a evitar ser humilhada no ambiente de trabalho.”Espero que nosso trabalho, que ganha maior divulgação agora com o portal Assédio Moral sirva para elaborar uma cartilha contra tais práticas e orientar chefes e funcionários no sentido de formular políticas públicas que evitem a violência no trabalho”, diz.

 

Marisa Palácios está buscando reunir pessoas do movimento social, pesquisadores do assunto e juristas em torno do portal. “Aqui no Brasil não temos discutido ainda o assunto em nível de governo, embora a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a OIT (Organização Internacional do Trabalho) já tenha até uma cartilha sobre o assunto”, explica.

 

O objetivo final da pesquisa é ajudar na construção de uma política de combate ao assédio moral tanto administrativo(no caso do agressor), quanto jurídico (no caso do assediado) afim de garantir que o empregado não sofra retaliações, seja marginalizado ou perca o emprego durante o processo. “Sei que é difícil denunciar, é um processo lento, que requer juntar provas materiais, depoimentos colegas que viram, provas fotográficas, entre outros, e muitos têm medo. Mas é essencial, que apesar das dificuldades, o assediado tenha coragem de denunciar para não sofrer futuramente. Afinal, é a própria saúde e sanidade do trabalhador que está em jogo”, conclui Marisa.
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