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Publicado em: 19/05/2005

Estudo alerta para abandono de jardins de Burle Marx

Mario Nicoll

Marina Lemle

 

 

A importância da obra paisagística de Roberto Burle Marx parece não ter sido suficiente para se garantir a sua proteção integral. Grande parte dos jardins projetados pelo mestre está abandonada ou foi modificada sem critério e seu acervo de projetos encontra-se guardado sem acondicionamento técnico adequado nem tem proteção contra roubo ou incêndio. O alerta é da paisagista e pesquisadora Ana Rosa de Oliveira, do Laboratório de Paisagem do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

 

“O jardim é uma obra viva que necessita de cuidados diários. É preciso manter as formas,  irrigar, adubar, retirar plantas invasoras, às vezes podar. Se isso não for feito a obra tende a ser descaracterizada ou até destruída”, explica Ana Rosa, cuja pesquisa se dedica ao resgate da memória de jardins exemplares de Burle Marx entre 1930 e 1960, bem como à compilação, organização e preservação digital do material iconográfico, bibliográfico e produção de escritos do mestre do paisagismo brasileiro.

 

Financiada pela FAPERJ, a pesquisa “O jardim da Villa Moderna no Brasil: um processo de documentação e estudo de obras exemplares de Roberto Burle Marx”, se restringiria ao estudo de projetos residenciais e privados. Ana Rosa, no entanto, pretende estender o foco da pesquisa aos espaços públicos projetados por Burle Marx, devido a sua importância. O Aterro do Flamengo é um exemplo paradigmático do uso do parque como instrumento de planificação urbana e socialização do espaço público.

 

 

Coincidentemente,  é nesse espaço que o Rio de Janeiro tem um dos melhores exemplos de descaracterização da obra do paisagista. Apesar dos projetos de restauro já realizados para a área, o uso intensivo do parque associado à descontinuidade e precariedade da manutenção acabaram gerando um empobrecimento do repertório do jardim com desaparecimento de muitas espécies introduzidas no projeto inicial, a deformação da concepção espacial original, o comprometimento da infra-estrutura, equipamentos etc.

 

Nos jardins do MAM, por exemplo, hoje não se vê o desenho do gramado, que originalmente fazia curvas delimitadas por dois tipos de grama – uma mais escura e outra mais clara. “Hoje o gramado é um caos. As duas espécies se misturaram impedindo que se diferenciem as nuances”, observou a pesquisadora.

 

Os espaços privados

 

Os problemas de conservação não são restritos aos espaços públicos, eles atingem também os jardins privados concebidos pelo paisagista. Dentre os casos mais alarmantes em projetos residenciais, a pesquisadora destaca a casa de Francisco Pignatari, de 1954-55, que não chegou a ser concluída. A propriedade tinha uma configuração rural no contexto da cidade de São Paulo. Foi uma chácara urbana, com um rio não canalizado, uma área plana e outra de encosta. Na sua cobertura vegetal alternavam-se áreas de florestas naturais, pomar e campo. Com cerca de 150 mil m2, a área integra hoje uma reserva ambiental no Morumbi.

 

No final da década de 1950 o terreno foi abandonado e permaneceu sem grandes intervenções até a década de 1990, pois sua venda ficara interditada. Com o falecimento do único herdeiro, a área foi adquirida pelo grupo argentino Bugdeborn e transformada em parque público - denominado Parque Burle Marx - administrado pela Fundação Aron Birmann. O parque engloba os jardins de Burle Marx restaurados pelo Escritório Roberto Burle Marx na década de 90, áreas de lazer ativo e passivo e um sistema de vias para carros e pedestres.

 

A casa, uma significante obra de Oscar Niemeyer projetada em três níveis, para se tirar o máximo partido da declividade do terreno e das vistas, só chegou até as lajes de cobertura, totalmente destruídas. Em seu lugar instalou-se um hotel, um verdadeiro pastiche neoclássico, conforme o próprio grupo Birmann divulgou: “Uma arquitetura clássica e luxuosa, resgatando os padrões dos hotéis mais requintados do mundo”.

 

O jardim seguiu o mesmo destino da casa, foi realizado parcialmente. A única área executada do projeto original foi um jardim lateral da casa, com alguns painéis de concreto, espelhos d’água e o pergolado. A estreita ligação entre espaço interior, jardim e paisagem era uma das particularidades desta Villa. A riqueza de relações e ambientes conformados pelos painéis, pérgulas, maciços arbóreos e áreas abertas do jardim de entorno da casa foi alterada com a construção do hotel – o Palácio Tangará Hotel e Spa -, alterando a escala, as relações, os limites, as visuais do jardim, em suma, destruindo a concepção original deste espaço. O jardim passou a ser um “acessório residual” do hotel.

