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Publicado em: 02/12/2021

‘Territórios Sensíveis’ participa de exposição sobre a crise ambiental global no Hamburger Bahnnhof, Alemanha

Paula Guatimosim

Montagem com imagens do 'videoduto' (Foto: Ruy Cesar Campos)

A arte pode ser um importante instrumento para ajudar a ciência a sensibilizar e conscientizar comunidades acerca de diversas questões, incluindo as ambientais. É o que vem mostrando o projeto Territórios Sensíveis. Coordenado pela artista e pesquisadora Walmeri Ribeiro, ele está entre os 15 projetos artísticos que abordam a crise ambiental global convidados para a exposição Take Me to the River, na Alemanha. O evento, em comemoração aos 70 anos do Goethe Institut, com curadoria de Maya El Khalil, ganhou versão física desde 29 de novembro e segue até 12 de dezembro de 2021, no Hamburger Bahnhof – Museu de Arte Contemporânea de Berlim.

“Videoduto”, um vídeoensaio de pouco menos de oito minutos de duração, é o resultado da investigação do artista Ruy Cesar Campos, artista-pesquisador, em colaboração com Luiz Antônio-Pãozinho, um jovem pescador da colônia Z-10 na Ilha do Governador. A motivação para a criação nasceu da existência de um enorme duto trazido pelas águas da Baía, que “ancorou” no mangue do rio Jequiá, após destruir diversas embarcações.  Instalado em uma parte desse instigante lixo, a obra foi exibida em primeira mão para a comunidade da colônia. O videoensaio a ser exibido na Alemanha, em meio a outros projetos premiados pelo Prince Claus Fund e Goethe Institut selecionados da América Latina, América Central, Caribe, África, Ásia e Leste Europeu, reúne falas de moradores da Colônia Z-10, que relembram desastres ambientais, entre eles o derramamento de óleo decorrente do rompimento de um duto da Petrobras em 2000. 

“Esta exposição é como um arquivo de vozes contra a extração de recursos, o abuso ambiental e a violação de direitos às comunidades tradicionais, em que cinco narrativas costuram as obras em uma história que ilustra os efeitos da crise climática nas pessoas e no ambiente, apresentando respostas alternativas”, explicou a curadora da exposição, Maya El Khalil.

Desde 2019 Territórios Sensíveis fez da Baía de Guanabara seu local de pesquisa-criação em artes, baseado em uma prática colaborativa e em ações performativas realizadas entre artistas, comunidades locais e cientistas. “Fiquei bastante feliz com a participação na exposição Take me to the River e essa reverberação do trabalho nos dá forças para levar adiante nossa discussão sobre petropolítica e a repercussão das mudanças climáticas na vida das comunidades tradicionais”, diz a pesquisadora, alegando que um de seus primeiros impactos ao navegar na Baía de Guanabara foi se deparar com o lixo flutuante e com a infraestrutura das indústrias petrolíferas.

Por meio da pesquisa e criação em artes, a equipe de Territórios
Sensíveis constroi novas formas de imaginar e viver no mundo
contemporâneo
(Foto: Territórios Sensíveis)

Walmeri iniciou este projeto quando ainda vivia e lecionava na Universidade Federal do Ceará (UFC). Em 2014 iniciou sua investigação junto à comunidade de pescadores de lagosta do município de Icapuí, cidade mais oriental do Ceará, que se queixavam da escassez e reduzido tamanho do crustáceo. A artista conta que foi uma chamada para estudos do Antropoceno, “Anthropocene Curriculum”, do Max Planck Institut, uma instituição alemã que se dedica à pesquisa científica e tecnológica da Antropologia Evolucionária, que abriu seus horizontes. Ao participar dessa rede global de iniciativas e experiências em desenvolvimento para coaprendizagem e coprodução de conhecimento para mudanças planetárias urgentes, apresentando o projeto desenvolvido junto às comunidades pesqueiras do Ceará, a artista foi surpreendida e estimulada em seu encontro com o professor, pesquisador e biólogo Ioan Negritiu, que a convidou a pensar sobre a importância da arte na sensibilização das pessoas para as questões ambientais.

