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Publicado em: 21/12/2005

Mão Branca teria sido obra de ficção da imprensa

Mario Nicoll

Ana EnneDe acordo com os jornais da década de 1980, Mão Branca era um justiceiro ligado a grupos de extermínio da Baixada Fluminense. Pesquisa apoiada pela FAPERJ, no entanto, descobriu fortes indícios de que o personagem foi uma invenção da imprensa. “Os estudos apontam para o caráter ficcional do personagem, que teria sido criado por um repórter do Jornal Última Hora”, revelou Ana Lucia Silva Enne (foto), coordenadora da pesquisa Mídia e Exclusão Social: um olhar etnográfico, contemplada pelo Programa Primeiros Projetos.

Numa série de entrevistas com jornalistas, principalmente repórteres policiais que atuavam na imprensa carioca nos anos 1980, Enne não encontrou nenhum que confirmasse a existência de Mão Branca. “Muito pelo contrário, a maioria dos jornalistas entrevistados defende a idéia de que Mão Branca realmente não existiu”, diz a jornalista, doutora em Antropologia.

Um dos jornalistas a que Enne se refere é José Louzeiro, que, na época, trabalhava na Última Hora e é categórico ao afirmar que Mão Branca é uma invenção. “Ele não participou da farsa, mas conhece toda a história da criação do personagem, tendo inclusive lançado um livro sobre o caso”, conta a pesquisadora.

De acordo com as entrevistas realizadas por Enne, a farsa foi montada para aumentar as vendas do jornal Última Hora. "Com esse intuito, teriam passado a creditar ao personagem mortes que, na verdade, eram causadas por diversos grupos de extermínio que atuavam na Baixada" disse a jornalista.

O objetivo da pesquisa ao desvendar a farsa é colher subsídios para uma grande reflexão sobre a relação do jornalismo com a ética e o sensacionalismo. “É impressionante o poder da mídia. Esse personagem de ficção foi tão bem montado que tinha até voz e registros de chamadas em delegacias”, observou Enne.

O mapeamento do caso Mão Branca é a primeira etapa do estudo que investiga de que forma a grande imprensa carioca vem trabalhando a imagem da Baixada Fluminense em sua cobertura jornalística. “No caso estudado, podemos perceber como se produz, via mídia, um senso comum que relaciona a região da Baixada Fluminense às temáticas da violência e da ausência do poder público atuante”, explicou. Os dados permitirão pensar no papel dos meios de comunicação na configuração de imagens negativas sobre um determinado grupo social ou região.

O projeto faz parte da linha de pesquisa Comunicação e Mediação, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF), que vem sendo desenvolvida desde 1997. Primordialmente, foi realizada uma reflexão sobre a relação mídia e memória na formação de identidades locais, sobretudo nas periferias.

A pesquisa é o ponto de partida para a formação do Laboratório de Mídia e Identidade Social (LAMI), que se propõe a desenvolver o subprojeto Imagens da Baixada na Imprensa Fluminense. Para isso, desde 2003, Enne recebe uma bolsa PRODOC/CAPES. A dotação da FAPERJ foi destinada à montagem do LAMI. “Com o dinheiro da FAPERJ, implementamos o nosso laboratório e adquirimos microcomputadores, impressoras, TV, videocassete, DVD, CD, gravador digital e câmera fotográfica digital”, relacionou a pesquisadora, que lembra ainda que uma bolsa de Iniciação Científica da FAPERJ permitiu a colaboração da aluna Betina Peppe Diniz, do curso de Comunicação da UFF.

Nessa fase inicial, além das entrevistas com jornalistas, a pesquisadora fez uma coleta de dados em jornais e revistas do início dos anos 1980 e produziu um banco de dados. “Também realizamos um grupo de estudo sobre a temática da mídia, narrativa e violência, que reuniu alunos de graduação e de pós-graduação em Comunicação e áreas afins com reuniões no LAMI para discussão da bibliografia selecionada”, disse.

Vários artigos com resultados parciais da pesquisa vêm sendo produzidos por Enne. As reflexões têm sido freqüentemente discutidas com outros pesquisadores em congressos de comunicação e deverão resultar numa publicação sobre sensacionalismo, imprensa e o caso Mão Branca. O projeto prevê também a disponibilização dos dados e resultados para consulta pública através do site do LAMI (www.uff.br/lami) e a realização de um seminário na Universidade Federal Fluminense.

Enne pretende ainda finalizar um mapeamento mais completo sobre a questão da representação da Baixada Fluminense na imprensa carioca nas últimas décadas do século 20. Para ela, uma perspectiva interdisciplinar é fundamental para os estudos midiáticos. “Pretendemos criar no LAMI um núcleo permanente de reflexão sobre mídia, identidade, memória e violência. Com isso queremos promover um intercâmbio entre as áreas de comunicação, antropologia e história”, planeja.

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