 

A pesquisa encontrou ainda descaracterização em outros projetos como os feitos para Olivo Gomes, de 1951, em São José dos Campos, SP; Walther Moreira Salles, 1951, no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro; Edmundo Cavanellas, em Pedro do Rio, Petrópolis, RJ; e Alberto Kronsforth, 1955, em Teresópolis.

 

 

Exemplos de recuperação

 

Apesar do quadro crítico, alguns proprietários têm desempenhado importante papel na conservação da obra do paisagista. Uma das obras mais significativas nesse sentido foi o restauro do jardim da  Residência Cavanellas feita pelo atual proprietário, o designer Gilberto Strunck, que encontrou o jardim praticamente destruído e, assessorado por arquitetos paisagistas, trabalhou durante 8 anos para recuperá-lo deixando-o em ótimo estado de conservação.

 

 

Boas iniciativas como essa também vêm sendo apoiados por Ralph Camargo nos jardins Alberto Kronsforth, de 1955, em Teresópolis (RJ) e por Malu Gomes  nos jardins Olivo Gomes, em São José dos Campos (SP), que contrataram paisagistas para elaborar um diagnóstico e uma proposta de restauro.

 

A pesquisa

 

Descasos como os detectados por Ana Rosa  colocam em evidência a fragilidade do nosso patrimônio recente. O respeito pelo legado do passado, mesmo que recente, impõe condições a qualquer intervenção: o trabalho de preservação deve firmar-se sobre critérios e informações objetivas, muitas vezes obtidos em exaustivos levantamentos e pesquisas.  É essa justamente a dificuldade enfrentada por quem precisa dessas informações.

 

Burle Marx pouco escreveu sobre seus jardins.  Pesquisadores têm também dificuldade de acesso a fontes primárias  como informações sobre o corpo da sua obra projetada, seus escritos, sua correspondência e dados sobre acontecimentos da sua vida privada e profissional.

 

“A dificuldade de estabelecer um juízo estético dos seus jardins acabou gerando uma crítica superficial à sua obra, que se concentra na divulgação dos seus aspectos mais evidentes em detrimento do projeto”, lamenta a pesquisadora. “Tudo isso tem ajudado para que sua obra, de um modo geral, siga conhecida nos seus aspectos mais estereotipados”, avalia.

 

Visando contribuir ao conhecimento do legado de Burle Marx, o objetivo da pesquisadora é, analisar os projetos de Burle Marx e traçar constantes do seu método de trabalho. Doutora em arquitetura pela Universitat Politecnica de Catalunya, na Espanha, a gaúcha dividiu seu trabalho em três linhas de investigação. A primeira busca resgatar a memória dos jardins e casas estudadas, através da localização, inventário, sistematização e análise de informações procedentes de fontes diversas (iconografia, entrevistas, bibliografia e observações in loco).

 

 

A segunda linha de pesquisa examina a construção dos jardins e estuda a possível influência da arquitetura moderna brasileira no paisagismo e vice-versa.  A última enfoca a conservação da obra de Burle Marx, analisando os diferentes procedimentos adotados para o restauro de alguns jardins estudados. Esta análise visa fornecer subsídios para a conservação de jardins modernos e contribuir para a inclusão de obras do paisagista na Lista de Patrimônio da Unesco.

 

Se os jardins correm o risco de se descaracterizar e até desaparecer, a documentação existente pode ter o mesmo destino.Guardados sem acondicionamento técnico adequado os documentos merecem tratamento mais de acordo com a sua importância e raridade.  O trabalho de Ana Rosa é uma garantia de que as futuras gerações terão acesso à obra do paisagista brasileiro mais importante do século 20.  As informações colhidas pelo estudo estão sendo disponibilizadas para pesquisa através da criação de um acervo digital e um website: http://www.villamoderna.com/. O material poderá também ser transformado em livro.

 

A pesquisa de Ana Rosa é financiada pela FAPERJ através do Programa Primeiros Projetos, voltado também para a melhora da infra-estrutura de laboratórios. O Laboratório de Paisagem foi criado em 2003, junto com outros laboratórios que se tornaram necessários após a contratação, pelo Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, de 90 técnicos concursados em 2002. O Instituto tem, entre outras atribuições a de planejar e executar intervenções paisagísticas e atividades de restauração, reforma e manutenção do patrimônio paisagístico do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, observando conceitos e critérios internacionais relativos à conservação contidos nos instrumentos que se referem à proteção de paisagens, sítios e jardins históricos.

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