De volta ao Brasil, a artista mudou-se para o Rio de Janeiro e literalmente mergulhou na Baía de Guanabara, às vésperas da Olimpíadas, com o projeto “Territórios Sensíveis”.  Ela conta com o apoio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, para a realização de seu projeto, que reúne artistas-pesquisadores, cientistas, ambientalistas e comunidades locais, que, por meio da pesquisa e criação em artes, constroem novas formas de imaginar e viver no mundo contemporâneo. Em busca de da criação de relações de coaprendizagem, o projeto propõe experiências colaborativas de pesquisa-criação em arte, tecnologia e ciência.

“É nas comunidades tradicionais que o conhecimento realmente existe”, afirma Walmeri. Segundo ela, que também coordena o Laboratório de Pesquisa em Performance, Mídia Arte e Questões Ambientais da Universidade Federal Fluminense (BrisaLAB/UFF), após o mapeamento da Baía, os artistas e demais convidados passaram por uma total imersão nas comunidades, com o intuito de vivenciar o seu cotidiano e estabelecer vínculos afetivos na construção do conhecimento.

Como um projeto em artes, Territórios Sensíveis propõe discutir de forma poética, política e estética como as experiências performativas imersivas em territórios específicos podem contribuir para mudanças urgentes em nossos modos de viver e de pensar o mundo hoje. Num diálogo com os estudos da Performance Arte e da Performance como pesquisa, busca por um conhecimento incorporado (Embodied Knwoledge), a partir de práticas artísticas que trazem o corpo em movimento como propositor. Com o intuito de compartilhar esse conhecimento e discussão com um público mais amplo, as pesquisas e experiências desdobram-se em trabalhos artísticos, textos e livros. “Outro dia fomos com um grupo até a Ilha Seca, que abriga muita vida e muito lixo. Propus apenas sentarmos no cais e fecharmos os olhos por um tempo. Os moradores da colônia nunca haviam ido até lá sem um objetivo concreto”, conta a artista, referindo-se à ilha usada como depósito de combustíveis pela Texaco na década de 1950.

Walmeri: contemplada pelo programa JCNE, a
artista 
coordena ações coletivas entre cientistas,
artistas e as comunidades locais
 (Foto: Sdedeus)

A Colônia Z-10, localizada às margens do Rio Jequiá, num encontro entre o mangue do Jequiá e a Baía de Guanabara, é a mais antiga colônia de pescadores do Brasil, fundada em 1920. Com a escalada da poluição na Baía, hoje, poucos de seus cerca de 5.000 moradores vivem da pesca. Em 2019, durante as atividades da residência artística, a equipe de Territórios Sensíveis trocou conhecimentos, aprendizados e coletou testemunhos de dois dos mais velhos moradores sobre suas memórias envolvendo a Baia de Guanabara e a poluição. Um dos materiais audiovisuais resultantes do laboratório de pesquisa e criação realizado junto à Colônia foi o videoduto, exibido em Take Me to The River.

Símbolo Nacional e declarada Patrimônio da Humanidade pelas Organizações das Nações Unidas (ONU) em 2012, a Baía de Guanabara recebe 18 mil litros de esgoto doméstico não tratados por segundo e 90 toneladas diárias de lixo flutuante. Walmeri Ribeiro conta que durante os laboratórios de pesquisa-criação realizados entre 2019 e 2020, a equipe esteve em meio a dutos de petróleo, currais de pesca, mangues devastados, embarcações petrolíferas e cargueiros, barcos e barcas de transporte de passageiros; plataformas de petróleo. “As manchas de óleo são constantes; mau cheiro forte e muito lixo. Mas, também pudemos experienciar e conviver com um sopro de vida: as correntezas que garantem os fluxos e a limpeza das águas, nas quais tartarugas, peixes, crustáceos; a vida e as histórias de pescadores que persistem e resistem habitando este território chamado Baía de Guanabara”, finaliza a pesquisadora.

Mais informações sobre Territórios Sensíveis e Videoduto em: www.territoriossensiveis.com/baiadeguanabara

Sobre a exposição: Take Me to the River – 29/11 a  12/12/ 2021 no Hamburger Bahnhof|Berlim|Alemanha e na plataforma: www.takemetotheriver.net

Link para o museu: https://www.dw.com/en/goethe-institut-celebrates-its-70th-anniversary/a-59902419

 

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