O seu browser não suporta Javascript!
Você está em: Página Inicial > Comunicação > Arquivo de Notícias > O legado de René Dreifuss
Publicado em: 12/05/2003

O legado de René Dreifuss

Docente do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF) e um dos responsáveis pela criação do Instituto Virtual de Mudanças Globais (Ivig) da FAPERJ, o Professor René Armand Dreifuss morreu no dia  4 de maio. Uma homenagem a René Dreifuss, o artigo abaixo foi escrito pela jornalista Denise Assis, autora do livro Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe - 1962/1964, editado em 2001 pelo Programa de Editoração da FAPERJ.

 

O LEGADO DE DREIFUSS

Denise Assis (*)

 

Que estranho país esse, que deixa partir em silêncio, quase sorrateiramente, um homem da envergadura de René Armand Dreifuss. Uruguaio de Montevidéu, podem usar como argumento. E é verdade, mas que se naturalizou brasileiro por amar profundamente esse país. E o amou e se dedicou a estudá-lo até as últimas de suas forças. Ao que parece, foi uma paixão não correspondida. Uma coluna na seção do obituário de um dos jornais cariocas, dois dias depois de sua morte, marcou sua despedida. É pouco, para quem, como ele, dedicou 814 páginas, quatro anos de pesquisa, e mais tantos outros de estudos, à história recente do Brasil.

Não fosse por sua argúcia, disposição, e até mesmo uma certa compulsão na busca do fio da meada – que descobriu num amontoado de papéis doados ao Arquivo Nacional – e não teríamos hoje (para os que desejam saber como foi, porque há os que continuam contando como preferem que tenha sido) a história correta do golpe militar de 1964.

Foi seu trabalho, o primeiro a nos mostrar que aquele movimento, que jogou o país nos porões de uma ditadura truculenta por 20 anos, não nasceu de três dias de reuniões de militares insatisfeitos com as reformas de base do governo João Goulart e a quebra de hierarquia dos insurretos da Marinha e demais forças. Nasceu, isto sim, dois anos antes, da conspiração de um grupo de gananciosos empresários, aliados à ala radical e moralista da Igreja, somados a um grupo de militares que, desde a posse de Jango, se sentiu no escanteio da história, por ter que engolir a sua subida ao poder.

O Brasil deve isso ao René Dreifuss. A história recente desse país (independente dos que teimam em escrever a versão oficial como se fosse a leitura definitiva dos fatos) é dividida em antes e depois do lançamento do seu livro: 1964: A Conquista do Estado. Foi esse “uruguaio”, para a “surpresa” de muitos (para dizer o mínimo), quem nos mostrou, com a precisão de um relojoeiro suíço, como funcionava cada peça da casa de máquinas montada por Golbery do Couto e Silva e sua turma, e que jogou esse país na obscuridade do arbítrio.

Mas, infelizmente, da mesma forma como há os que apregoam que “o passado é para ser esquecido” –, indo na contramão do princípio histórico de que os fatos marcantes devem ser entendidos e estudados, para que os erros não sejam repetidos – esqueceram de render a René o tributo merecido. Agora, quando ele não está mais entre nós, vamos ler com mais cuidado o que nos legou René Dreifuss. 

 

(*) Denise Assis é jornalista e autora do livro Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe-1962/1964 – Editora Mauad/FAPERJ.

Compartilhar: Compartilhar no FaceBook Tweetar Email
  FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
Av. Erasmo Braga 118 - 6º andar - Centro - Rio de Janeiro - RJ - Cep: 20.020-000 - Tel: (21) 2333-2000 - Fax: (21) 2332-6611

Página Inicial | Mapa do site | Central de Atendimento | Créditos | Dúvidas frequentes